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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

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João Gonçalves 1 Jul 03

ANONIMATO

O nosso amigo Guerra e Pás, em debate com o Crí­tico, insiste no tema do "anonimato" vs "disclosure", nos seguintes termos:

(...)Crí­tico:Eu prefiro blogues anónimos, valem o seu peso pelo seu conteúdo, e não por assinaturas. Claro que estimo o abrupto, o seu melhor conteúdo é o seu esforço, a sua dúvida inteligente e as poesias de VGM, estimo a escrita sôfrega e deslumbrada de aviz. Repare que a minha coluna da direita tem alguns blogues de perfeitos desconhecidos a um nível muito elevado. Porque motivo cirandar pelos MECs e Nelsons de Matos deste mundo? Com todo o valor que se lhes reconhece. São repositórios de conhecimentos antigos. Até o melhor post do Nelson de Matos é um texto repescado do DNA, aliás muito evocador e sobre o maior génio da escrita em prosa do século vinte português: Cardoso Pires.
Guerra e Pás: Várias vezes fiz a apologia dos blogs anónimos, que também prefiro. Mas, what can I say? Um anónimo não deve ser julgado por ser anónimo, uma truta não deve ser julgada por ser uma truta.

Como não estou virado para a glosa glosorum, vou ali a baixo repescar uma coisa que escrevi outro dia, acrescentando-lhe uma nota apenas.

1. É pertinente a observação de que, sendo isto a "pequena caixa de fósforos" que conhecemos, em que todos roçamos mais ou menos todos uns pelos outros, a identificação pode ter o efeito perverso de conotar o autor com posições política ou outra "coisamente" incorrectas, que lhe podem causar dissabores, num País onde a inveja e o ressentimento andam quase sempre de mão dada com a falta de sentido de humor e a pura ignorância;

2. Por outro lado, é saudável, visto do lado liberal, democrático e ironista em que me coloco, dar um "nome à coisa", dar o "meu" nome à coisa escrita, sem subterfúgios, não por vontade de exibição gratuita ou de crí­tica dirigida, mas porque assim posso testar - se bem que não esteja aqui para testar o que quer que seja - a maturidade cívica e intelectual dos meus putativos interlocutores, mesmo que eu nunca venha a saber quem eles são;

3. Na perspectiva em que sempre me coloco, nesta "blogomania" podem conviver saberes partilhados com ou sem nomes, em que alguns de entre eles me ajudam a "redescrever" o meu próprio vocabulário e as minhas próprias convicções, sendo que todos representam, de alguma forma, a apoteose da contingência, no sentido que Richard Rorty atribui a estas designações;

4. Finalmente, agrada-me a ideia de poder falar aqui livremente do que me interessa ou interessou: um livro, um discurso, um poema, uma reportagem, uma opinião, uma pessoa, uma situação, para poder dizer, se me apetecer e quando me apetecer, como no magnífico e já longínquo filme de Antonioni, " A identificação de uma mulher", "tu não és a minha norma".

Nota nova: Eu encaro este nosso "blogar" simultaneamente como o resultado do encontro entre o nosso gosto de escrever e algumas realidades que variam em função dos interesses dos autores. Assumo que aqui critico e digo bem, que evoco e que cito, e que aceito - no sentido de "tentar perceber" - o Outro. Corro naturalmente o pouco saudável risco de que haja sempre por aí um "Outro" menos disponível para "ser percebido"...E aí , serei "julgado por ser uma truta".

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João Gonçalves 1 Jul 03

PORTUGAL DOS PEQUENINOS

Aprovaram-se mais uns quantos concelhos no Parlamento. Alguns com pouco mais de 3000 almas, o que, com alguma generosidade, poderia dar uma freguesia, quando muito. Nem todos os autócnes das respectivas vizinhanças apoiaram o evento. Porém, havia promessas, apoios partidários, compromissos, etc, etc, e a coisa lá avançou. Como é hábito, o Parlamento foi presenteado com as manifestações do costume e, à distância, os beneficiados e os "do contra", também estiveram na rua. Ou seja, o nosso Portugal dos Pequeninos: sem emenda, relativo e paroquial.

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João Gonçalves 1 Jul 03

OS RODAPÉS

Não sei se já repararam, mas as "notas de rodapé" das nossas televisões, aquando dos respectivos telejornais, aparecem por vezes cheias de erros. Há pouco, numa delas, aparecia assossiação em vez de associação. Novos concelhos, nova língua?

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João Gonçalves 1 Jul 03

GOSTOS

Decididamente, gosto de ir até ao quarto do pulha, ouvir a voz do deserto e percorrer o dicionário do diabo: entre outras coisas, são boas ocupações para um cidadão livre.

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João Gonçalves 1 Jul 03

FRACASSAR

Descobri, a partir do Mar Salgado, o blogue de Pedro Lomba, Flor de Obsessão.Encontro esta bonita prosa que não resisto a reproduzir, uma vez mais com a devida vénia. Lembrei-me instantaneamente de uma frase de Samuel Beckett que diz qualquer coisa como isto, a propósito do fracasso: "tenta e fracassa, tenta outra vez e fracassa melhor".


FRACASSAR É PRECISO: Uma mulher aborda-me na rua e pergunta-me se sou seu filho. Olho-a por uns segundos e sigo em frente. Já de costas, ouço-a repetir a pergunta. Continuo. Perplexo. Toda a cidade tem os seus loucos, os seus disturbados, os seus perdedores. Eu não quero fantasiar: a loucura é caso clínico e não traz glória. Mas o fracasso, amigos, o fracasso, a derrota humana têm um esplendor profundo e imaterial que eu admiro. Admiro intensamente os que fracassam, os que perdem. O fracasso é infinitamente preferível à vitória. Quem perde, ganha uma angústia metafísica, uma compaixão existencial. Merece respeito. E merece ainda mais respeito se perde de propósito, se é um perdedor nato e intencional. Os vencedores aborrecem-me, escandalizam-me, oprimem-me. Não exalam uma única vergonha, um único constrangimento, uma única incerteza. E são cinicamente inverosímeis no seu brilho estudado e elefantino. Meias da cor dos sapatos, sapatos da cor das calças, cuecas da cor da gravata. Uma voz segura, um perfil de estátua. Os vencedores sabem o que dizer, o que fazer, o que esperar. E permanecem sempre os mesmos, aconteça o que acontecer. Se tivesse coragem, digo-vos que fracassaria com afinco todos os dias. É muito mais saudável perder do que ganhar. Ganhar é um luxo, uma embriaguez fácil, uma descaracterização. Fracassar não é nada disso. Fracassar é muito mais difícil, muito mais exigente e muito mais conservador do que ganhar. É a única utopia conservadora em que eu acredito: a utopia do fracasso. Tenho há muito tempo esta certeza e não me peçam para explicar: o mundo será melhor no dia em que for universalmente feito de fracassados.



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