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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

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João Gonçalves 30 Set 03

A AMBIGUIDADE LUMINOSA

Via cidadão livre, apreendo que Eduardo Prado Coelho já escreve num blogue. Trata-se de uma iniciativa do PS/Lisboa, aparentemente para "malhar" no Presidente da Câmara de Lisboa, para já. Prado Coelho, cuja obra ensaística muito aprecio, não é propriamente um "modelo" no comentário dito mais "político". Não que isso tenha a ver exclusivamente com questões de "coerência" (quase todos os governantes do mundo, quase todos os "intelectuais", mais cedo, ou mais tarde, são "incoerentes"), mas sobretudo porque Prado Coelho, farejando "poder" ou uma sua aparência, é capaz de entrar inesperadamente numa espécie de ambiguidade luminosa, relativamente bem calculada. Isso tem-se passado em relação a Santana Lopes. É que não se sabe - nem Prado Coelho - o que é que o futuro e o Deus de Lopes lhe reservam. Uma coisa é certa, e isto em relação ao referido blogue: quanto mais se "bate" em Santana Lopes, mais alguém "gosta" dele. Mas essa é uma outra história, talvez de luminosidade ambígua.

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João Gonçalves 30 Set 03

O CÉU QUE NOS PROTEGE

Anuncia-se a fusão entre a Air France e a KLM, a que se juntam naturalmente as respectivas companhias associadas. No actual estado da discussão iniciática acerca da famosa "constituição europeia", este exemplo "federalista" é muito interessante. Mais do que falar da Europa nos forae ou de ter medo dela em casa, esta perspectiva de um "céu único" , através da primeira companhia aérea "europeia", ajuda a perceber a lógica da coisa. Também ajuda a entender o papel insubstituível e fundamental que, na Europa a vinte e tais, desempenham determinados países. Eu sei que não é politicamente correcto dizer isto, mas eu simpatizo com a "velha europa". Não me incomoda rigorosamente nada. Prefiro a solidez de uma Europa comandada por "ela" a uma Europa de "bordas" meramente esforçadas e de "patos-bravos" tagarelas. Alguém verdadeiramente acha que, entre nós, se vai alguma vez perceber o que é isso da "constituição europeia" ou o "federalismo"? O que é que isso interessa ao português da "vida videirinha", muito cioso das suas "coisinhas"? Nada. Nunca irá entender nada deste "céu" que nos protege.

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João Gonçalves 29 Set 03

ANTIGOS

Depois da apólice de seguro que o Dr. Barroso ofereceu ao Dr. Portas, sem aparente prazo de validade, nada como buscar o conforto nos mais modernos, os antigos. Bem anda Pacheco Pereira que nos induz ao convívio com Píndaro, por exemplo. Um homem dos tempos em que o gozo da competição era apenas isso, um puro gozo. E em que a "vitória" era apenas celebrada simbolicamente com uns ramos na cabeça, sem compensações materiais, como mera "honra". A glória daquele desaparecido mundo pagão residia nessa felicidade arrancada ao quotidiano, partilhada por homens esbeltos e de forte alma, eternizados nus em estátuas conhecidas. Tem razão a Professora Maria Helena da Rocha Pereira a quem pertence a tradução dos versos que se seguem. É bem melhor viver com os antigos.

Uma só é raça dos homens e dos deuses.
Ambas respiramos, vindas da mesma mãe.
Porém, um poder bem distinto nos separa.
Uma nada é: e o brônzeo céu, esse permanece
sempre seguro.
No entanto, algo nos aproxima dos imortais,
ou o espírito sublime
ou o corpo, apesar de não sabermos que caminho,
de dia ou de noite,
o destino traçou para nós percorrermos.


Referência: Sete Odes de Píndaro, selecção, apresentação, tradução do grego e notas de Maria Helena da Rocha Pereira, Porto Editora, 2003.

