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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

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João Gonçalves 5 Jul 03

A CULTURA

Pedro Roseta, ministro da Cultura, dá uma entrevista ao suplemento Actual do jornal Expresso. É um documento que, segundo os entrevistadores, pretende revelar o pensamento do ministro e o sentimento do homem. Depois de lido, fica-se com a estranha sensação de que se trata mais de uma não-entrevista do que de uma explanação adequada ao questionário acerca do que domina na atitude de Roseta perante o micro universo que lhe coube em sorte pastorear. Tentemos, pois, alguns breves comentários.

1. Nos últimos dias, Roseta despediu - o termo não é nada "frágil", mas tem aqui uma conotação positiva - a administração da Casa da Música do Porto e, ainda há pouco, soubemos que ficou completo o novo elenco, com Burmester como consultor artístico permanente para a produção. Julgo que a "estreita cooperação" com a CM do Porto ,de que fala, é um pouco mais do que isso, atentos os nomes escolhidos (Agostinho Branquinho e Óscar Liberal, que se juntam a Monteiro, o presidente). Mas, adiante: neste caso, como na nomeação de Cunha e Silva para o futuro Instituto das Artes, Pedro Roseta não andou mal;

2. Roseta insiste na projecção da "política cultural" no médio e no longo prazo, ao arrepio dos tempos "mediáticos". Tem razão, partindo do pressuposto de que, por um lado, existe uma "política cultural" e de que, por outro, é indispensável que o Estado prossiga uma "polí­tica cultural". O debate acerca do que é que isto seja, é assaz duradouro e, como referi outro dia, José Pacheco Pereira, deu uma achega, repescando uma hipótese de trabalho que, por exemplo, Vasco Pulido Valente ja tinha colocado há uns anos. Pergunta-se: é indispensável a existência de um ministério da Cultura como o conhecemos? O que ocupa o MC justifica a sua institucionalização e autonomia enquanto tal ou, seguindo uma lógica mais funcional do que orgânica, as respectivas "missões" podem ser agregadas de uma outra forma e através de uma outra solução institucional?

3. Em termos genéricos, o MC ocupa-se da salvaguarda do património nacional e do apoio às actividades culturais ou artes, desde o teatro, à ópera, ao bailado, ao cinema, à criação tout court, etc. Num País com a dimensão do nosso, sabemos como é problemática a sobrevivência ou a mera emergência dos chamados "agentes culturais" que vivem - dos institucionais aos outros - praticamente na dependência do orçamento do Estado. Sendo liberal, julgo que o Estado não tem que, nem deve, apoiar indiscriminadamente as ditas artes. Porém e enquanto as coisas forem como são, não há condições para "destapar" financeiramente organismos e agentes. Questão diversa é saber-se se há ganhos na "separação das águas", isto é, em segregar a gestão do património nacional do apoio às artes, convocando para a primeira a colaboração de sectores como o Ambiente, a Educação, as Obras Públicas, as Comunicações ou a Economia (que hoje engloba diversas áreas), e criando, para as segundas, uma espécie de "instituto de gestão financeira das artes" ( não tem nada a ver com o futuro Instituto das Artes), com rubrica orçamental adequada e uma qualificada política de mecenato. A devastação que o nosso património tem conhecido, dos arquivos aos monumentos, justifica porventura que se pense nisto, sobretudo em tempos de "magreza orçamental".

4. A questão das "artes institucionais" e do seu financiamento- e aqui retomo a entrevista de Pedro Roseta - também passa pelo meritório propósito de angariar novos públicos e de jogar na "articulação" com as escolas. A "actividade cultural" não é lucrativa de per si, e não se compadece com a equação custo/benefí­cio. No entanto, os "organismos" têm o dever de prestar um serviço à  comunidade em prol da qualificação e da qualidade de vida, e não em nome de qualquer actividade oficial ou oficiosa de propaganda, ou para encher o currículo e o ego dos respectivos directores. Falando do que conheço- a ópera - nunca vi nenhum esforço ou gesto no sentido de cativar novos públicos ou de trazer "mais jovens públicos" ao teatro lírico. E uma boa produção não custa menos de 500/700 mil euros (5 récitas)!

5. O ministro continua a insistir na "gestão flexível", num ministério com uma dotação orçamental claramente insuficiente e que, mal ou bem, serve para o que serve. O peso da despesa corrente, à semelhança de quase todos os outros ministérios,é imenso. Eu pergunto se não haveria "ganhos de produtividade" e, consequentemente, poupança, se se optasse pela segragação funcional que mencionei acima, depois de, pelo menos os "organismos", terem estabilizado os seus "públicos-alvo". Quando no único teatro de ópera do País, num orçamento de cerca de 11 milhões de euros, por exemplo, 9 milhões são para as "despesas correntes" ( leia-se: pessoal fundamentalmente) e só 2 milhões se destinam à  produção artística propriamente dita, estamos conversados.

