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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

LIMITAÇÕES - 2

João Gonçalves 28 Fev 06

Depois de "gis" , "traços de gis" , de Fernanda Câncio, um belíssimo texto no Glória Fácil . "há uma semana a gis talvez ainda existisse na cave daquela construção embargada no porto. talvez o grupo de jovens que a matou tenha saído à rua como nos dias anteriores, com mais umas maldades engenhosas em mente, a caminho do seu espantoso passatempo (e há quem fale em 'crime inconsciente'? agora também há torturas 'inconscientes' de pessoas que duram dias? a sério?) (...) e não me venham dizer que é normal que ainda não tenha sido mostrada, na tv ou nos jornais (que eu tenha visto, ressalvo) a cara desta mulher que morreu. não é preciso explicar que a exibição de um rosto é uma estratégia básica de humanização e identificação -- e que a sua recusa é uma estratégia básica de abolição.queremos assim tanto que isto não tenha acontecido que negamos um rosto à vítima? queremos assim tanto esquecer aquilo que supostamente ainda não sabemos?"

ALEGRIA PASMADA

João Gonçalves 28 Fev 06


Pasmaceira é a palavra que me ocorre para definir o presente "estado da arte". O Carnaval é um período deprimente destinado a evidenciar, de forma colorida e brutal, a nossa endémica miséria. Basta olhar para as barriguinhas proeminentes das sambistas de província para perceber do que falo. Os pais das criancinhas esmeram-se por as idiotizar um pouco mais. E, em casos mais graves, são os próprios adultos que dão margem à sua alegria forçada exibindo trajes e trejeitos adequados à época. Uma das piores coisas do mundo consiste em fingir a alegria. Entre nós - país periférico, pobre, sem memória seja do que for e pronto a render-se ao primeiro espectáculo "mediático" que lhe aparecer pela frente justamente para se esquecer daquilo que é - é normal que se "finja" a alegria e que se afogue a tristeza em álcool ordinário. É por isso que esta nossa alegria é uma alegria pasmada, sem conteúdo real. No fundo, queremos gritar ao mundo que estamos na merda, mas que estamos vivos. Que fraca consolação.

ATLÂNTICO

João Gonçalves 27 Fev 06


Comprei e fui ler, bem mandado pelo Steiner, para um café. Ficaram lidas as duas prosas de Maria de Fátima Bonifácio, um excelente "obituário político" do "soarismo" (a ele voltarei) e uma outra sobre "costumes", a de Filomena Mónica sobre a ausência de Deus na vida dela (e só Deus sabe como ela tem andado às voltas com a sua "identidade"), a de Constança Cunha e Sá que termina com a sua chegada à blogosfera e a de José Manuel Fernandes. Há muito mais (a Carla, por exemplo, disserta sobre blogues), naturalmente, para ler aos bocados. De qualquer forma, era só para dizer que vale a pena.

CONTINUAR A FALAR

João Gonçalves 27 Fev 06


Não é preciso ler Habermas ou Paul Ricoeur para saber em que é que consiste a "normativização" ou a "regulação" dos "costumes" e da "vida" ou, mais do que isso, até onde se pretende chegar com o exercício. Os "reguladores" raramente possuem a noção do "justo" tal como Ricoeur, por exemplo, a enuncia. Não me debrucei o suficiente sobre a nova Entidade Reguladora para a Comunicação Social para escrever como a Constança. Todavia, como confio mais nela do que em qualquer coisa destinada a "regular" seja o que for - por natureza, sou alérgico, como já o era em relação à defunta Alta Autoridade -, dou por estabelecidas duas ou três coisas graves que nem as falinhas mansas do dr. Santos Silva chegam para disfarçar. Estão todas bem evidenciadas no texto da Constança. E estou à vontade. Sempre fui dos que não simpatizam com o temor, tantas vezes reverencial, com que se olha para a classe jornalística. Só que agora a coisa é outra e mais séria. E aí entra isto, nas palavras da Constança: "seria ainda melhor ver o que vamos fazer nós – e quando digo “nós” não estou a referir-me apenas aos jornalistas." Cá estaremos para ver. Eu não sou dado a pieguices deste género, mas lembrei-me das palavras do padre alemão Martin Niemöeller, que Brecht imortalizou, e que convém obviamente "descontextualizar", salvo na parte em que é importante que alguém continue a falar:
"Primeiro, vieram buscar os comunistas.
Não disse nada, pois não era comunista.
Depois, vieram buscar os judeus.
Nada disse, pois não era judeu.
Em seguida foi a vez dos operários, membros dos sindicatos.
Continuei em silêncio, pois não era sindicalizado.
Mais tarde levaram os católicos.
Nem uma palavra pronunciei, pois sou protestante.
Agora, vieram buscar-me.
E, quando isso aconteceu, não havia mais ninguém para falar."