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João Gonçalves 29 Set 03

PELA SAÍDA

O sorriso idiota do Sr. Blair ameaça emudecer. Para além das características pessoais que o tornam irritante, tem por esposa uma senhora advogada que verdadeiramente nunca conseguiu descolar daquela imagem de há seis anos, no dia seguinte à eleição do marido, em que apareceu à porta de casa com ar estremunhado e em "chemise de chambre", a aceitar umas florzinhas. Blair, a esplendorosa encarnação da "terceira via", que comoveu tanta "esquerda caviar" por esse mundo de Cristo, parece que já não convence nem os seus próprios correlegionários. É que andar de braço dado com Clinton, era uma coisa, e passar a vida a correr para o rancheiro do Texas, é outra. As mentirolas acerca da "ameaça" que constituía o armamento do Sr. Saddam, começam a pagar-se caras. E o exercício iraquiano é o sucesso que se conhece. Blair vai tentar uma saída para ficar. O melhor mesmo seria ficar-se pela saída.

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João Gonçalves 29 Set 03

REMOVER OS ESTILHAÇOS

No dia 8 de Agosto, com o país em labaredas, e perante uma extraordinária conferência de imprensa do presidente do Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil, Leal Martins, e sem saber que era só a primeira "fase" da combustão, escrevi isto:

No meio da catástrofe, aparece, via tv´s, o presidente do Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil. O senhor garantiu que os fogos que estão ainda por aí, são já os "normais para a época". E acrescentou que fez uma visita a vários locais sinistrados, falou com muitas velhinhas e pediu à comunicação social que não mostrasse imagens dos incêndios no seu esplendor de morte - as palavras são minhas -, mas antes desse imagens de um bombeiro ou outro, de uma mangueira, enfim, uma versão "música do coração" do combate aos fogos. Eu ouvi e espero que seja repetido várias vezes, para que se acredite. Num País a sério, ou mesmo em África, este cavalheiro já estaria na rua. Aqui, não só ainda mexe, como dá conferências de imprensa palonças. Será que a culpa é só dele?

Eis que, no entanto e nestes últimos dias, o Dr. Figueiredo Lopes andou bem. No caso do (já cansativo) helicóptero e, agora, ao "aceitar" a demissão de Leal Martins. Este era só o topo da coisa, mas ainda há mais uns quantos lugares-tenentes para o seguirem. É bom que se comece a remover os estilhaços.

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João Gonçalves 29 Set 03

TEMPORADAS

Esta semana começam algumas temporadas "musicais". Leio nos jornais e no crítico musical. Aliás, neste até leio mais qualquer coisa:

Temporada Gulbenkian a começar 4 de Outubro, Festival de Mafra a abrir as portas.
Apenas a Temporada do S. Carlos a faltar, mas atendendo ao que se lá tem passado talvez seja melhor fechar as portas e passarmos todos a ir a Espanha, sempre se poupam uns dois milhões de contos ao erário público, o que para não se fazer nada é realmente muito dinheiro... creio que é uma solução ao gosto liberal. Voltarei ao tema do S. Carlos, o Portugal dos pequeninos não perde pela demora, terá em breve, aqui um comentário que, em tão boa hora solicitou.


Enquanto aguardo o prometido comentário, faço eu uns quantos:

1. Como sócio de "Os Amigos do SãoCarlos", recebi um folheto a explicar a mini-temporada que se inicia quarta-feira no S. Luiz. Esta mini-temporada é um bom pretexto para escutar a excelente Orquestra Sinfónica Portuguesa, um dos corpos artísticos do Teatro, tanta vez desaproveitada e mal coordenada, ao lado do Coro, sobre o qual deixo ao crí­tico quaisquer apreciações mais "técnicas", sobretudo acerca da sua discutida e discutível direcção musical. No primeiro concerto, canta a soprano Elisabete Matos, a quem já dediquei umas prosas (ver aqui os posts O Anel da Cultura II e III, e aqui , o post Cantar Cá Dentro).