6. "Não me sinto apaixonado pelo poder. Cultivo muito a fragilidade". Ninguém pede ao homem bom e sério que é Pedro Roseta que se sacrifique. Não querendo ou não podendo alterar a fisionomia institucional do ministério que dirige, Roseta tem pelo menos a obrigação de exercer o "poder" que lhe foi confiado pelo Primeiro Ministro. E tem que o fazer com um projecto político (a virtude de Carrilho, goste-se ou não, era ter uma ambição e um programa políticos:escolher é separar, não é necessariamente "maniqueísmo)), um programa "técnico" de suporte e muita, muita ambição. Se se preferir, "um duro desejo de durar" (Eluard).

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João Gonçalves 5 Jul 03

O PS

José Lello, mais conhecido por colar tí­tulos de livros a pessoas por alturas do Natal, com a cumplicidade do "Expresso", deu ontem um ar da sua graça numa entrevista a "O Independente". Lello foi responsável, na era Guterres, por coisas tão distintas como o Desporto e as Comunidades Portuguesas. Também foi de excursão a Sevilha e recentemente andou para aí­, junto com Sampaio e José Cesário, o novel das Comunidades no actual Governo, envolvido em "jogos florais" por causa de uma venera que terá sido atribuida e que depois já não tinha sido atribuida, a um ex-pide que agora é bonzinho e vive honradamente do seu labor algures em África. Na mencionada entrevista, Lello diz três coisas fundamentais. Primeiro: que o PS, estando bem entregue a Ferro Rodrigues, não vai a lado nenhum com ele à  frente. Segundo: que, sendo Ferro um excelente secrtário-geral que simultaneamente não leva o partido a lado nenhum, tem à  sua volta uns quantos lugares-tenentes sem biografia que mais o ajudam a não levar o PS a lado nenhum. Terceiro: que- e esta é a observação mais pertinente - o encosto "à esquerda" de Ferro e dos seus acólitos, e a reacção ao "pesadelo " Casa Pia, afastam o PS de se assumir responsavelmente como oposição, área onde ainda não encontrou o registo certo. Por estas e por outras, Ferro faz-me lembrar Balsemão nos primórdios dos anos oitenta: não está em causa a sua liderança, mas com amigos destes não vai longe, não há alternativa, mas ela insinua-se, e, tudo somado, é uma excelente pessoa.

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João Gonçalves 5 Jul 03

PEDRO E INÊS

Estive ontem na estreia de Pedro e Inês, uma coreografia de Olga Roriz para a Companhia Nacional de Bailado. Trata-se de um notável espectáculo e de uma leitura forte da mais famosa tragédia político-amorosa do nosso século XIV. A evocação cénica da coimbrã Quinta das Lágrimas é, a um tempo, despojada e bela, e os corpos do corpo de bailado da CNB falam bem da renúncia e do abandono amorosos desse infeliz casal, encomendado à morte pelo assassí­nio de Inês.

(...) Meu Senhor,
Esta he a mãy de teus netos. Estes são
Filhos daquelle filho, que tanto amas.
Esta he aquella coitada molher fraca,
Contra quem vens armado de crueza.
Aqui me tens. Bastava teu mandado
Pera eu segura, e livre t'esperar,
Em ti, e em minh'innocencia confiada.
Escusarás, Senhor, todo este estrondo
D'armas, e Cavaleiros; que não foge.
Nem se teme a innocencia, da justiça.
E quando meus peccados me accusaram.
A ti fora buscar: a ti tomara
Por vida em minha morte: agora vejo
Que tu me vens buscar (...)


António Ferreira- Tragédia Castro

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João Gonçalves 5 Jul 03

A FALTA II

Mota Amaral confirmou que a falta dada aos trabalhos parlamentares por parte dos cerca de 30 deputados que foram a Sevilha assistir a um jogo de futebol, é injustificada. Quem a marcou, primeiro, foi Manuel Alegre, na qualidade de vice-presidente da AR e Mota Amaral não o desautorizou. É bom que assim seja. Lembrando um título de Alegre, "Deputado como Nós".

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João Gonçalves 5 Jul 03

AUGUSTO ABELAIRA

Melhor do que eu, naturalmente, Nelson de Matos evoca Augusto Abelaira, ontem desaparecido. Gosto de o recordar pelo seu "Sem tecto entre ruínas".

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