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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

O BRONZE

João Gonçalves 31 Ago 04

Apareceu hoje no Público mais uma pérola "jurídica" ligada ao estafado processo Casa Pia, desta vez produzida por uma magistrada judicial. Uma juíza de turno da Boa Hora não resistiu a deixar a sua "marca" no prolixo processo e quis devolver à preventiva cinco dos arguidos. Entre outro argumentário, alegou que a medida "sossegará, com certeza, as eventuais vítimas deste processo e até potenciais vítimas nos meios sociais em que os arguidos se inserem, originando uma maior tranquilidade e paz social". Aos olhos da juíza Filipa Macedo isto é assim porque "os adolescentes vivem uma liberdade desmedida, passando os dias sozinhos e saindo à noite até altas horas da madrugada", o que os pode tornar "muito 'apelativos' nas suas indumentárias, pela descontracção com que actuam, pelo bronze e penteados que exibem, por indivíduos viciosos e podem ser considerados presas fáceis porque normalmente têm posses insuficientes para as solicitações da sociedade de consumo em que se integram e que os seduz". Esta extraordinária prosa, que mais parece inspirada num híbrido de Lombroso, Kavafis, Machado Pais e Carlos Castro, não convenceu, nem sequer o Ministério Público. Qualquer discípulo de Freud poderia talvez entreter-se a explicar. Eu não consigo. Num ensaio com mais de 50 anos, Eduardo Lourenço, partindo do Livro II da República de Platão, escreveu que "a justiça é apenas uma criação arbitrária da impotência ancestral e do medo dos outros". Este conceito tem, na terminologia burocrático-judiciária dos nossos dias, os seus equivalentes no "alarme social", na "tranquilidade e paz social", na "ordem pública", etc, termos estes que bastam para justificar quase tudo. Recomenda-se, por isso, parcimónia no seu uso. Porém, confesso que a parte que mais gostei no despacho da juíza, foi naturalmente a do "bronze" e dos "penteados" perseguidos avidamente por "indivíduos viciosos". É, sem dúvida, uma imagem perigosamente "apelativa".

O IMPOSSÍVEL

João Gonçalves 31 Ago 04

Em alguns blogues muito respeitáveis, tipo Causa Nossa e Abrupto, questiona-se o Comandante Supremo da Forças Armadas, vulgo Presidente da República, acerca da intervenção e triste figura da Marinha Portuguesa, a mando de Portas, no caso do "barco do aborto". Julgo que eles entendem que o referido Comandante Supremo devia "fazer qualquer coisa", isto é, podia "tomar uma posição". Pelo menos são generosos. Partem do princípio que ele existe. E pedem o impossível.

O PRINCÍPIO

João Gonçalves 31 Ago 04

Em entrevista ao Diário de Notícias, Fernando Ruas, o eterno presidente da Câmara de Viseu e da associação dos "Gauleiters" portugueses, avisou o seu querido amigo e "apoiado" Santana Lopes que eles, os "autarcas", "querem derramas sobre o IRS ou o IVA". Ou seja, querem mais dinheiro do orçamento de Estado para as suas preciosas quintinhas. Precisam naturalmente de "obra" para mostrar aos seus magnânimos eleitores. O esforço de Manuela Ferreira Leite é para espatifar aos pés de criaturas como estas? Parece que sim. E isto é apenas o princípio.

COMO É QUE A SENHORA AGORA SE SENTE?

João Gonçalves 30 Ago 04

...para ler no Bloguítica.Os repórteres televisivos comportam-se, perante a tragédia alheia, como abutres ignorantes a chafurdar em sangue. Assenta-lhes melhor a cobertura das festividades bárbaras de Barrancos, com entrevistas aos néscios locais, ou das florzinhas de plástico de Campo Maior que tanto inspiraram o Dr. Jorge Sampaio para mais uma sonolenta tirada sobre a justiça.

