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portugal dos pequeninos

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WAGNER REVISITADO

João Gonçalves 27 Mai 06


1. Tal como certos livros, também outras manifestações artísticas devem ser revisitadas ao longo da vida. A primeira vez que vi O Anel do Nibelungo - a tetralogia de Richard Wagner composta por um "prólogo", O Ouro do Reno, e por três "jornadas", respectivamente A Valquíria, Siegfried e O Crepúsculo dos Deuses - era um adolescente frívolo, universitário e sem dinheiro que assistia com regularidade, ora em "peão de plateia", ora nas cadeirinhas apertadas das famosas "torrinhas" do São Carlos, ao que se passava lá em baixo. Outras vezes esperava que o espectáculo começasse e que as almas caridosas dos porteiros deixassem entrar o pequeno grupo de "tesos" que gostava de ópera apenas por aquilo que ela é, o realismo do excesso. Nesse tempo o teatro era dirigido por João Paes e foi-o, depois, por Serra Formigal. O Crepúsculo deverá ter passado na temporada de 1982/1983, salvo errro, e, desde aí, não mais se ouviu falar do Anel.
2. Lá fora, entretanto, a encenação de Patrice Chéreau para o Festival de Bayreuth, com a direcção musical de Pierre Boulez, marcou indelevelmente todas as produções posteriores da obra. Estão aí os "dvd's" para o confirmar, bem como os da encenação de Otto Schenk, para a Ópera de Nova Iorque, entre 88 e 91, por exemplo. Um imprevisto fez com que, há quatro anos, eu descesse das "torrinhas" (que já não existiam) do São Carlos para a sua direcção, um episódio efémero e infeliz a que pus termo cerca de um ano depois. Nem tudo, porém, correu mal. Conheci um dos mais estimulantes encenadores contemporâneos, Graham Vick, que veio a Portugal encenar a Manon Lescaut e, posteriormente, um soberbo Werther. A Paolo Pinamonti, director do Teatro, e a mim, ocorreu-nos então sugerir a Graham Vick que pensasse numa nova encenação do O Anel para o São Carlos. O Paolo dizia-me nessa altura que, depois de" fazermos" O Anel, até 2006, nos podíamos ir embora. Ironicamente eu fui-me embora uns meses depois, o Paolo ficou e é em 2006, pela sua mão, que O Anel de Graham Vick estreia no São Carlos.
3. A gentileza do Paolo permitiu-me assistir ao "ensaio geral". Vick transformou o espaço do Teatro num imenso anfiteatro "grego" em que a própria estrutura faz parte da encenação. O São Carlos, por estes dias, será simultaneamente o palácio construído pelos gigantes para os deuses decadentes - o Walhalla- e a cave de trevas do nibelungo Alberich e dos seus "escravos", todos movidos pela cobiça do ouro do Reno e, por isso, obrigados a renunciar ao amor. A dada altura, Alberich declara-se "o mais escravo dos escravos" como, na Valquíria, Wotan, "o senhor das batalhas", se proclamará "o menos livre dos homens". Graham Vick - leio-o numa entrevista - concebeu este Ouro do Reno como uma "sátira" que anuncia a "tragédia" que se irá desenrolar ao longo das três jornadas.
4. O Anel
é um dos textos mais geniais que conheço. Adapta-se praticamente a tudo e a todos. É permanentemente contemporâneo e, nesse sentido, atroz pelo seu tremendo "realismo". Quando o vi pela primeira vez, acreditava naturalmente em mim, nos outros, na felicidade e no "progresso". Wagner fora "revolucionário", mas depressa percebeu a natureza humana, a começar pela sua. Esta obra "explica-nos" uma evidência que só o decurso do tempo nos pode ensinar. Tal como a filosofia nos ajuda a aprender a morrer, a música e o texto de O Anel do Nibelungo "mostram-nos" que caminhamos inexoravelmente num único e mesmo sentido, para o fim. "Alles was ist, endet", profetiza Erda a Wotan, o deus verdadeiramente cego: tudo o que é tem um fim. E Wotan, na Valquíria - para mim a "jornada" nuclear de todo O Anel -, no célebre monólogo escutado em silêncio por Brühnhilde, já só clama pelo fim ("das Ende") e pela emergência de "um mais livre do que eu, o deus". Será Siegfried, o herói que conhecerá o apogeu na ópera homónima e a traição dos deuses e dos homens no Crepúsculo. Alberich verá a sua maldição confirmada. E Loge, o deus do fogo, adverte logo no final do Ouro do Reno, escarnecendo dos seus pares, que eles caminham para o palácio e, sem o saberem, para a perdição .
5. O texto de Richard Wagner permite todas as leituras. Agora, com os meus quarenta e cinco anos, já o enxergo melhor. Não o digo com alegria porque isso significa a perda definitiva das ilusões e a aceitação da renúncia, um dos eixos fundamentais desta obra-prima. É Brünhilde quem, no Crepúsculo, antes de se imolar nas chamas, diz renunciar a um mundo de desejo e de sofrimento, traída pela ambição dos deuses. Mesmo a "sátira" de Graham Vick é já uma proclamação irónica do fim das ilusões e ficará como um dos momentos altos da história do São Carlos, assim o público saiba entender o que ali está. O Anel do Nibelungo, com os seus "homens-deuses" e com os seus "deuses-homens", chama-nos a atenção para o paradoxo fundamental da existência. O de ainda sermos o que vamos deixar de ser e o de sermos já o que seremos. Isto é, nada.

(Das Rheingold, O Ouro do Reno, de Richard Wagner, Teatro Nacional de São Carlos, 28. 29. 30. Maio 1. 2. 4. Junho 2006 20:00 | 3. Junho 18:00h)

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