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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

WALKING THE DOG

João Gonçalves 11 Jun 06


Aproveitei o deserto lunar propiciado pelo "mundial" para ir passear o meu cão em sossego. De facto, não me cruzei sequer com uma alma. Enquanto durava este gesto manifestamente anti-patriótico, lembrei-me do título de uma entrevista ao Expresso - que não tive paciência para ler - do dr. João Figueiredo, ilustre secretário de Estado da Administração Pública. Informa o dr. Figueiredo que "vai dar prémios", presumo que à "nata" do funcionalismo público. Acontece que essa "nata" é escolhida a dedo pelos respectivos chefes e não necessariamente pelos melhores motivos. Há, em português coloquial, várias maneiras de designar o famoso "mérito". Abstenho-me de as nomear, mas o dr. Figueiredo, como bom profissional da administração pública, também as deve conhecer. Entreguem-se, pois, os "prémios". E, já agora, com um saquinho de farturas e uma bandeirinha para o carro. Correm por aí os santos populares.

DA RESIGNAÇÃO

João Gonçalves 11 Jun 06

O Público - um jornal que considero decente - começa a edição de domingo apenas na página 16. Até ali, é só bola. Como escreve na última página o Vasco Pulido Valente, "com Junho e o campeonato, os portugueses correm o risco de morrer de alegria". Melhor do que isto só "O mundo visto pela "Lux", quatro posts de Pedro Correia no Corta-Fitas. E ainda quer o dr. Cavaco que a gente não se "resigne", não coma, não beba e não fume.

SEM TECTO, ENTRE RUÍNAS

João Gonçalves 11 Jun 06


1.Este blogue começou há três anos. Por essa altura, o meu pai entrava pela última vez no IPO para ali morrer cerca de mês e meio depois. O final da tarde desses dias era invariavelmente marcado pela passagem pelo terceiro piso do edifício onde estava internado. Durante dois anos vi ali desaparecer gente de todas as idades e de todas as "classes", uma espécie de "diário de mortes anunciadas". Ajudou-me a relativizar tudo o resto e a perceber, por fim, para onde é que todos caminhamos. Por outro lado, dois meses antes do blogue surgir, tinha largado a direcção do Teatro Nacional de São Carlos, uma episódica "aventura" que terminou cedo demais. Para quem estava habituado a ir àquele Teatro desde os dez ou onze anos, a sensação foi a de ter sido arrebatado prematuramente a um qualquer "desígnio" natural. Por isso, na fase inicial destes "pequeninos", dei tanta atenção à chamada "cultura". Valeu a pena? Não valeu. A Pedro Roseta sucedeu Maria João Bustorff e a Bustorff, a profª Pires de Lima. Vista de fora, a imagem é praticamente a mesma de então: paralisia. Três esforçadas e generosas criaturas, todavia quase o mesmo "fio condutor", marcado pela menorização orçamental e pela crónica indecisão sobre o que deve ser - se tiver que ser - um ministério da Cultura.
2. Depois, os "pequeninos" começaram a interessar-se mais pela chamada política "geral" da nação e, intermitentemente, pela "global". Outro desastre. Em apenas três anos, três governos, todos de maioria absoluta e todos absolutamente incapazes de se entenderem com o país e de fazer o país entendê-los. Com alguma injustiça - reconheço-o hoje sem ironia - "bati" o mais que pude em Pedro Santana Lopes, o "mais humano, demasiado humano" dos três primeiros-ministros que tivemos neste período. A seguir fiz quase o mesmo em relação a Mário Soares para pôr Cavaco em Belém. "Soarista" impenitente, tentei em vão alertar para o perfeito disparate da sua terceira candidatura. O milhão de votos do nefelibata Alegre representou uma humilhação desnecessária para o democrata inteiro e corajoso que é Mário Soares. Dez anos depois da primeira tentativa que também apoiei, aqui e no Independente, "puxei" naturalmente por Cavaco. Por agora, estou a ver no que é que dá.
3. Um propósito destes "pequeninos" foi sempre o de Gore Vidal, "I am not my own subject". Todavia nunca me impedi de escrever sobre livros, gestos, pessoas, coisas e circunstâncias que me agradaram e que me desagradaram. As últimas tiveram infelizmente maior peso. Aliás, este blogue começou por falar em Fátima Felgueiras, na altura uma mera foragida da justiça e hoje, de novo, uma autarca eleita pelo "povo". Recorro a ela porque é um fenómeno que ilustra bem o que tenho procurado exprimir aqui sobre o país, ou seja, a "circularidade" geralmente medíocre do regime. E à mediocridade do regime junta-se a colectiva, a minha incluída. Estes três anos foram de um total desalinho profissional e pessoal. Por junto, uma mão cheia de não-acontecimentos, de promessas virtuais, de actos falhados, de caminhos e de pessoas que não levaram a lado nenhum. Se tivesse de escrever a "história" destes três anos, ela pouco mais "falaria" do que de um imenso fracasso. Até os "pequeninos" se ressentiram disso. Silêncios comprometidos, cumplicidades e solidariedades inesperadas, amizades desconfiadas, outras desfeitas, incompreensões, eis o preço pago pelos "pequeninos" pela sua liberdade intransigente. É, porém, um preço que me dá gosto pagar e do qual não abdico. Os "pequeninos" existem porque me dão gozo e porque há por aí centenas de leitores anónimos que têm sido a minha mais fiel companhia silenciosa, sejam eles detractores ou "apoiantes". À aventura juntei entretanto dois "colaboradores" que pouco colaboram, donde me atrever a falar exclusivamente na primeira pessoa.
4. Ao contrário de Gianni Vattimo, não sou um optimista. Espero quase sempre o pior do "outro" e desconfio do "progresso". Tecnicamente deveria ser considerado um "reaccionário". Como Vattimo, no entanto, sou um "mezzo credenti" que, contra toda a esperança, confia no amor de Deus, na Sua "caritas". Não confio absolutamente em mais nada e em ninguém. O "Portugal dos Pequeninos" entra, assim, no seu quarto ano de existência. Na belíssima expressão de Raul Brandão, sem tecto, entre ruínas.

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