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João Gonçalves 27 Jul 03

O TEMPO DOS ASSASSINOS

A propósito de O Mundo do Sexo e Outros Textos, de Henry Miller, na versão de bolso da Ed. D. Quixote, quero deixar umas linhas sobre o autor e a respectiva obra. Miller é amiúde apresentado como autor de livros por onde escorrem abundantes fluídos humanos entre as páginas, designadamente quando se pensa na "Trilogia da Rosa" (Sexus, Plexus e Nexus ).

Miguel Torga, por exemplo, esse padrão do nosso rusticismo literário e saloio, escreveu no seu Diário que "não há nada mais repugnante do que um escritor a ejacular pela caneta", a propósito de Miller. De facto, Miller não é um escritor para montanhas e passarinhos. A sua obra literária e ensaística é muito mais do que isso, sendo certo que o "isso" faz parte de uma experiência de vida muito particular e muito "vivida", entre a Europa e os EUA, e felizmente longa, como foi a deste cruzado praticamente sem terra.

Nasceu em Nova York, em 1891, onde passou a infância e a adolescência. Teve vários empregos antes de se decidir pela carreira literária. Em 1930 muda-se para Paris, onde publica os seus primeiros livros, que faz chegar aos EUA clandestinamente. Retorna aos Estados Unidos em 1940, fugindo da Segunda Guerra Mundial. Em 1944, radica-se em Big Sur, na Califórnia.

Henry Miller tinha 69 anos quando a sua primeira grande obra-prima, Trópico de Câncer, foi publicada legalmente nos Estados Unidos, quase trinta anos depois de ter sido escrita. Passou rapidamente de banido a respeitável escritor, centrando a sua prosa nos temas das liberdades literária e individual.

Pouco antes de morrer, em 1980, escreveu um pequeno e belo texto, Viragem aos Oitenta, que se pode ler, salvo erro, numa tradução das Edições Asa.

Recomendo particularmente o ensaio de Miller sobre Rimbaud, O Tempo dos Assassinos ( The Time of The Assassins, a study of Rimbaud), a que volto constantemente (Hiena Editora, Coleccão Cão Vagabundo 8).

Ficam uns blogues de sua autoria.

Quando um homem aparece, o mundo cai sobre ele e quebra-lhe a espinha. Restam sempre em pé pilares apodrecidos demais. Humanidade supurada demais para que o homem possa florescer. Basta que um homem se vista de maneira diferente dos seus concidadãos para ser motivo de desprezo e de ridículo. A única lei que é realmente cumprida de bom grado e violentamente, é lei da conformidade.

Parece que, onde quer que vá, existe drama. As pessoas são como chatos - penetram na pele e enterram-se lá. A gente coça-se e coça-se até sair sangue, mas não nos podemos livrar permanentemente dos chatos. Em toda parte aonde vou, as pessoas fazem uma trapalhada das suas vidas. Todos têm a sua tragédia particular. Está no sangue agora - infortúnio, tédio, aflição, suicídio. A atmosfera está saturada de desastre, frustração, futilidade. Coça-se e coça-se - até não restar mais pele. Todavia, o efeito sobre mim é estimulante. Em vez de ficar desencorajado ou deprimido, divirto-me. Clamo por mais e mais desastres, maiores calamidades, malogros piores. Quero que todo mundo se desmantele, quero que todos se cocem até morrer.

Somos todos sonhadores, só que alguns despertam a tempo de anotar palavras. Certamente eu quero escrever. Mas não julgo isso como o alvo supremo. Como direi? Escrever é o mesmo que fazer cócó enquanto se dorme. Um cócó delicioso, aliás, mas primeiro vem a vida, depois o cócó. Vida é mudança. Movimento, indagação ... um avanço para o desconhecido, o inesperado. Só poucos homens podem dizer a si mesmos: "Tenho vivido!" Eis por que possuímos livros ... para que esses homens possam viver a vida dos outros. Escrever para mim, no entanto, mais do que viver a vida alheia, era esquecer que nasci aqui. Quero virar, mexer, errar pelo mundo. Quero chegar ao fim de todas as estradas.

A minha preocupação sempre se voltou para o joão-ninguém que se perde na confusão, o homem que é tão comum, tão ordinário, que a sua presença nem chega a ser notada. A minha intenção no acto de escrever era eliminar as diferenças que me separavam do próximo. Definitivamente não queria tornar-me artista, no sentido de me tornar algo estranho, algo à parte e fora da corrente da vida. O escritor verdadeiramente grande não quer escrever: quer que o mundo seja um lugar em que possa viver a vida da imaginação.

O medo, o medo com a cabeça de hidra, que é generalizado em todos nós, é uma ressaca das formas inferiores de vida. Estamos divididos entre dois mundos, um, aquele de que emergimos, e o outro, aquele em direcção ao qual caminhamos. Este é o sentido mais profundo da palavra "humano": somos um elo, uma ponte, uma promessa. É em nós que o processo da vida está a ser levado a efeito. Temos uma tremenda responsabilidade, e é a gravidade disso que desperta o nosso medo. Sabemos que se não formos em frente, se não realizarmos o nosso ser potencial, recairemos, nos apagaremos, e arrastaremos o mundo connosco na queda. Levamos o Céu e o Inferno dentro de nós e toda a Criação está ao nosso alcance. Para alguns são perspectivas aterrorizantes. Mas desejariamos que fosse diferente? Seriamos capazes de inventar um drama melhor?

Se fores capaz de ser um verme, serás também capaz de ser um deus.

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