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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

DA PARÓQUIA

João Gonçalves 29 Jan 06

Este post acerca da indicação de Tomás Taveira para o "conselho consultivo do IPPAR" e das reacções que a mesma suscitou é muito oportuno. O "lobby" dos arquitectos, capitaneado pela voluntarista-mor do reino, a emotiva Roseta, mandou o mais que pôde no IPPAR até à emergência de Elísio Summavielle. Tomás Taveira, por razões maiores ou menores que não vêm ao caso e que só olham para onde não devem, tem sido o "bombo da festa" destas magníficas cumplicidades. Pode-se gostar ou não gostar do homem, todavia tem obra e percebe da obra. "Se há arquitecto que protagonizou dos últimos e interessantes debates sobre cidade e arquitectura em Lisboa e Portugal, com todos a terem e darem a sua opinião, terá sido Tomás Taveira. Mesmo antes das suas aventuras pela cinematografia. Que não gostem do homem, tudo bem, também não gosto. Que se censure a sua arquitectura, nada do outro mundo, mas é pelo menos uma obra é passível de crítica, (ao contrário do grosso da construção das nossas cidades). Que se pretenda afastá-lo da história da arquitectura portuguesa contemporânea, já é menos sério. Lançar o anátema do cu da menina Kookai sobre ele é que me parece de uma mesquinha vingançazita de quem não tem obra visível e discutida tanto pela mulher de limpezas como pela Maria Filomena Mónica.", lembra bem o autor. O "Portugal dos Pequeninos" de que aqui se fala todos os dias também é feito destas misérias paroquiais denunciadas pelo João. "Sobre a intervenção do IPPAR na sociedade e na cidade haveria muito a dizer: dos tráficos de influências a arquitectos que num ápice adquirem uma valiosa carteira de clientes e ainda mais depressa uma exposição de trabalhos – trabalhos??? – no Centro Cultural de Belém, a promotores que obtêm a anuência do Instituto para o derrube de velhas sanitas de Garrett enquanto que outros, na mesma rua, num lote contíguo, por não serem amigos do IPPAR, não obtêm o mesmo deferimento. Todo um rol de actividades que no fundo no fundo mais não são que a ressonância da forma como a sociedade portuguesa se organiza.No meio dos pedreiros, dos arquitectos e engenheiros, há lobbys. Estes são legítimos. São, porventura, úteis. Neste momento o mais óbvio é o dos paneleiros. Controla a crítica, promove o rabo uns dos outros. Qualquer pequena e irrelevante obra é pretexto para um texto no suplemento cultural de um diário, de uma aparição no único programa dedicado à disciplina emitido na televisão portuguesa – Tempo e Traço, na SicNotícias – onde se debitam discursos à volta do “bar da Laranja Mecânica e da capa de um cd do Triky” como grandes linhas programáticas que orientam um projecto pouco menos que socialmente irrelevante."

VERGÍLIO FERREIRA

João Gonçalves 29 Jan 06


Este post lembra-me Vergílio Ferreira, cujo aniversário natalício passaria ontem. Numa outra minha encarnação, quando escrevia para a "secção" dita cultural do Semanário de Cunha Rego, conheci Vergílio Ferreira. Escrevi, até, uma pequena peça sobre ele a que chamei "parabéns, Vergílio Ferreira" e recebi em troca um amável cartão do autor. Nesses tempos o narcisismo literário-jornalístico ainda não estava completamente na moda, pelo que se podia perfeitamente escrever sobre autores e não apenas sobre os amigos, os amantes, as amantes, os conhecidos e criaturas afins, sem correr o risco de masturbação mútua. Por outro lado, também só se escrevia praticamente num único sítio porque não abundavam as capelas e só havia uma televisão. Tal como ao autor do post, Vergílio Ferreira entrou demasiado cedo na minha vida com o inevitável "Aparição". Anos depois, por causa de Évora, agarrei-me à "Carta ao Futuro" e, por minha causa, li praticamente tudo dele. Os corrosivos diários ("Conta-Corrente") são uma magnífica demonstração de erudição aliada a um curioso sentido do quotidiano, mesmo o político, numa fase ainda incipiente da nossa democracia. Os amores e os ódios de estimação de Vergílio Ferreira estão ali, em estado puro, para quem os quiser ler. O seu delicioso mau feitio, as suas "polémicas", jamais turvaram a amabilidade do trato pessoal. Vergílio Ferreira é um grande autor da nossa língua e foi, para muitas gerações, um professor inesquecível. Quando o vejo arrumado nas prateleiras ao lado da garotada escrevente que passa por "literatura portuguesa contemporânea", imagino a sua "língua de prata" a funcionar bem alto, lá numa eternidade qualquer a que tem todo o direito.