2. No referido folheto de "Os Amigos de São Carlos" há um lapso que importa corrigir. A temporada lírica não se inicia em Janeiro de 2004 por haver obras no palco do Teatro. O mais perto do palco que estará qualquer coisa, é apenas do fosso da orquestra, cujo soalho deverá ser levantado, limpo e convenientemente desinfectado. Nada mais. Essa ideia de ligar o fecho do Teatro, até Janeiro, a obras no palco, é puramente mitómana, e pode induzir os incautos a pensar que se está a proceder a uma grande remodelação, como se nos tempos que correm se pudesse fazer o que quer que fosse de vulto. Sei isto porque fui eu, à altura no Conselho Directivo, com a Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, quem planeou, com o dinheiro que havia, estas intervenções.

3. O dia 1 de Outubro, data do início da tal mini-temporada, é o Dia Mundial da Música. Ignoro se a entrada é livre, mas suspeito que não, a não ser para a longa lista dos convidados da direcção do Teatro e da nomenklatura. Eu, pelo sim, pelo não, comprei bilhetes no S. Luiz (sim, vendem-se alguns bilhetes...) uma vez que, por causa da minha carta de demissão, o Sr. director considerou que o tinha "traído" (sic) e que, como tal, mesmo tendo sido membro do conselho directivo, não tinha direito a ser convidado. Para um director que, em dois anos e meio de mandato, já viu passar cinco vogais na sua direcção, trata-se de uma estranha inversão de conceitos. Como há mais de 20 anos que vou ao TNSC, sem nunca ter sonhado em fazer parte da sua direcção, comprando quase sempre o meu honrado bilhete, é para o lado que durmo melhor. Aliás, dada a muito significativa e especial apetência que, pelo menos, dois dos membros do actual conselho directivo têm pela chamadas "relações públicas", temo pelo esvaziamento, a prazo curtí­ssimo, do magnífico desempenho, em prol dos interesses do Teatro, da efectiva titular das "relações públicas", ainda recentemente agraciada, por causa desse mesmo desempenho, por Jorge Sampaio.

4. O site do São Carlos, para além de ter custado o que custou e de valer o que vale, tem a informação "parada" no final da temporada 2002-2003. O que nasce torto, tarde ou nunca se endireita...

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João Gonçalves 28 Set 03

UMA FOTO

Neste blogue discutem-se de vez em quando, e quase sempre criticamente, as posições do Dr. Portas. Nada de pessoal. Fomos colegas na universidade, em jornais e, há cinco anos, não me desagradou a ideia da "AD" de Marcelo. Portas estragou tudo em 45 minutos, numa entrevista assassina a Margarida Marante. Também já aqui escrevi que sou adepto de um PSD maioritário, sem acólitos. Como julgo que será útil ao PS pensar da mesma maneira, para o futuro. A perspectiva de 2010, com este PP às cavalitas, é assaz desagradável. Como escrevi anteontem, o congresso do CDS foi uma espécie de celebração eucarística destinada a ungir e a quase beatificar o líder. Têm razão. Se estão no poder, a ele o devem. Em suma, Portas é o que ele é, na melhor tradição shakespeariana. Dito isto, julgo, porém, que não merecia a maldade da foto da página 2 da edição impressa de hoje do Público. Nela vemos um líder hirto, tenso, olhar determinado, com as massas por detrás, meio desfocadas... e com o braço direito estendido, naquela conhecida maneira dos anos 30. Portas estava seguramente a pedir aos congressistas para não aplaudirem, mas a maldade ficou feita. E, a meu ver, não tem graça nenhuma. A foto não sabe "dizer" aquilo que dá a "ver". Ou então quer "dizer" mais do que o que dá a "ver", o que é bem pior. Há fotógrafos que deviam ler "A Câmara Clara", de Roland Barthes.

