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portugal dos pequeninos

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João Gonçalves 15 Jul 03

A MESADA

Andávamos esquecidos da D. Fátima, mas eis que ela regressa pela mão do insuspeito Tribunal Constitucional. Eu explico. A senhora, através do seu advogado, recorreu da sentença da Relação de Guimarães e hoje ficou-se a saber que "está" autarca, logo, que tem direito ao vencimento, na douta interpretação do TC. Como se lembram, a referida senhora abandonou o cargo que ocupava e fugiu- não conheço melhor verbo para descrever o acto - para o Brasil. Quando eu estudava direito, li algures umas coisas acerca do "sentimento jurídico colectivo". Era uma expressão bonita e que abundava nas sebentas. Julgo que os nossos tribunais também conhecem este jargão e não apenas a seca letra da lei. Eu admito que a posição da Relação de Guimarães tenha sido "inconstitucional", porém, duvido que o tal "sentimento jurídico colectivo" tenha ganho alguma coisa com esta magnífica decisão suprema. Algures no Rio, D. Fátima agradece esta jurisprudente mesada.

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João Gonçalves 15 Jul 03

UMA CARTA

Ando a ler a biografia de Marguerite Yourcenar, de Josyane Savigneau (Difel). Comemorou-se outro dia o centenário do seu nascimento e os jornais falaram abundantemente dela. Gostava muito de Portugal e do Algarve, em particular, local onde não se importaria de viver. Passou por cá umas vezes, em Lisboa, no Porto, onde conheceu Eugénio de Andrade, e amava naturalmente Sintra. Por ocasião da reedição das Memórias de Adriano pela Ulisseia, no princí­pio dos anos 80, esteve numa conferência na Gulbenkian ao lado de David Mourão Ferreira e de Agustina Bessa Luis, se a memória me não falha. Gostava muito de viajar - era verdadeiramente uma nómada - ao contrário do que parecia sugerir o "recolhimento" em Petite Plaisance, na ilha perdida dos Montes Desertos nos Estados Unidos. Desapareceu em 1987. Pelo meio da dita biografia, encontrei excertos de uma carta dirigida à sua tradutora italiana que, valendo o que vale, aqui deixo em parte, com lembranças para os Estudos sobre o Comunismo, pois referem-se à sua passagem, em 1962, pela então Leninegrado, durante três dias.


"Essa experiência tão breve teve sobre mim (...) um efeito que eu não esperava, e que é em suma, no que me diz respeito, o de um infinito desencorajamento. Que esperava eu? Não contava certamente entrever um Eldorado, mas, reagindo sem dúvida contra a imbecil propaganda anticomunista da América, com os seus clichés infantis, eu esperava sem dúvida encontrar um mundo um pouco mais novo, mais "vital" porventura, mesmo que esse mundo nos fosse hostil ou estranho. O que eu encontrei, desde a aurora do primeiro dia quando entrevimos os funcionários russos abordando o barco no meio do nevoeiro, e até à noite branca do terceiro dia em que costeámos longamente e de muito perto a fortaleza de Kronstadt emergindo do mar com a sua cúpula de igreja desafectada e as unidades da esquadra em torno dela, foi muito simplesmente a Rússia de Custine, a terna mescla de rotina burocrática, de suspeita do estrangeiro, de deixar-andar já oriental e de prudente desconfiança, e essa tristeza inerte e quase sufocante que é frequentemente a do romance russo, e que eu não esperava encontrar (...); as multidões vindas das províncias, desfilando em grupos organizados no imenso Ermitage, olhando vagamente as suas obras de arte de séculos e países situados tão longe delas, e esse camponês que, de pé diante de um Cristo de Rembrandt parecia rezar (...); e, sobre a escadaria de honra, de um monumental barroco italiano, mas da época má, quer dizer datando de Alexandre I mais do que de Catarina, debaixo dos pés das multidões que sobem e descem os seus degraus de mármore (...) um fragmento humilde e escandaloso de acessório feminino que pertencera a qualquer viajante demasiado fatigada para dar pela sua perda, um pedaço de pano ensanguentado que ninguém se dava ao trabalho de afastar com a biqueira do sapato para qualquer canto escuro, e ainda menos de se baixar para pô-lo de parte."

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João Gonçalves 15 Jul 03

UMM KULTHÛM

Provavelmente este nome nada diz à maior parte de nós, mas ela foi, no século passado, um verdadeiro, senão o único, ícone musical "popular" em grande parte do mundo árabe. Quando faleceu, em 1975, teve um dos maiores funerais de que há memória, com milhões de pessoas a assistir. Chamavam-lhe "a voz do Egipto" e é hoje recordada num documentário que passa na RTP-2 às 19.00. Vale a pena ver ou gravar.

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João Gonçalves 15 Jul 03

A TRAIÇÃO

No Abrupto encontrei umas belas frases acerca da traição. É um tema recorrente, da política ao amor. Esta noite, ao meu lado, alguém me falou durante umas horas dessa dor mansa, quase vegetal (O'Neill) que consiste em perceber no Outro esse gesto insolente da traição. A traição à confiança e aos afectos, tão dolorosa como a que é feita às convicções, é um golpe dado de alto a baixo do nosso até aí entendimento do mundo. Sem que o queiramos, somos outros a partir do ataque soez da traição. Como se responde ao ataque? Normalmente a surpresa deixa-nos inermes, a surpresa do primeiro. Depois, essa madrasta mal encarada que é a vida, tudo ou quase tudo absorve e, um dia, acordamos nós ao ataque. Para quem gosta de ópera, está tudo lá. Para quem ama a poesia, também. Vou até Wagner para terminar. No final de "As Valquírias", Wotan condena a filha mais amada, Brünnhilde, ao "humano", "desdiviniza-a", isto é, condena-a ao pior dos sofrimentos, o "conhecimento". É para lutar contra o "conhecimento" que Wotan corre e é por isso- por tragicamente "saber" - que coloca Brünnhilde protegida pelo fogo e protegida do "humano". No "Crepúsculo dos Deuses", a última jornada, já Brünnhilde tudo "sabe". E, no monólogo final, somente aspira a abandonar "este mundo de desejo e de sofrimento". Um mundo que se perde, um mundo de traições, a morrer, porque foi "conhecido":

Tudo, tudo
tudo sei,
tudo me foi revelado.
Ouço também
adejar as asas dos teus corvos,
ordeno-lhes que regressem a casa
com a mensagem por que anseias-
Repousa, repousa, oh deus.

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