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portugal dos pequeninos

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UMA CENOURA ...

João Gonçalves 30 Set 04

....é a "tolerância de ponto", vulgo "ponte", dada aos mal-amados funcionários públicos na próxima segunda-feira. Deve ser a primeira "cenoura" de muitas. Para além do mais dá jeito. Os professores da "lista" também são funcionários públicos.

CARMO SEABRA É DA FENPROF?

João Gonçalves 30 Set 04

Teria valido a pena alguém do governo, ou dos partidos que o apoiam, ter perdido cinco minutos a explicar a Carmo Seabra o que é que significa desempenhar uma função política em democracia. A pesporrência e a sobranceria com que aparece em público só reforçam a imagem cada vez mais nítida de um clamoroso erro de casting. Carmo Seabra não só não sabe livrar-se dos sarilhos, como revela uma inexcedível capacidade para os atrair. Os últimos desenvolvimentos nas listas de colocação dos professores provam-no à saciedade. Como se não bastassem os antecedentes, a ministra garantiu que agora estava tudo no sítio certo. Em menos de 24 horas, percebeu-se que pouca coisa estava no sítio certo, a começar por ela. A sua insegurança e a sua fragilidade limitam-se a dar corda aos sindicatos que perversamente esmiuçam qualquer anomalia, transformando-a num verdadeiro caos. O que é grave é a circunstância de as anomalias serem a regra e o método. A ministra, aliás, comporta-se como uma extraordinária organizadora do caos. Com o ar de quem anda às compras na feira de Carcavelos, Carmo Seabra diz que tira "consequências políticas" disto, designadamente uma, e passo a citar: "dá muito trabalho ser ministra da Educação". Quanto ao resto, "não me apetece responder" (sic). Será que Carmo Seabra, afinal, é um "submarino" da FENPROF?.

LER

João Gonçalves 30 Set 04





Não propriamente para fugir à modorra, já que se trata de um grande escritor - desculpem-me os puristas da paróquia -, recomendo a leitura do último John Le Carré, Absolute Friends, e a releitura de The Honourable Schoolboy, porventura a sua opus maior. No meio de tanta indigência doméstica, a prosa de Le Carré é um bálsamo recorrente, mesmo ou sobretudo a "mais antiga".

FAHRENHEIT 150

João Gonçalves 29 Set 04

O Dr. Portas teve outro dia novo grande momento de glória. Para além dos pescadores, dos pensionistas, dos reformados e dos vendedores de mercados, o PP também apostou fortemente nos ex-combatentes. Ao ponto de conseguir uma secretaria de Estado com esta designação, embora ocupada por pequenos lugares-tenentes do PSD. Porém, quando toca a dar, nem que seja um balão, é Portas quem sempre e só aparece. Aliás, os ministros PP especializaram-se na "técnica do balão popular". Consiste em encher de ar de anúncios, promessas e "medidas" a imaginação sempre carente do cidadão distraído e do jornalista "massagista". Uma imagem nas televisões e duas ou três colunas laudatórias num jornal fazem o resto. Como qualquer "balão", chega uma hora em que ele naturalmente se esvazia. Para os nossos animados ministros "populares", isso não tem qualquer importância. O gesto foi e é há-de ser sempre tudo. Justamente os ex-combatentes tiveram agora, ou vão ter, o seu "direito ao balão". Por 150 euros anuais, cerca de dois contos e quinhentos por mês, Portas acha que já pagou bem a dignidade destes homens bem como a sua "promessa". O populismo não mata, mas engorda-se. E Portas, afinal, também tem direito ao seu "Fahrenheit 150".

