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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

O LIMITE

João Gonçalves 26 Abr 06

"A gente faz qualquer trabalho para ganhar a vida e sustentar a vida. Suportamos tudo mas há um limite". De acordo com o Público, o homem que agrediu mortalmente um presidente de uma Junta de Lisboa e que feriu outras pessoas, proferiu estas palavras pouco antes de ter sido detido na sua casa. Parece que ia ser notificado disciplinarmente para ser despedido. O homem é imigrante mas podia ser português. A simples ideia do "limite" é assustadora. Quantas mais cabeças desesperadas andarão por aí à beira do limite? Que tensões se escondem sob o manto diáfano do "optimismo" e da "modernidade" anunciados?

PAÍS DO EUFEMISMO

João Gonçalves 26 Abr 06

Ao ler levemente os comentários, as notícias e a blogosfera mais dada ao "respeitinho", tudo acerca do pós 25 de Abril de 2006 - por sinal nada político -, lembrei-me, não sei bem porquê, do "País Relativo" do O'Neill. Também gosto do Ruy Belo, como o presidente da República, mas não exactamente daquele Ruy citado. Parece-me que O' Neill vem mais a propósito do que se palrou ontem no Parlamento e do que se vai seguir, se é que se vai seguir alguma coisa. Trinta e dois anos depois continuamos como o poeta nos descreveu nos anos sessenta, "país engravatado todo o ano/e a assoar-se na gravata por engano."

País por conhecer, por escrever, por ler...

País purista a prosear bonito,

a versejar tão chique e tão pudico,

enquanto a língua portuguesa se vai rindo,

galhofeira, comigo.


País que me pede livros andejantes

com o dedo, hirto, a correr as estantes.


País engravatado todo o ano

e a assoar-se na gravata por engano.


País onde qualquer palerma diz,

a afastar do busílis o nariz:

-Não, não é para mim este país!

mas quem é que bàquestica sem lavar

o sovaco que lhe dá o ar?

Entrecheiram-se, hostis, os mil narizes
que há neste país.


País do cibinho mastigado

devagarinho.

País amador do rapapé,

do meter butes e do parlapié,

que se espaneja, cobertas as miúdas,

e as desleixa quando já ventrudas.


O incrível país da minha tia,

trémulo de bondade e de aletria.

Moroso país da surda cólera,

de repente que se quer feliz.

Já sabemos, país, que és um homenzinho...


País tunante que diz que passa a vida

a meter entre parêntesis a cedilha.

A damisela passeia
no país da alcateia,

tão exterior a si mesma

que não é senão a fome

com que este país a come.

País do eufemismo, à morte dia a dia
pergunta mesureiro: - Como vai a vida?

País dos gigantones que passeiam
a importância e o papelão,

inaugurando esguichos no engonço

do gesto e do chavão.

E ainda há quem os ouça, quem os leia,
lhes agradeça a fontanária ideia!


Corre boleada, pelo azul,
a frota de nuvens do país.

País desconfiado a reolhar para cima
dum ombro que, com razão duvida.

Este país que viaja a meu lado,
vai transido mas transistorizado.

Nhurro país que nunca se desdiz.


Cedilhado o cê, país, não te revejas

na cedilha, que a palavra urge.

Este país, enquanto se alivia,
manda-nos à mãe, à irmã, à tia,

a nós e à tirania,

sem perder tempo nem caligrafia.

Nesta mosquitomaquia
que é a vida,
ó país,

que parece comprida!

A Santa Paciência, país, a tua padroeira,
já perde a paciência à nossa cabeceira.

País pobrete e nada alegrete,
baú fechado com um aloquete,

que entre dois sudários não contém senão

a triste maçã do coração.

Que Santa Sulipanta nos conforte
na má vida, país, na boa morte!


País das troncas e delongas ao telefone

com mil cavilhas para cada nome.

De ramona, país, que de viagens
tens, tão contrafeito...


Embezerra, país, que bem mereces,

prepara, no mutismo, teus efes e teus erres.


Desaninhada a perdiz,

não a discutas, país!

Espirra-lhe a morte pra cima

com os dois canos do nariz!


Um país maluco de andorinhas

tesourando as nossas cabecinhas

de enfermiços meninos, roda-viva
em que entrássemos de corpo e alegria!


Estrela trepa trepa pelo vento fagueiro

e ao país que te espreita, vê lá se o vês inteiro.

Hexágono de papel que o meu pai pôs no ar,
já o passo a meu filho, cansado de o olhar...


No sumapau seboso da terceira,
contigo viajei, ó país por lavar,
aturei-te o arroto, o pivete, a coceira,

a conversa pancrácia e o jeito alvar.

Senhor do meu nariz, franzi-te a sobrancelha;
entornado de sono, resvalaste para mim.

Mas também me ofereceste a cordial botelha,

empinada que foi, tal e qual clarim!

INDECISÕES

João Gonçalves 26 Abr 06

Depois das comemorações trágicas do 25/04, a cada esquina mais esquizofrénica, brotam, em constante contagem crescente, simpatizantes activos de movimentos ditos de extrema-direita. Curiosamente, os sítios de recruta são os honoríficos estádios de futebol. Se, por um lado, é inevitável assistir-se à “tarde descontraída para conhecer os jardins e a residência oficial do Primeiro Ministro” que os portugueses possidónios não quiseram perder, é simultaneamente desastroso assistir a estas demonstrações obsoletas da ignorância. “Decididos até onde ir, não devemos ir mais além” é uma boa lição de Salazar que, quem gostar de o seguir, podia aproveitar convenientemente. Portugal mantém-se inanimadamente às apalpadelas e sem grandes decisões.

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