JORNAL DO GATO

João Gonçalves 29 Ago 04




No tempo em que a "literatura portuguesa" era viva, houve polémicas, grupos, ódios e amizades que celebravam o gozo de escrever e de publicar. A censura ajudava a selar algumas solidariedades. A semi-clandestinidade desse mundo aguçava o engenho e dividia os interesses. Dentro do grupo dito surrealista, a propósito de tudo e de nada, mas sobretudo por causa do "espólio" António Maria Lisboa, prematuramente desaparecido aos vinte e poucos anos, e da sua respectiva publicitação, particularmente por Cesariny, este e Luiz Pacheco trocaram epistolografia vária e zangaram-se. Pacheco vagueava intermitentemente pelas pensões e pelas prisões, por reiterados "atentados ao pudor", e, nos intervalos, era editor. Cesariny saía do país e voltava. A Assírio&Alvim publicou agora uma reedição do Jornal do Gato, de Cesariny. Tem por epígrafe um esclarecimento: contribuição ao saneamento do livro pacheco versus cesariny edição pirata da editorial estampa colecção direcções velhíssimas. Cesariny refere-se ao tomo de Luiz Pacheco, Pacheco versus Cesariny, folhetim de feição epistolográfica, publicado pela Editorial Estampa, colecção Novas Direcções, em 1974. Aliás, não faz grande sentido ler o primeiro sem ter por perto o segundo. O excerto de uma carta de Pacheco "a Pepe Blanco, à Estampa, Palácio do Limoeiro, Dezembro, 59" e um outro de Cesariny a Pacheco, de 66, parecem "surrealistas" aos olhos do nosso bem atestado convencionalismo epocal. Graças a um Deus que não é deles, estão ambos vivos e continuam e recomendar-se contra o convencionalismo literato que inunda as prateleiras da "literatura" em português.


Da carta de Pacheco a Pepe Blanco:

(...) Tenho notado, também que a missa (dia de Natal houve missa solene, com um coro de angelicais assassinos) não tem aqui muitos adeptos entre a rapaziada [referindo-se aos detidos no Limoeiro]. Esses gajos católicos para a missa! berravam eles. Mas um respondeu: Que se foda Deus! Vim aqui encontrar o Toninho, o mano do Zanaga, o famoso criador do negócio das listas telefónicas recolhidas de táxi. Está inteiramente familiarizado com o ambiente e já me prestou bons serviços. A vida dele é um eterno vai-vem entre o Lá Fora e o Estar Aqui Dentro. É uma cara familiar aos guardas e aos espelhos. É um tipo fixe. Contou-me ele cenas horrorosas de concupiscência e a palavra encena já a pequena sílaba que faz supor aquilo mesmo a que me quero referir. Eu ainda vira muito pouco (mas algo já me farejava de tais actividades secretas), mas ele jura e tresjura que os rabos (rabos virgens, pouco mais ou menos) são muito baratos, por exemplo: um rabo de 12 anos, loiro! 1 cigarro; um rabo de 15 a 18, "teddy-boy" do Bolero Bar, 2 tostões; e assim por diante; V. leia esta tabela ao Cesariny, para o enraivecer e mostrar-lhe que o lugar dele é aqui. Com os 5 escudos que ele costuma pagar na área da fragatas, são capazes de lhe ir encomendar um rabo lá fora, um rabo de chinês (que são os mais remexidos) ou até mesmo um rabo de polícia (que são os mais apertados). Com 5 escudos tem direito a fotografia, águas quentes ou frias, e sobremesa.(...)

Da carta de Cesariny a Pacheco:

(...)A tua verdade histórica é a merda. Diferente da minha neste ponto: é possível que a minha vida tenha dado cabo de mim, ou eu cabo de mim nela; o amor que tenho à vida fez-me sempre evitar dar cabo da vida dos outros. Não "enterrei" ninguém sempre até á última quis a vida dos outros. Tu incluído. A tua pressa em dar cabo dos outros, diz-me que vida é. E que espécie de cabo. (...) "O senhor não é palhaço, o senhor é escritor". estas linhas do Lisboa, cantei-tas várias vezes, em vários tons. Soube isso no teu texto dos Doutores, Salvação e Menino, que continua a ser para mim o texto lúcido que, em literatura, a época forneceu. Soube-o de novo, com imensa alegria, na publicação do Teodolito. Diante de um texto tal hão-de curvar-se, sem querer, todos os merdas do literário lisboeta. E, o que é mais: pela primeira vez encontrava a tua humanidade, a tua forma natural de sorrir - tens o sorriso mais bondoso, espanta-te, de quantos vi a tentar abrir lábios: sai quase sempre careta, lá diz o Lautréamont - diante das calamidades. Melhor, eras o homem que se confessava isso, homem, e em que mundo assim, de que maneira! Nada a ver com os teus papelinhos acusatórios, de boa ou má esguelha, para a vida ou para a morte dos outros. Creio que não piorei o texto publicando-o com as "emendas", ou "chaves" que tu próprio aceitaste. Acho mesmo que ficou melhor, o que decerto te ofende. Outros textos tens parido de igual, ou maior altura? Este o Luiz Pacheco que conheço, o único que de facto existe e posso amar, mesmo conservando na gaveta, como conservo, e não esquecendo, não são para esquecer, feridas abertas. Em corpo frágil.

