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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

JÁ PERCEBERAM?

João Gonçalves 8 Out 04

Já repararam que o PP está calado que nem um rato - a diatribe sobre "relações laborais" do Sr. Pires de Lima não conta - enquanto que no PSD, por entre silêncios, excitações e muito boas razões, vão-se abrindo fendas? Ontem o Dr. Portas foi muito claro: comigo, só a Pátria, o fim do SMO e os coitadinhos dos ex-combatentes. Já repararam? Já perceberam?

LER OS OUTROS

João Gonçalves 8 Out 04

Miguel Sousa Tavares no Público
Há várias maneiras de classificar as pessoas. Um amigo meu costuma classificá-las entre as que são importantes e as que o não são - sendo que importante, aqui, significa apenas, e é muito, aquilo que merece a nossa importância, a nossa atenção, e o que o não merece: parece-me, todavia, um critério curto. Uma amiga minha gosta de as classificar, simplesmente, entre boas e más pessoas - bons e maus caracteres: parece-me um critério que faz sentido, mas que abrange apenas o domínio das relações pessoais. Mas, se pretendemos classificar as pessoas pelo critério da cidadania, a classificação que sempre tive como fundamental é a que distingue os homens livres dos capachos. O grande mal português é que temos, verdadeiramente, poucos homens livres. Pouca gente, poucos cidadãos, que estejam dispostos a viver a sua vida, a construir o seu caminho, sem terem de prestar vassalagem a várias formas de poder. Os arquitectos não são livres, porque dependem dos interesses económicos do dono da obra. Os médicos não são livres, porque, regra geral, querem ser simultaneamente profissionais liberais e assalariados do Estado. Os advogados de sucesso não são livres, porque dependem da consultadoria dos governos e do tráfico de influências entre os negócios, o poder e o patrocínio. Os empresários não são livres, porque dependem dos subsídios, das isenções fiscais e da atenção do governo nos concursos públicos. Os intelectuais não são livres, porque estão quase sempre dependentes de empregos, bolsas ou subsídios públicos, os quais acabam inevitavelmente por pagar com simples fretes de propaganda partidária. Os jornalistas, quase todos, não são livres, porque dependem do pequeno chefe, o qual reporta ao editor principal, o qual deve satisfações ao proprietário, o qual tem de prestar atenção aos humores e sensibilidades do poder da hora. Portugal não é, nunca foi, um país de homens livres, de homens verdadeiramente amantes da liberdade, para quem a liberdade seja tão importante como poder respirar. A grande e púdica mentira em que temos vivido nos últimos trinta anos é a de ter acreditado, ou fingido acreditar, que no dia 26 de Abril de 1974 éramos todos pela liberdade. Desgraçadamente, nesse longínquo dia, não era "a poesia que estava na rua", mas sim a hipocrisia. A liberdade não se encontra ao virar da esquina - conquista-se, merece-se e alcança-se, por si próprio e individualmente, com riscos e com perdas, e não a coberto da protecção fácil das multidões ou das leis. Não há lei que possa declarar um homem livre, se ele próprio não está disposto a bater-se pela liberdade que lhe deram e a pagar o preço que ela exige - sempre. Pagamos, e temos pago, bem caro o preço inverso: o preço de não sermos e nunca havermos sido uma nação de cidadãos amantes da liberdade - não a de cada um, individualmente, mas a de todos. O preço de termos empresários que vivem do favor do Estado, sindicatos que vivem do abrigo partidário, intelectuais que vivem das migalhas do orçamento da cultura. O preço de sermos dependentes, tementes e subservientes. As nações de homens livres prosperam; as nações de gente subserviente definham: cada vez estamos mais próximos do México ou da Madeira e cada vez mais distantes da Espanha ou da Inglaterra. Temos, exacta e friamente, aquilo que merecemos. Por ora, não vou perder-me nos sórdidos detalhes desta semana portuguesa, em que de repente foi como se toda a podridão escondida tivesse vindo à superfície. Vi vermes rastejando em directo televisivo, vi o medo, a subserviência, o preço, estampado na cara de gente porventura boa, ouvi razões e argumentos de estarrecer, conheci factos e circunstâncias que nem nos meus mais negros momentos de descrença julguei serem possíveis nesta desilusão a que chamamos Portugal. Por ora, contenho-me, porque o nojo e a revolta são ainda tão presentes que ofuscam a lucidez e a serenidade que certas coisas exigem absolutamente. Mas quem me lê sabe que apenas preciso de tempo e de recuo - como quem recua perante um quadro para melhor o ver. Aliás, impõe-se a distância necessária para tentar entender que país é este, que cidadãos são estes e o que verdadeiramente os preocupa: a vaca a ser mungida na Quinta das Celebridades ou o Governo a ser mungido na Quinta dos Influentes?

OIÇAM COMO ELES RESPIRAM

João Gonçalves 8 Out 04

Convém prestar alguma atenção aos "comentários" que o "tema Marcelo" está a provocar em determinadas entidades, designadamente da área da maioria e do PSD, em particular. Já não falo de Luís Delgado, que ontem de manhã no automóvel me ia fazendo vomitar o pequeno-almoço. Estou a falar de gente a sério. A sério, prestem atenção.

NO PAPEL DA VÍTIMA

João Gonçalves 8 Out 04

Chego a casa depois de assistir à estreia da peça dos irmãos Presnyakov, No Papel da Vítima, no Teatro Nacional D. Maria II. Ligo a televisão para me "esclarecer". Nem que fosse de propósito, aparece-me o Dr. Santana Lopes à saída de uma audiência com o Presidente da República. Pela primeira vez desde que é 1º ministro, Lopes está nitidamente irritado e inconformado. Logo a ele, que só quer "baixar os impostos" e tratar de "assuntos financeiros" bem como de outras urgências pátrias, logo a ele, dizia, acontece-lhe "um Marcelo". Os jornalistas a quem ele trata permanentemente com "elegância", não querem saber de outra coisa. Santana quase que estrebucha, articula mal e responde torto. Em dois minutos, "dá a volta ao texto" e diz-se vítima de "ataques pessoais". Logo a ele, ao "elegante", ao "correcto", lhe havia de calhar tremenda fronda, alimentada todo o santo dia por pessoas que ele até "respeita" e por muitas outras que não o "queriam como chefe do governo". Em suma, Santana incomodado e à beira da "cabeça perdida", já intuiu, e bem, o pior. Como tal, refugiou-se no seu imenso ego ferido, reduzindo o "ruído" à sua fantástica pessoa, vista, como sempre e só ele a consegue ver, no papel da vítima.

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