O ASSALTO II

João Gonçalves 28 Set 04

O governo vai aparentemente baixar em cerca de 30% as remunerações do pessoal hospitalar afecto aos "Hospitais SA". Com uma cajadada, mata dois coelhos. Passam a ser celebrados contratos individuais de trabalho em vez do tradicional vínculo à função pública. Entre outras coisas, isto facilita tanto os despedimentos como as contratações. O que é uma vantagem para os "privados" a quem, na realidade, se destina a "experiência" do Dr. Pereira. Já podem negociar no famoso "mercado" o preço de um médico entretanto sonegado ao serviço público de saúde. Por sinal aquele que é pago directamente pelos contribuintes. Com este generoso governo, quem é que não vai querer ser "privado" quando for grande?

A VIDA MATERIAL

João Gonçalves 28 Set 04

Por razões profissionais, estive numa repartição de finanças de Lisboa. A actual sofisticação terminológica de "serviço de finanças" não mudou em nada a substância do exercício. É vulgar "dizer mal" das "finanças" já que a menção lembra invariavelmente "imposto". Acontece que também é importante, de vez em quando, ver o "outro lado". Este "serviço de finanças" que visitei é o mais "pesado" de Lisboa. Situa-se em Alvalade, numa rua ironicamente chamada "do Centro Cultural". Dizem-me que se trata de um arrendamento de um edifício que pertenceu ao Montepio Geral e que custa cerca de vinte e cinco mil euros mensais aos pagadores de impostos. Visto de fora, até não parece mau. Uma vez lá dentro, percebe-se que aquilo podia ser tudo menos um local de trabalho e um serviço de atendimento ao público. Com três andares, a estrutura tem os tectos rebaixados e falsos - talvez por se pensar que o "contribuinte médio" e o "funcionário público" são mesmo médios de altura - e constitui uma perversa fornalha. Os funcionários explicaram-me que, de inverno, usam roupas de verão porque a temperatura ambiente é naturalmente quente. O ar condicionado é uma metáfora inútil enfiada nas paredes e no chão, dado que não funciona. Os aparelhos colocados junto das janelas mal dão para arrefecer a água que tem que ser consumida aos litros pelos funcionários. O ar é praticamente irrespirável. Pedi para ver o "livro das reclamações". A falta de condições é tão evidente que o "cliente"/contribuinte prefere denunciar as "condições de trabalho" primitivas dos funcionários que os atendem da maneira que podem. Só um "sentido de serviço" arrancado não sei bem a que profundezas das almas daquelas criaturas permite aguentar tamanho opróbrio. Sinceramente, é possível continuar com as bravatas demagógicas da "produtividade", da "melhoria de desempenho" e dos "indicadores" quando não se consegue instalar decentemente umas dezenas de pessoas nos respectivos postos de trabalho? Para quê continuar a acenar aos distraídos e aos ingénuos com a "reforma do Estado" se, numa coisa simples como ter um lugar equilibrado para trabalhar e atender gente, quase se sufoca todo o santo ano, ao ponto dos de fora lamentarem os de dentro? Isto é que é "modernizar a administração pública ao serviço dos cidadãos"? Ou os "cidadãos" que servem na administração pública são menos "cidadãos"? Este episódio da vida material é apenas mais um retrato da mesma miséria e da velha falácia. A única diferença é que agora lhe chamam "tempo novo".

A CARAVANA

João Gonçalves 27 Set 04

Ao horror do crime sucede o horror da novela mediática. A eleição do secretário-geral do PS passa nos intervalos das poças de sangue. O vampirismo da massa ignara junta-se ao arrivismo das reportagens repetidas à náusea. Esta exploração da nossa profunda miséria instintual e cultural, aliada à económica, equivale à indigência dos ambientes em que o crime tem lugar. É, aliás, uma subtil manobra de propaganda e uma forma assaz retorcida de "fazer política". O primarismo gosta de se ver e de ser visto na televisão. Enquanto os cães ladram, a caravana passa.