CASUS BELLI

João Gonçalves 29 Ago 04

Certamente para provar que é o "elemento masculino" da coligação, segundo o arquitecto Saraiva, Paulo Portas, qual general empertigado no seu fatinho às riscas, mandou atestar baterias contra o "barco do aborto". Inventou que a presença da referida embarcação em águas nacionais equivalia a epidemia, um verdadeiro atentado à "saúde pública". Não autorizou que o barco frequentasse nenhum porto da nossa imaculada costa. E, pelo sim, pelo não, pôs a marinha em alerta, talvez mesmo algum submarino, a sua arma preferida. Chegou inclusivé a pensar no rastreio sanitário das pobres candidatas a uma visita ao barco. Esta vigorosa manifestação de eugenia "macha" acabou por surpreender os próprios partidos da coligação, apesar do "master's voice" Pires de Lima ter vindo de imediato aplaudir tão nobre atitude. Portas apareceu por interposto secretário de Estado do Mar, um titubeante neófito popular que proferiu umas vulgaridades jurídicas adequadas à situação e à sua cabeça. Através deste exercício palonço, o governo apenas conseguiu chamar a atenção para uma coisa que podia perfeitamente ter passado quase despercebida, transformando um episódio meramente colorido num patético casus belli.

AGENDA POLÍTICO-DESPORTIVA

João Gonçalves 28 Ago 04

1. O ex-atleta Sampaio foi barrado por um segurança de um príncipe saudita à entrada de uma piscina no Algarve. Este ignorante e anónimo segurança, apesar de não saber quem era Sampaio, acabou por reconhecer, de uma forma absolutamente inesperada, a verdadeira importância do putativo banhista. O banho das filhas do dito príncipe pesou mais que o Chefe de Estado português em calções.
2. Soube ontem pela voz de um amigo do Dr. Santana Lopes, que por acaso é do governo, que estão cinco ministros (cinco!) a acompanhar as movimentações do "barco do aborto". O próprio "primeiro" também, esclareceu o amigo, "coordenando". Em sociedades menos primitivas, o ridículo supostamente mata. Entre nós, é uma agenda política.
3. A dois dias do final dos Jogos Olímpicos, a prestação nacional retratou com fidelidade aquilo que representava. Um país do "quase quase", do "deixa que eu chuto" e do "deixa-estar-como-está-para-ver-como-é-que-fica", da frase de Ruben A. As modestas conquistas de dois ou três segundos e terceiros lugares são exibidas como uma batalha de Aljubarrota pela idiotice patrioteira. No entanto, não se desespere, sobretudo do futebol. E siga-se o conselho do Almada Negreiros. Coragem, Portugueses, só vos faltam as qualidades.

O ÚLTIMO DOS SANTANISTAS

João Gonçalves 27 Ago 04

Na mesma Visão onde Santana Lopes explicava as agruras de ter que governar 24 horas por dia ou os prazeres de um recanto bucólico nos jardins de S. Bento, "o preferido de Salazar", João Soares pedia que o comparassem a Santana através da sua "obra" em Lisboa. Ainda ninguém explicou ao Dr. Soares que esta obsessão pelo "Dr. Lopes" não o vai levar a lado nenhum. Por duas modestissimas razões. A primeira e desde logo a mais óbvia, consiste na própria natureza do cargo a que João Soares concorre. A circunstância de ter sido um razoável ou mesmo bom presidente de câmara não faz automaticamente dele um notável secretário-geral socialista e, muito menos, um bom primeiro-ministro. A segunda tem a ver com ele mesmo, João Soares. E aí ele tem alguma razão quande se compara a Santana Lopes, embora perca com o exercício. Ambos são voluntaristas, inconstantes, um pouco arrivistas e dados à bravata popularucha. Acontece que as pessoas preferem sempre o original a uma cópia requentada. E quando o original já lá está, então preferem-no a dobrar. Por tudo isto, é remota a possibilidade de os militantes, e muito menos a pátria, se entregarem nas mãos de João Soares, o último dos santanistas.

