HOMENAGEM
Sérgio Vieira de Mello vai ficar sepultado, em Genebra, muito perto de Jorge Luis Borges. Numa tradução livre de um seu poema, lembro os dois. Ter-se-ão certamente por boa companhia. Eram dois homens bons, cada qual na sua livre maneira de interpretar a palavra esperança.
Já somos o esquecimento que seremos.
A poeira elementar que nos ignora
e que foi o ruivo Adão e que é agora
todos os homens e que não veremos.
Já somos na tumba as duas datas,
do princípio e do fim, o esquife,
a obscena corrupção e a mortalha,
os ritos da morte e as elegias.
Não sou o insensato que se agarra
ao mágico som do teu nome:
penso com esperança naquele homem
que não saberá que estive sobre a Terra.
Por debaixo do indiferente azul do céu,
esta meditação é um consolo.
DESESPERADO
Acabei de ler o romance de Miguel Sousa Tavares, Equador (Oficina do Livro). Lê-se num ápice. Tem trama e personagens com consistência. Está, ademais, bem escrito. Dispensava, é certo, alguns pormenores "técnicos" das performances sexuais dos protagonistas, v.g., o vulgar "linguado" que é verdadeiramente uma obsessão, no detalhe e na repetição. A acção tem lugar no princípio do século XX , no fim da Monarquia. D. Carlos, interessado em fazer ver aos ingleses que a nossa colonização era "exemplar" e que os "pretos" das roças de café e de cacau de S. Tomé e Príncipe eram praticamente livres, e que não havia trabalho "escravo" importado de Angola, mandou para lá o anti-herói , Luis Bernardo Valença, como Governador. Este rapaz, que se julgava "reformador" e que era um dandy libertino de Lisboa, convenceu-se de que podia mudar a famosa mentalidade do português merceeiro e espertalhão que mandava nas roças e nos pretos. Havia que causar boa impressão ao Cônsul inglês, cuja missão era informar o governo de Sua Majestade e as empresas inglesas interessadas no cacau, de que havia ou não trabalho escravo em São Tomé. Valença e o Cônsul, que partilhavam algumas mesmas ideias e a mesma mulher, entendem-se muito bem, até ao momento fatal em que o segundo sabe que o governador é amante da sua fogosa e insaciável esposa. Apesar de uma visita do Príncipe Real à colónia, e do tímido apoio ao "reformismo" de Valença por causa dos ingleses, os portugueses "patrões" e velhos colonos, não querem ouvir falar de "direito do trabalho" e odeiam visceralmente o governador. A relação com a mulher do Cônsul é usada contra ele por causa dos trabalhadores das roças, e a acção precipita-se, no princípio de 1908, com as "mortes anunciadas" de Valença- pede a demissão por carta e a seguir suicida-se - e de D. Carlos e do Príncipe Real, D. Luis Filipe, na célebre rua assassina do Arsenal. Luis Bernardo Valença vai ao longo do romance, passando do boémio bonito, solteirão e semi-frívolo de Lisboa, que escrevia umas coisas interessantes sobre as Colónias, ao desesperado amante e frustrado governador de um pedaço obscuro de Portugal, perdido no meio do mar, em África. É aí, nesse retrato da perigosa e precária solidão do protagonista, bem como na reconstrução do ambiente de S. Tomé, à época, que, julgo eu, se joga bem jogado o lance fundamental deste primeiro romance de Sousa Tavares, a história funesta de um perdido português.
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