PORTAS BAIXAS

João Gonçalves 26 Set 04

Num post intitulado "Jornalismo de recados", no Abrupto, José Pacheco Pereira volta ao problema da "mensagem" vs. "massagem" que tantas vezes se confunde nas pobres cabeças de alguns pobres jornalistas vulneráveis a "recados" e a "centrais". Fá-lo a propósito das recentes intervenções, nos jornais, do anterior ministro da Educação, David Justino. É bonito defender-se os amigos e JPP é amigo de Justino. Acontece que Justino se defendeu da pior das maneiras de uma trapalhada iniciada sob sua inteira responsabilidade política. Mesmo que fosse por maldade ou encomenda, o título escolhido para a entrevista ao Expresso é elucidativo do propósito: "não gostaria de estar na pele da ministra". Será que é moda política chutar ao lado, para cima e para baixo, fazendo de conta que só se está no governo para ver passar os comboios? À semelhança dos "contadores de histórias" visados no texto de JPP, também David Justino, que já tinha saído pela "porta baixa", com este tipo de comentários, arrisca-se a ser companhia dos outros na "baixíssima".

SÃO CARLOS: O IMPASSE

João Gonçalves 26 Set 04

Li no Crítico que o governo se preparava para "cortar" substancialmente o orçamento do Teatro Nacional de São Carlos, prejudicando essencialmente a afectação destinada às produções. Se isto corresponder à realidade, significa que a actual tutela sediada na Ajuda continua a inverter as prioridades. O Teatro tem funcionado nos últimos anos numa ilógica e irrealista "fuga para a frente", acumulando deficiências organizativas e de gestão que vão sendo convenientemente varridas para debaixo do tapete para que a "função" possa ter lugar. Quem percebe o Teatro sabe que, por detrás da fachada e do palco, se esconde uma instituição autofágica que não conhece verdadeiramente um rumo. Nada disto seria grave se não fossem os dinheiros públicos a sustentar tamanha bizarria. Para o ano, se não erro, termina a vigência do protocolo de mecenato com o BCP, que deverá pensar duas vezes antes de o renovar. A última tentativa séria para resolver o "problema São Carlos" foi protagonizada por Manuel Maria Carrilho. Acabou com a inútil e sôfrega Fundação de São Carlos, saneou financeiramente a instituição e dotou-a com uma lei orgânica suficientemente flexível para governar a casa. O que se seguiu, limitou-se a empurrar um pouco mais o Teatro para o inverosímil. E com Pedro Roseta e Amaral Lopes, o irrealismo tomou definitivamente conta do Teatro. Pinamonti, o director, já devia ter percebido que o tempo de ir à Praça do Comércio e vir de lá com mais umas centenas de milhares de euros, acabou definitivamente há três anos. Por outro lado, a tenaz do ministério das finanças, sem critério que diferencie os organismos de produção cultural e virada apenas para um segmento da despesa, consentindo o seu aumento justamente onde ela não devia aumentar, também não leva a nenhum lado. Curiosamente não vejo ninguém questionar a irracionalidade da "política" e das despesas de pessoal, quando se sabe que quem paga essa factura é a "produção artística" e o público, afinal aquilo que justifica que o palco se abra. Ignoro se Maria João Bustorff e Teresa Caeiro possuem "um pensamento" acerca do nosso único teatro de ópera. A pura técnica contabilística já não chega e sobretudo não serve quando é mal direccionada. Eu continuo a pensar que o encerramento provisório do Teatro, para o reformular de alto a baixo, seria a solução menos má. Tudo o mais são expedientes que mantêm convenientemente o impasse.
Adenda: Depois de escrito este post, verifico que o Augusto M. Seabra também se lembrou do São Carlos no seu artigo de hoje no Público.

FRANÇOISE SAGAN

João Gonçalves 26 Set 04




Desapareceu na passada sexta-feira a escritora Françoise Sagan. A sua abrupta erupção nas letras francesas fez-se em 1954, aos 19 anos, com o livro "Bom Dia Tristeza". O artigo "A elegância, o humor e a leveza", de Josyane Savigneau, a conhecida biógrafa de Marguerite Yourcenar, é uma bonita homenagem que o Le Monde presta a Sagan.

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