O FUTURO II

João Gonçalves 26 Ago 04

Há uns posts atrás, chamei a atenção para um texto de Maria de Fátima Bonifácio acerca da educação. Para além da óbvia qualidade da prosa, fi-lo por entender que é por lá que passa muita da nossa endémica miséria, a passada, a presente e a futura. Numa carta editada hoje no Público, a Eduarda Dionísio "responde" e comenta o escrito de Fátima Bonifácio. Não estou de acordo com tudo, embora goste do "tom" e de algumas observações. Nele há uma referência à "educação" dos nossos candidatos a jornalistas em que convém meditar. As vénias da praxe, pois, para o jornal e para a autora.


Mais Dinheiro para a Educação?

Li há uns dias um artigo da Fátima Bonifácio - que julgo que ainda era aluna, quando eu já era professora - que faz um diagnóstico do "estado dos alunos" que poderia a traços largos subscrever. Como ela, penso que a questão do dinheiro não é a principal, se não falarmos em que é utilizado e como... ("Mais dinheiro para a Educação?", 15/08/04). Mas sobre a evolução desse "estado" - que não é assim tão recente... - as causas apontadas e a sugestão dos "remédios" é que me parecem ser mais perigosas do que à primeira vista parecem e são aqueles que não levarão nunca a qualquer melhoria, nem transformação.
Quatro notas:
1. O habitual método de comparar o que já foi (ou se imagina que já foi) e o que é (ou se julga que é - sempre a partir da própria experiência noutra situação) não costuma levar muito longe. Mesmo quando se enunciam as diferenças óbvias entre os tempos, não se leva em conta nem as diferenças entre as populações escolares de então e de agora (e eu-dinossauro ainda admito que existem classes sociais...), nem o diferente papel que o sistema político atribui às escolas na sociedade actual (e eu-dinossauro ainda acredito que há ideologia e que a escola, agora de outro modo, é um "veículo de manutenção e reprodução social da ideologia dominante"...)
2. O "jogo" e o hipotético "prazer" na escola como causa da ignorância e do não-pensar , em oposição ao "esforço" e ao "sacrifício" necessário ao "saber" (qual saber? que saber? para fazer o quê com esse saber?) e ao "pensamento" tem barbas. O que talvez não tenha barbas é o "sacrifício do esforço do jogo obrigatório". Longa história, mais "moderna"... Sobre estas aparentes e falsas oposições remeto para um texto de Mário Dionísio (de há meio século...) chamado "Enfado ou prazer: problema central do ensino" (que o Rui Canário, prof. de Ciências da Educação, retomou há bem pouco tempo), onde evidentemente o autor não defende o "enfado" e onde o "esforço" não se opõe obviamente a "prazer"...
3. Tem-me sido difícil imaginar, ao longo de décadas de professora do ensino secundário oficial (ainda por cima no "centro" da capital...), a maioria dos meus alunos como "centro" da vida dos pais que terão deixado de ter vida própria (em tantos casos, alguma vez a tiveram ou virão a tê-la?) para "contentar" os filhos, etc..., nem qualquer "respeito" pela sua "personalidade", nem "antigamente" nem agora. A acontecer, seria um fenómeno digno de nota na nossa sociedade... As questões são provavelmente outras e bem mais graves: os novos modos de "ascensão social", de "sucesso" e de "selecção", o império do mercado, etc., etc., etc...
4. A lembrar ainda: as alterações relativamente recentes nas escolas e no sistema escolar que têm feito diminuir as "excepções" (sempre excepções) daqueles poucos (professores e alunos) que, das mais diferentes maneiras, foram lutando contra ventos e marés, em épocas muito diversas, dentro das próprias escolas. Se se observa que os alunos estão nas escolas "para passar" e que estudam "para a nota", também se deve observar que poucos professores há que não dêem aulas para "terem bons resultados"... Ou seja: para os alunos "passarem" e terem a décima necessária para entrarem na universidade... e eles serem considerados por isso "bons professores". O trabalho burocrático (em nome da "pedagogia") dos professores aumentou, o medo das leis e dos "inspectores" também (há quem os "avalie"..., a população escolar diminui, etc...), a "desobediência civil" (que sem este nome foi fruto de coisas muito interessantes noutras altura) é-lhes inimaginável, e os "CV" (reais ou fabricados, listas de "acções" frequentadas, etc. e tal) passaram a existir para isto ou para aquilo...
Julgo-me no direito de escrever estas linhas (inúteis e porventura enfadonhas), uma vez que:
1. Dou aulas de Português desde 1969. Sem destacamentos nem equiparações. Únicas interrupções no trabalho lectivo: um ano sabático (suponho que as centenas de páginas de um trabalho de comparação dos programas de Português desde a I República até aos anos 90 em todos os graus de ensino e um pouco com os programas actuais de língua materna em França e em Inglaterra deve ter ido para o lixo...); de há três anos para cá, em resultado de uma doença (mas continuo "ao serviço"). Ou seja: tenho quatro anos de experiência de escolas "marcelistas", de uns anitos de PREC e de duas décadas de "actualidade", que começou nos anos 80.
2. Fui co-autora de muitas antologias de textos de Português (para vários graus) que introduziram nas aulas autores que até então não eram "escolares" (e alguns ficaram). Fui co-autora de programas de Francês para o ensino complementar (antes do 25 de Abril e tenho a alegria de ver que o "Silence de la Mer" do Vercors ainda se passeia pelos programas...). Fui co-autora dos primeiros programas de "Iniciação ao Jornalismo" (disciplina que já foi extinta) e de livros de textos (antes de haver "manuais"). Fui "assistente pedagógica" (orientadora de estágios...) e desisti quase logo a seguir ao 25 de Abril, porque achei que havia coisas mais interessantes para fazer.
3. Deixei de dar Francês quando o Inglês passou a ser "a" língua e os queijos, os perfumes, os vinhos e os cantores da moda ficaram no centro da matéria. Deixei de dar "Iniciação ao Jornalismo", quando a disciplina mudou de rumo e passou a ser ministrada por jornalistas (que se orientavam por "manuais"). Passei há uns anos para o ensino nocturno (e fui parar depois ao recorrente por unidades "capitalizáveis"!), quando alunos "do dia" me começaram a sugerir que "ditasse apontamentos"... e outros que não sabiam ainda escrever "normalmente" (quase no fim do curso secundário) tinham 19 valores em Jornalismo... Deixei o ensino nocturno, porque foi extinto - por desnecessário - na minha escola. Recusei-me sempre a ensinar 12º ano, porque seria "com enfado" que daria aquele programa, porque nunca "prepararia bem os alunos para exame" e porque com outros professores eles teriam mais hipóteses de entrarem na universidade (o que no meu tempo se fazia com um simples 10 e com "classe social" adequada, claro...) 4. Daqui a dias terei os 36 anos de serviço na "carreira", mas não me poderei reformar, porque não tenho ainda 60 anos... Espero que não passe entretanto para 65 anos a idade mínima da reforma como medida de saneamento da economia nacional... Talvez volte ainda a dar aulas, recomeçando a "estudar" programas, que as doenças que impedem de dar aulas só são válidas por dois anos...