LIMITAÇÕES (actualizadas)

João Gonçalves 26 Fev 06


1. No Origem das Espécies, "Regular, regular", 1 e 2. "Daqui a uns tempos, se os deixarmos à vontade, toda a nossa vida estará submetida a entidades reguladoras com padrecas especializados ou polícias encartados e nomeados pelo governo ou pelos partidos."
2. No Glória Fácil, "Gis", de Fernanda Câncio: "a não ser que depois do martírio, depois da inominável agonia, depois deste horror que estremece todas as noções, todos os adquiridos (que sabemos falsos mas mesmo assim guardamos) se queira agora enterrar a gis [de Gisberto, o homem morto no Porto às mãos de um bando de "jovens"] nas suas múltiplas exclusões em nome da reabilitação dos seus agressores, fazer de conta que o que se passou não foi assim tão mau e que, sobretudo, não foi, não pode ter sido consciente, quanto mais premeditado.como se pudéssemos -- e quiséssemos -- apagar a gis e o seu terrível destino, para não termos de encarar o que aconteceu e porquê."
3. No Blasfémias, "Direito de pernada em Democracia", de João Miranda: "é natural que os nossos deputados queiram decidir por que métodos e com que meios financeiros é que nós nos podemos reproduzir."
4. No Mais Actual, "Despertar": "A nova legislação, que permitiu a tomada de posse de uma nova entidade reguladora da comunicação, começa a despertar as consciências, dando origem a chamadas de atenção muito pertinentes.Apesar do alerta em devido tempo, nunca são demais as opiniões sobre um assunto sensível e fundamental para a sanidade do regime democrático.Ainda se vai a tempo de inverter uma legislação impensável do autor do célebre golpe constitucional?"

BB COMO ELA É

João Gonçalves 26 Fev 06


A Carla exibe quase diariamente o seu desvelo fotogénico por Brigitte Bardot, na versão "boa". O acaso do zapping levou-me a um "canal de biografias" onde passava a da BB. Bardot era entrevistada na sua casa, com piscina ao fundo, e a conversa era entremeada com a história da vedeta, primeiro a preto-e-branco e depois a cores. A ex-diva já dobrou os setenta e "dobrou", como lhe competia, muitos homens. Porventura farta deles e dela própria, dedicou-se à causa animal. Isso aproximou-a de um outro filantropo de extrema-direita, amigo de Le Pen. No documentário chegou mesmo a falar da "admiração" que sentia pelo líder da Frente Nacional e confessou que nutre um enorme desprezo pela humanidade em geral. Bardot é hoje evidentemente uma ruína. Pelos vistos não apenas física, mas também "humana". A culpa, em parte, não é dela. Existe um mundo que a consumiu e que a secou oportunamente. Os animais são o seu último reduto, a singularidade frívola de uma loira septuagenária.

