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portugal dos pequeninos

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João Gonçalves 25 Ago 03

HOMENAGEM

Sérgio Vieira de Mello vai ficar sepultado, em Genebra, muito perto de Jorge Luis Borges. Numa tradução livre de um seu poema, lembro os dois. Ter-se-ão certamente por boa companhia. Eram dois homens bons, cada qual na sua livre maneira de interpretar a palavra esperança.

Já somos o esquecimento que seremos.
A poeira elementar que nos ignora
e que foi o ruivo Adão e que é agora
todos os homens e que não veremos.

Já somos na tumba as duas datas,
do princípio e do fim, o esquife,
a obscena corrupção e a mortalha,
os ritos da morte e as elegias.

Não sou o insensato que se agarra
ao mágico som do teu nome:
penso com esperança naquele homem
que não saberá que estive sobre a Terra.

Por debaixo do indiferente azul do céu,
esta meditação é um consolo.

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João Gonçalves 25 Ago 03

DESESPERADO

Acabei de ler o romance de Miguel Sousa Tavares, Equador (Oficina do Livro). Lê-se num ápice. Tem trama e personagens com consistência. Está, ademais, bem escrito. Dispensava, é certo, alguns pormenores "técnicos" das performances sexuais dos protagonistas, v.g., o vulgar "linguado" que é verdadeiramente uma obsessão, no detalhe e na repetição. A acção tem lugar no princípio do século XX , no fim da Monarquia. D. Carlos, interessado em fazer ver aos ingleses que a nossa colonização era "exemplar" e que os "pretos" das roças de café e de cacau de S. Tomé e Príncipe eram praticamente livres, e que não havia trabalho "escravo" importado de Angola, mandou para lá o anti-herói , Luis Bernardo Valença, como Governador. Este rapaz, que se julgava "reformador" e que era um dandy libertino de Lisboa, convenceu-se de que podia mudar a famosa mentalidade do português merceeiro e espertalhão que mandava nas roças e nos pretos. Havia que causar boa impressão ao Cônsul inglês, cuja missão era informar o governo de Sua Majestade e as empresas inglesas interessadas no cacau, de que havia ou não trabalho escravo em São Tomé. Valença e o Cônsul, que partilhavam algumas mesmas ideias e a mesma mulher, entendem-se muito bem, até ao momento fatal em que o segundo sabe que o governador é amante da sua fogosa e insaciável esposa. Apesar de uma visita do Príncipe Real à colónia, e do tímido apoio ao "reformismo" de Valença por causa dos ingleses, os portugueses "patrões" e velhos colonos, não querem ouvir falar de "direito do trabalho" e odeiam visceralmente o governador. A relação com a mulher do Cônsul é usada contra ele por causa dos trabalhadores das roças, e a acção precipita-se, no princípio de 1908, com as "mortes anunciadas" de Valença- pede a demissão por carta e a seguir suicida-se - e de D. Carlos e do Príncipe Real, D. Luis Filipe, na célebre rua assassina do Arsenal. Luis Bernardo Valença vai ao longo do romance, passando do boémio bonito, solteirão e semi-frívolo de Lisboa, que escrevia umas coisas interessantes sobre as Colónias, ao desesperado amante e frustrado governador de um pedaço obscuro de Portugal, perdido no meio do mar, em África. É aí, nesse retrato da perigosa e precária solidão do protagonista, bem como na reconstrução do ambiente de S. Tomé, à época, que, julgo eu, se joga bem jogado o lance fundamental deste primeiro romance de Sousa Tavares, a história funesta de um perdido português.

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