Eduarda Dionísio, professora do ensino secundário

VALE A PENA?

João Gonçalves 26 Ago 04

1. Lentamente talvez o Dr. Félix comece a entender o género de pessoas com quem está metido. Refiro-me a colegas seus de governo que, nada satisfeitos com as viaturas "topo de gama" que têm ao seu dispôr a expensas do OE, entendem que o Estado deve adquirir mais 50 para os gabinetes deles. Segundo percebi, o homem do Tesouro está a resistir a esta alarvidade como pode. Veremos entretanto se se aguenta até ao fim. Cada governo tem a retoma que merece. Este fica-se pela retoma de automóveis. Sempre diz bem com o seu estilo parvenu.
2. Outra "tirada" do governo apareceu pela voz do ministro adjunto de Santana Lopes, o brilhante Henrique Chaves. A propósito de uma deslocação a Braga para reunir com os "seus" secretários de Estado, ali exilados, disse que "não sentia nenhuma diferença entre reunir com eles em Lisboa ou em Braga". Ele e isto foram "notícia", palavra de honra. Terá sido a estreia da "central de informação"?
3. Finalmente o próprio primeiro-ministro também foi notícia. Ausentou-se três dias para as Ilhas Baleares, de férias. E antes deu uma entrevista à Visão. Diz que ficou a viver em São Bento para "ter mais tempo para trabalhar". Palavra de honra.
4. Volto a perguntar-lhe, preclaro leitor: a sério, ainda acredita que vale a pena?

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