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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

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João Gonçalves 19 Jul 03

UMA PERGUNTA

....feita numa conferência de imprensa, no Japão, a Tony Blair, essa pérola da "terceira via", a propósito do suicídio de David Kelly: "Primeiro Ministro, não tem as mãos sujas de sangue?". Tony silenciou-se e saiu abraçado ao amigo japonês.

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João Gonçalves 19 Jul 03

UMA ESTÁTUA PARA HERODES

Natália Correia tinha destas coisas. Era provocante e provocadora, exuberante, insubmissa, iconoclasta, e com aquele saudável rasgo de loucura que faz toda a diferença entre, por exemplo, um homem e um carneiro. Possuia o dom da indignação, que é uma coisa pouco divulgada nos dias que correm, mesmo que alguns patetas de serviço tomem indignação por lamúria tola e de circunstãncia. Era completamente inconsequente do ponto de vista político, como, aliás, tantos "profissionais" do ofí­cio. Sobre eles, Natália tinha a vantagem do talento e da imaginação. Em plena apoteose do criancismo, deixo aqui uns quantos "blogues" da sua autoria, retirados de um livro que, numa tarde passada na casa de Natália, por cima da Smarta, a falar de livros, ela me ofereceu, "confiando-o a uma leitura inteligente".

Se há pessoas em que o ridículo não transparece é porque nunca foram apanhadas a divertir uma criança.

Apesar de tudo há crianças simpáticas: as maltratadas. São as únicas que testemunham a estupidez dos pais.

Louvemos os maus filhos. Eles dão aos pais a oportunidade de saberem até que ponto são idiotas.

Fazer festas às crianças força à indignidade física porque obriga a curvar a espinha.

A criança é a última tentativa da espécie para tiranizar o indivíduo.

No tirano repete-se a gravidade das brincadeiras infantis.

Quando o filho chama imbecil ao pai, este orgulha-se de lhe dar toda a liberdade.

Pôr um leão faminto no quarto dos brinquedos. Corre-se o risco de que a criança devore o leão.

Filho: bengala para velhote derivada da moral cristã.

Não eduques a criança. Só assim podes prever o imprevisto.

As crianças só se confessam quando brincam aos bandidos e às guerras.

O mal foi Cristo ter dito: "Deixai vir a mim as criancinhas". Ficou coberto de moscas e tomaram-no por um cadáver. Tanto bastou para que se fundasse uma religião.


(Uma Estátua para Herodes, de Natália Correia, Arcádia, 1974)








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João Gonçalves 19 Jul 03

OS PARTIDOS

Num debate promovido por uma tal Geração 22, no qual pontificava o Dr. Manuel Monteiro, da Nova Democracia, a minha amiga Inês Serra Lopes, que moderava, disse que "os partidos servem para conquistar o poder e para se agarrarem a ele, promovendo as piores pessoas pelos piores motivos". Acrescentou que as "pessoas de bem" pura e simplesmente não se deviam filiar em partido nenhum. Com a devida vénia, eu permito-me discordar. Os partidos, em geral, não têm culpa de a maior parte da sua militância ser constituída por uma massa acrítica de criaturas que encara o ofício militante com a mesma displicência com que vai ao mercado ou à missa. No meio desta acefalia consentida, há evidentemente uma ou outra criatura mais expedita que "dá a cara" e que "se sacrifica". Temos abundantes exemplos deste sublime despojamento em todas as áreas partidárias. Naturalmente ninguém espera que estes "heróis anónimos", chegado o momento certo, cedam o seu lugar às "melhores pessoas" e que se batam pelos "melhores motivos". Também há "pessoas de bem" nos partidos. Normalmente são aquelas que não precisam dos partidos para existirem na cidadania: têm vida, espaço e mona próprios, e, até por isso, acham que devem ser militantes. A única diferença é que não fazem disso uma profissão.

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João Gonçalves 19 Jul 03

O PROCESSO

No processo mais conhecido que anda aí pelos jornais e, ao que julgo, pelos tribunais, importa que se resolvam, a final, duas questões óbvias: a justa punição dos criminosos e a declaração de absolvição dos inocentes. No entanto, este processo é hoje claramente um processo perturbado e, como cidadão, tenho as maiores dúvidas de que as duas questões que mencionei sejam aclaradas de uma forma segura e certa, como manda o Direito. Julgo, aliás, que são os "contributos" exteriores ao noid dur do processo, os que mais têm ajudado a inquiná-lo. Mas há dados "formais" que incomodam. Eu estudei direito e, quanto a formalismos processuais, sei, em primeiro lugar, que é o poder político legitimado democraticamente que define e aprova a legislação processual, e também sei, em segundo lugar, que a "deificação" da forma, ou uma qualquer sua interpretação soberana, pode por vezes fazer esquecer o interesse fundamental que está em causa. Pessoalmente, considero uma "violência jurídica" o que aconteceu nos últimos dias no que concerne à reapreciação da manutenção da medida de coacção extrema em relação a arguidos presos. Ou seja, a impossibilidade da apreciação das posições da defesa e da acusação pública, por um lado, e da própria decisão judicial de 1ª instância, por outro, a efectuar por uma entidade judicial superior e distinta, por causa da antecipação da reapreciação trimestral da medida de coacção que tornou formalmente inútil aquela intervenção, quando está em causa a liberdade de pessoas. Outro dia falei aqui do "sentimento jurídico colectivo", uma bonita expressão que se aprende nas faculdades. Será que há verdadeira consciência desse "sentimento" entre nós quando toda a gente diz que "confia na justiça"? Ou isto não passa de um tropismo timorato ou de um lugar-comum sem importância? O mundo, como dizia o outro, está efectivamente perigoso.

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