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João Gonçalves 28 Set 03

MODERNOS

XENÓFANES

Dito de Cólofon, terá vivido cerca de 570 - 470 a.C. Filósofo pré-socrático, pensador, poeta e rapsodo, andou por toda a Grécia a declamar a sua poesia. Foi expulso de Cólofon aos 25 anos, passando desde então a levar uma vida de errância, fugindo persistentemente ao domínio persa. Toda a sua obra foi composta em verso. Xenófanes terá sido o primeiro pensador a evidenciar a "unidade" como o "princípio (arché) da realidade" (physis). Segundo o entendimento de Xenófanes, a "verdade" acerca das coisas é inatingível aos homens. Para ele, o que se constrói acerca da realidade é somente aparência e opinião. Em suma, um filósofo para ler e meditar nestes nossos complexos dias. Deixo aqui um seu poema, traduzido por Maria Helena da Rocha Pereir.

Elogio da Sabedoria

Mas se alguém alcançar a vitória com a velocidade
dos pés, ou do pentatlo, - onde fica o santuário de Zeus,
junto das águas de Pisa, em Olímpia - ou na luta,
ou porque sabe a arte dolorosa do pugilato,
ou ainda num concurso terrível, chamado o pancrácio,
será mais ilustre à vista dos seus concidadãos,
terá o lugar de honra mais aparatoso nos jogos
e alimentação a expensas públicas
da sua cidade, e uma dádiva, que será para ele um tesouro.
E, se ganhar com cavalos, tudo isto ele obterá,
sem ser digno como eu. Pois melhor do que a força
de homens e corcéis é a nossa sabedoria.
É isso um modo de pensar leviano, e não é justo
preferir a força à notável sabedoria.
Pois bem que viesse entre o povo um valente pugilista,
ou um homem hábil no pentatlo ou na luta,
ou na corrida, que tem ainda a preferência,
e tantos actos de força demonstrasse no combate,
nem por isso a cidade estaria em melhor ordem.
Pequeno prazer seria para a urbe
que alguém vencesse nas provas das margens do Pisa.
Pois não é isso que enche os cofres da cidade.

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João Gonçalves 27 Set 03

A MARCHA

Sobre a "marcha branca" da Dona Catalina, do Dr. Strecht e das fantásticas associações das "famílias numerosas", está tudo dito pelo Pacheco.

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João Gonçalves 27 Set 03

CÂNDIDA

A procuradora geral adjunta Cândida de Almeida, por quem tenho grande estima, mostrou-se "chocada" com o resultado final do mega-processo das FP-25 em que interveio com principal protagonista pelo lado da acusação. O Estado, através de Ministério Público, tinha então contado com a colaboração dos chamados "arrependidos", peças fundamentais no desmantelamento e prisão dos principais responsáveis da organização. À nossa melhor maneira, depois de todas as peripécias por que passou o processo, foram os "arrependidos" quem acabaram condenados. O Estado, via Procuradoria Geral da República, deixou entretanto passar o prazo para recurso, tornando definitiva a condenação que obriga os "arrependidos" a pagar indemnizações às vítimas dos atentados terroristas das FP-25. Isto quando tinha assumido o compromisso "de honra" de diligenciar para obter uma isenção de pena para estas criaturas. Cândida, que candidamente tinha dado a cara por esta promessa e que é da "casa", ficou naturalmente interdita. Nós, os que vemos de fora, também ficámos. A PGR supostamente vela pelo interesse público, pelos desvalidos e desprotegidos e pela realização do famigerado direito. O facto de muitos magistrados, quer do MP, quer judiciais, viverem na estratosfera e de lhes escapar o tal "sentimento jurídico colectivo", não pode servir de desculpa a este miserável desfecho. Convinha que o Sr. PGR tomasse uma posição, de preferência sentado à secretária. Não é aceitável que a PGR se faça de "cândida" quando, na realidade, o não é.

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