FANTASIAS

João Gonçalves 29 Jan 06

Um político, que o é profissionalmente há mais de trinta anos, como Manuel Alegre, deveria ter-se poupado à patética reunião com os seus duzentos apoiantes. Como ele bem sabe, "o poder dos cidadãos" exerceu-se livremente no último domingo. Descontando os candidatos líderes de partidos que tiveram de prestar contas às respectivas seitas, Cavaco dissolveu imediatamente a maioria que o elegeu e Soares compreendeu a mensagem, retirando-se discretamente de cena. Não foi por acaso que isso aconteceu com os dois candidatos politicamente mais "maduros". Alegre nunca percebeu nada do acaso que lhe foi parar às mãos - antes, durante e depois da campanha e do voto - e quer perpetuar o equívoco. O tempo, "esse grande escultor", encarregar-se-á de lhe explicar que não vale a pena. O país, para bem ou para mal, está "arrumado". Seguiu em frente, como se esperava, e daqui a uns meses ninguém se lembrará de Alegre, a começar pelo milhão e tal que votou nele essencialmente contra qualquer coisa. Prolongar uma fantasia é apenas juntar mais fantasia à que já existe.

O CAMINHO DO GRÃO DE TRIGO

João Gonçalves 29 Jan 06


Não é vulgar ver um Papa a citar Nietzsche, Salústio ou o Platão do Banquete numa encíclica. Todavia, Joseph Raztinger não é um Papa banal, nem tão-pouco o profeta das trevas que os seus apressados e analfabetos críticos teimam em ver nele. É um intelectual, por acaso da Igreja, com um profundo conhecimento do "homem moderno", nas suas luzes e nas suas sombras, nas suas cobardias e nas suas elevações. Cultiva um distanciamento aparente e prudente das "coisas terrenas", porém, e tal como o seu antecessor, conhece-as e pressente-as melhor do que qualquer um de nós. Ratzinger é um excelente "dissecador" do presente, um analista e um "comentador" privilegiado do contemporâneo, precisamente porque a sua extraordinária "couraça" filosófica lho permite. Ratzinger sabe que a sobrevivência da Igreja nestes tempos levianos e superficais depende muito dessa "couraça" e desse sentido profundo das coisas, teimosamente perseguido, com método e sem desfalecimentos, pelo mais alto dignatário do Vaticano. Foi assim com João Paulo II, um homem da resistência em todos os sentidos prováveis do termo, e é assim com Ratzinger, um firme sedutor pela palavra. Eu sou pouco dado ao "amor". As poucas vezes que o tentei entender, espalhei-me. Eu e o "amor" temos uma história complicada de amor e ódio. Diz-me Ratzinger que Deus anda lá sempre pelo meio, sobretudo através do exemplo do Seu Filho. De facto, se alguma coisa me conduz nesta permanente tentativa de "perceber", é o mistério ou, mais adequadamente, o escândalo da cruz, todos os dias renovado, cada vez mais mistério e cada vez mais escândalo. Bento XVI sabe como isto é importante para quem crê e para quem duvida. Eu sou um produto híbrido: um céptico que crê e um crente que duvida. Tudo o que até agora li de Raztinger, contrariamente ao que os seus detractores ignorantes possam imaginar, me permite continuar assim, crendo e duvidando. Como ele escreve na encíclica Deus Caritas Est, "isto é um processo que permanece continuamente em caminho: o amor nunca está "concluído" e completado; transforma-se ao longo da vida, amadurece e, por isso mesmo, permanece fiel a si próprio. Idem velle atque idem nolle -</a> querer a mesma coisa e rejeitar a mesma coisa é, segundo os antigos, o autêntico conteúdo do amor". E é Jesus, finalmente, que no desalinho do seu sacrifício, nos mostra o caminho razoável: "Quem procurar salvaguardar a vida, perdê-la-á, e quem a perder, conservá-la-á » (Lc 17, 33) — disse Jesus, afirmação esta que se encontra nos Evangelhos com diversas variantes (cf. Mt 10, 39; 16, 25; Mc 8, 35; Lc 9, 24; Jo 12, 25). Assim descreve Jesus o seu caminho pessoal, que O conduz, através da cruz, à ressurreição: o caminho do grão de trigo que cai na terra e morre e assim dá muito fruto. Partindo do centro do seu sacrifício pessoal e do amor que aí alcança a sua plenitude, Ele, com tais palavras, descreve também a essência do amor e da existência humana em geral."

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