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portugal dos pequeninos

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João Gonçalves 30 Dez 03

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO DESENCANTO- o voyeurismo doentio

Este ano fica assinalado pelo bombardeamento constante da opinião pública com notícias, eventos e factos, uns importantes e outros sem importância nenhuma, que encheram as primeiras páginas dos jornais, dos tablóides, das revistas, e com voz privilegiada, os jornais televisivos. A pobreza confrangedora do material noticioso juntou-se à exploração miserável de instintos primários e de analfabetismos seculares, pela especulação maliciosa e especulativa dos objectos analisados. A demagogia e o mau-gosto andaram de mãos dadas com a avidez doentia das audiências. O caso emblemático do ano foi , e é agora com maior intensidade, o processo da Casa Pia. Depois de se ter passado pela fase dos palpites e dos pré-julgamentos sob a forma de comentários, passando pela falta de serenidade de alguns protagonistas reais ou eventuais, com a divulgação da "acusação" entrou-se num momento de extrema promiscuidade no qual já está instalada a competição para ver quem é que consegue desvendar o pormenor mais sórdido. Numa acusação tão "exaustiva", só estranho que não apareça à cabeça o Estado, a quem a guarda das crianças molestadas estava confiada, e que falhou rotundamente anos e anos a fio quanto à salvaguarda dos seus direitos, aspirações e segurança mínima. Mas disto ninguém se lembra porque não "pega" noticiosamente .Este voyeurismo malsão não contribui para a maturidade cívica. A comunicação social portuguesa, forma contemporânea de soberania, salvo raras excepções, não quer distinguir a palha do grão, seja para não molestar "interesses", seja no seu próprio "interesse", ou seja ainda por pura e atrevida ignorância. Entretanto, com um ar pseudo grave, vai ajudando ao aviltamento geral, "lançando lama para a ventoínha".

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João Gonçalves 30 Dez 03

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO DESENCANTO- a ascensão do radicalismo populista

Os meus virtuais leitores poderão achar que eu tenho um qualquer tipo de obsessão contra o pequeno partido à direita do PSD e contra o seu lider, o dr. Portas. Não tenho. Aliás, felicitei quase sempre o Paulo Portas pelos seus sucessos políticos e, num acesso espúrio inicial, até me manifestei disponível para colaborar. Tínhamos sido colegas de universidade e de jornais, e eu achava alguma graça à persistência petulante e audaciosa da criatura. Também admirava a sua inteligência rápida e aquilo que eu julgava ser uma forma "outra" de ser conservador em política. No entanto, não foi preciso esperar muito tempo para se perceber que a intuição de Durão Barroso dos idos de 97 a 99, relativamente ao PP, era acertada, e daqui em diante limito-me a ser objectivo. Com a chegada ao poder, o PP resvalou para um radicalismo beato-populista que, numa coligação em que a ideologia não é a característica mais forte do partido maioritário, marca como uma farpa o desempenho "intelectual" desta coligação. Como a generalidade dos protagonistas da dita não se distingue pela sua consistência política ou outra, é relativamente fácil a esse radicalismo beato-populista fazer o seu tranquilo caminho, sem que o dr. Barroso, que é insuspeito na matéria, expire sequer um vago murmúrio. Encerrada a intervenção no "caso Moderna", que o "moderou" perante a liderança da coligação, Portas, assim que pôde, voltou ao seu melhor. Exibe o dr. Félix como uma espécie de campeão reformista na área social e do trabalho, o qual se veio revelando, afinal, um vago "herói" do catolicismo social, ancorado a um novo código de trabalho que ficou "entre as dez e as onze" e que assiste, impotente, ao crescimento do desemprego. Elogia a dra. Cardona, cujo desempenho na Justiça tem merecido a avaliação que se conhece dos respectivos operadores, como se viu no recente Congresso. E colocou uns rapazes, uma menina e uma senhora em secretários de Estado que, de uma forma geral, têm feito ao País o favor de passarem despercebidos. Quanto ao próprio, para além de ser o "timoneiro" ideológico da governação e de ter a seus pés alguns escribas serventuários, o que já é obra, gere a pasta que lhe coube com "chá e simpatia" qb, o que sempre agrada aos militares, pelo menos durante algum tempo, permitindo-se fazer algumas "flores" com as "fatias" que a Praça do Comércio vai dando. Nada de particularmente entusiasmante. Resta ver se, em 2004, esta supremacia ideológica populista se mantém ou se se retrai. O "pensamento" popular acerca da imigração, faz esperar o pior. A prazo, se calhar curto, poderá tornar-se numa "mancha" que contaminará desnecessariamente uma coligação sem nervo e sem chama, onde o partido em que votei, e que foi o mais votado, parece estar a "ver" e a "deixar passar os comboios", conduzidos por uma pequena "locomotiva".

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