UMA ESTÁTUA PARA TEIXEIRA-GOMES

João Gonçalves 26 Fev 06


Quase nas vésperas de abandonar o cargo, Jorge Sampaio ainda arranjou tempo para ir à Argélia. Entre outras coisas, vai inaugurar uma estátua de Manuel Teixeira-Gomes em Bejaia, antiga Bougie, onde o ex-presidente da República se exilou e morreu em 1941. Há uns anos, li a biografia dele por Norberto Lopes - "O Exilado de Bougie" - e uns capítulos do livro de Urbano Tavares Rodrigues, "M. Teixeira-Gomes, O Discurso do Desejo" (Edições 70). Teixeira-Gomes sempre me pareceu uma personagem atípica da vida política portuguesa, particularmente da vida "irreal" da I República. Estudou em Coimbra onde frequentou medicina sem lhe conceder a menor importância. A isso preferiu definitivamente a literatura e a boémia. Colaborou em revistas e jornais, nomeadamente "O Primeiro de Janeiro", do Porto, e "A Luta", de Lisboa. O pai era um produtor algarvio - bem "amanhado" - de figos secos e Teixeira-Gomes acaba a viajar, à conta dessa indústria, pela Europa e pelo Mediterrâneo onde desenvolve o seu interesse pela literatura em encontros vários. Começa a publicar. Em 1899, "Inventário de Junho", em 1904, "Agosto Azul" e em 1909, "Gente Singular". A sua vida política inicia-se em 1911 e prolonga-se até 1918, como representante de Portugal em Londres. Quando Sidónio emerge, chama-o e de demite-o do cargo. Teixeira-Gomes fixa-se então no Algarve como administrador das propriedades. Toda a sua obra literária "vive" de figuras algarvias: "Sabina Freire", por exemplo, é uma viúva de Portimão. Entre 1919 a 1923 volta à diplomacia em Madrid e de novo em Londres. Foi eleito presidente em 6 de Agosto de 1923, ganhando a Bernardino Machado. "A política, longe de me oferecer encantos ou compensações, converteu-se para mim, talvez por exagerada sensibilidade minha, num sacrifício inglório. Dia a dia vejo desfolhar, de uma imaginária jarra de cristal, as minhas ilusões políticas. Sinto uma necessidade, porventura fisiológica, de voltar às minhas preferências, às minhas cadeiras e aos meus livros", escreveria. Dotado de uma fina e amargurada sensibilidade, incompatível com a mesquinhez do regime e dos seus servidores, resigna ao cargo em 1925 e parte para Bougie, na Argélia, que ele via como "uma Sintra à beira-mar". Os seus restos mortais só regressariam a Portugal em 1950. Durante o exílio poucos ou nenhuns contactos manteve com o país, família incluída. Era um sensualista que amava os prazeres indistintos que a vida lhe proporcionava, algo que a sua escrita, em grande medida, reflectia. Bem longe daqui, trocou a hipocrisisa nacional pela sua "verdade", fosse lá ela o que fosse. Norberto Lopes via-o, e bem, como uma "personalidade requintada, sóbria, simples como a de um grego do século de Péricles, magnânimo e brilhante como a de um príncipe florentino da Renascença". Manuel Teixeira-Gomes: mais um que se enganou no lugar onde nasceu.

O ESTÁDIO NATURAL

João Gonçalves 26 Fev 06

Para quem, como eu, reside nas imediações do estádio do Benfica, este é mais um domingo infernal. Juntam-se duas boçalidades, os "super-dragões" com os congéneres benfiquistas, uns "neos" qualquer coisa ou "diabos vermelhos". O centro comercial mais perto do estádio, o Colombo, é literalmente invadido por batalhões familiares de cachecóis azuis e vermelhos com uns chapéus rídiculos estilo "joker", uma imitação do diabo, fosse ele imitável. O que ultimamente me tem chamado mais a atenção nestas movimentações futebolísticas é a presença, em número cada vez maior, de mulheres. Antigamente as esposas ficavam nos carros a tricotar e em amenas cavaqueiras com as outras esposas enquanto os cabeças de casal uivavam nas bancadas. Agora parece-me que são as próprias que reclamam o mesmo estatuto de fervorosas adeptas e, seja qual for a idade, lá as vemos arrastando-se para os estádios com o mesmo ar idiota dos companheiros e paramentadas como lhes compete. Em toda a minha vida devo ter assistido a não mais de três ou quatro jogos de futebol. Não "sofro" particularmente por nenhum clube e, quando muito, posso inclinar-me, por mera proximidade histórico-geográfica, para o Benfica, desde que tudo decorra a uma distância conveniente para os meus passos. É que o futebol tropeça vezes de mais na minha vida para que não deixe de me incomodar. Dito isto, e apesar de tudo, espero que o sr. Pinto da Costa regresse ao Porto irritado o que é, aliás, o seu "estádio" natural.

UM PRIVILEGIADO

João Gonçalves 25 Fev 06


"Se não estivesse no 24 Horas seria leitor do jornal?
Não.
Porquê?
Sou um privilegiado. Faço parte de uma elite e tenho uma cultura acima da média. Não tenho os mesmos interesses de grande parte dos leitores do 24 Horas."
(Pedro Tadeu, director do 24 Horas em entrevista ao Independente)

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