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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

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João Gonçalves 2 Ago 04

PRIMEIRO ESTRANHA-SE, DEPOIS ENTRANHA-SE V

...na versão de José Pacheco Pereira:

É só contar os dias até ver que intelectual (ou artista) da esquerda vai aceitar colaborar com o governo (melhor, com o seu Primeiro-Ministro), calando um sector crítico e suscitando elogios pela escolha.

No primeiro post com este título, de 11 de Julho último, eu preveni:

O lado afrodisíaco do poder, num país de dependentes e de bananas, é uma atracção fatal. Vamos, aliás, assistir a grandes números de circo, com piruetas e contorcionismos já anunciados. Em pouco tempo, Lopes será consagrado como o novo génio pátrio, e não se fala mais nisso. De políticos a comentadores, de directores-gerais a empresários, da "cultura" ao merceeiro da esquina, todos vão ruminar que afinal "o rapaz não é tão mau como o pintam". É próprio desta nossa raça intelectualmente estéril e um tema abundantemente abordado, entre outros, pela Bíblia, pelos grandes clássicos e por dramaturgos vários. De fora, como de costume, ficará uma meia dúzia de doidos anti-patriotas a berrar no Restelo. Entre nós, é mesmo assim: primeiro estranha-se, depois entranha-se.
**************
(Do lado dos "doidos", registo a novidade Santanáz, incluída na lista da direita)

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João Gonçalves 2 Ago 04

LENTIDÃO E DESDÉM

Encontrei o Zé dos congressos do PSD. Contou-me vagamente como ia a sua vida. Estava a beber uma imperial e a comer um bitoque. Tinha acabado de ouvir o Marcelo na televisão a dizer que o Santana tinha de estudar os dossiers. Tinha lido no Expresso do fim de semana que o Portas era agora o "elemento masculino" da coligação e que o Sarmento ia montar uma "central de informação" para que ele, o Zé, pudesse saber o que o governo quisesse que ele soubesse. Dizia-me, nostálgico:
- Sabes, eu ainda sou do tempo em que, para nós, o Portas não contava. Agora aquele profeta disfarçado de jornalista, o Saraiva, vem-me dizer que ele é o "elemento masculino", o tipo que faz andar a coisa e que o Santana é um doidivanas....E sabes bem como eu gostava de ouvir o Santana nos congressos. Era a parte onde eu acordava.
- Mas, Zé, não confias no Santana?
- De há dois anos e tal para cá que eu não confio em ninguém. O Santana só me divertia. Depois dele falar, daquele imenso ruído cheio de televisões, vinha sempre a parte séria....o Marcelo, o Barroso, o senhor de idade, o Eurico....Olha, este nem pia, de interdito que ficou! O Marcelo diz aquilo dos dossiers e ri-se para dentro...Alguma vez o Santana tem lá paciência para ler dossiers...
- E o teu "padrinho", Zé, o Barroso? Estás todo orgulhoso, não?
- Orgulhoso, eu? Andei a berrar pelo tipo para ele tomar conta disto. Agarrou-se à tanga e à contabilidade, prometeu que isto era coisa para dez anos ou assim, que a seguir ia ser melhor e afinal foi-se embora, tratar da vida dele.
-...o interesse nacional...
- O interesse nacional, para mim, está todo resumido neste bitoque.
- Ouve lá, mas o governo até tem bons ministros: o Bagão, o Barreto, o dos Estrangeiros....
- Parece que sim, mas não me interessam para nada. O Bagão até sabe fazer contas em público, disseram-me que eu não vi. O problema dele é que, quando o chatearem com pedidos atrás de pedidos, pode-se fartar...aqueles amigos do Santana, da província. E os outros, que hão-de querer fazer figura. Até a "tia" da Cultura já quer 1% do OE! Deve ter lido o Carrilho...
- Estás muito desiludido, Zé.
- Sou apenas realista. Sabes, viajei muito nestes últimos anos e li muita coisa.
- Pareces o Ega dos Maias. "Falhámos a vida , menino! Não vale a pena viver..."
- "Depende inteiramente do estômago", como diria o Ega, respondeu-me afoito. E vá de dar mais uma trinca no bitoque que resumia toda a sua "filosofia".
- E o Sócrates?, arrisquei.
- Esse ainda está "em construção".
**********************
Despedi-me do Zé que melancolicamente terminava o seu bitoque ao balcão de uma anónima cervejaria. Lembrei-me, de novo, do Eça, já em casa e antes de correr as persianas. Nada desejar e nada recear...Não se abandonar a uma esperança - nem a um desapontamento. Tudo aceitar, o que vem e o que foge, com a tranquilidade com que se acolhem as naturais mudanças de dias agrestes e de dias suaves. E, nesta placidez, deixar esse pedaço de matéria organizada que se chama o Eu ir-se deteriorando e decompondo até reentrar e se perder no infinito Universo...Sobretudo não ter apetites. E, mais que tudo, não ter contrariedades... Jamais avançar senão com lentidão e desdém.

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