A FENDA ABERTA
Reparei, então, que interessado em preservar qualquer coisa - talvez um interior silêncio, ou talvez não - nos últimos dois anos privara-me de tudo quanto amava, e todos os actos da vida, lavar de manhã os dentes e ter amigos para jantar, começavam a pesar-me como um esforço. Reparei que há muito tempo deixara de gostar de pessoas e coisas, mas continuava a fazer de conta, instintivamente e conforme podia, que elas me agradavam. Reparei que até o amor aos mais íntimos se transformara numa tentativa de amar, as minhas relações de acaso - com um editor, um vendedor de tabaco, um filho de um amigo - se limitavam a lembrar-me aquilo que eu lhes devia dizer tendo em atenção as nossas relações anteriores. Um mês bastou para outras coisas - como o ruído de um rádio, a publicidade das revistas, o chiar dos carris, o mortal silêncio do campo - me encherem de azedume, e a ternura humana provocar desprezo, e a dureza (ainda que oculto) ressentimento, a noite ódio por não poder dormir, o dia ódio por se transformar em noite.
F. Scott Fitzgerald, The Crack Up, trad. de Aníbal Fernandes, Hiena Editora
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<div align="justify"><span style="font-family:arial;color:#000000;"><strong>A FENDA ABERTA</strong></span><br /><br /></div><div align="justify"><span style="font-family:arial;color:#993399;"><em></em></span></div><div align="justify"><span style="font-family:arial;color:#993399;"><em>Reparei, então, que interessado em preservar qualquer coisa - talvez um interior silêncio, ou talvez não - nos últimos dois anos privara-me de tudo quanto amava, e todos os actos da vida, lavar de manhã os dentes e ter amigos para jantar, começavam a pesar-me como um esforço. Reparei que há muito tempo deixara de gostar de pessoas e coisas, mas continuava a fazer de conta, instintivamente e conforme podia, que elas me agradavam. Reparei que até o amor aos mais íntimos se transformara numa tentativa de amar, as minhas relações de acaso - com um editor, um vendedor de tabaco, um filho de um amigo - se limitavam a lembrar-me aquilo que eu lhes devia dizer tendo em atenção as nossas relações anteriores. Um mês bastou para outras coisas - como o ruído de um rádio, a publicidade das revistas, o chiar dos carris, o mortal silêncio do campo - me encherem de azedume, e a ternura humana provocar desprezo, e a dureza (ainda que oculto) ressentimento, a noite ódio por não poder dormir, o dia ódio por se transformar em noite.</em></span></div><div align="justify"><em><span style="font-family:Arial;color:#993399;"></span></em></div><div align="justify"></div><div align="justify"></div><div align="justify"><em><span style="font-family:Arial;color:#993399;"></span></em></div><span style="font-family:Arial;color:#000000;"><div align="justify"><br /><br /><strong>F. Scott Fitzgerald, <em>The Crack Up</em>, trad. de Aníbal Fernandes, Hiena Editora</strong></div><div align="justify"><strong></strong></div><div align="justify"><strong></strong></div><p align="justify"><divalign="justify"><strong>Nota: </strong>Numa outra minha encarnação, seguramente mais feliz, passeando pela Village, em Nova Iorque, fui dar a um alfarrabista. Era uma cave algo lúgubre, cujo vão-de-escada estava repleto de livros usados, os meus mais amados. Eu gosto de sentir o cheiro destes livros, apesar do pó perturbar as minhas alergias. Procuro imaginar as casas onde eles viveram antes, o tabaco fumado, as pessoas que os leram ou tocaram, as vidas que se desfizeram ou que se entenderam sem perturbar o soberano silêncio das páginas. Dessa cave de Manhattan, trouxe uma biografia de Fitzgerald que ainda hoje conserva aquele cheiro característico. É de 1962, e o seu autor é Andrew Turnbull. Que vida, a deste homem e de sua mulher, Zelda. Quatro anos antes de desaparecer, Fitzgerald ainda ironizava com a sua tragédia pessoal: </p><p></p><div align="justify"><em><span style="font-size:85%;color:#993399;">Vou tentar ser um animal correcto, o mais possível, e olhem: se me atirarem um osso com bastante carne agarrada, quem sabe lá se não sou capaz de vos lamber a mão.</span></em></span></div>
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