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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

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João Gonçalves 29 Jun 03

LIGAÇÕES PERIGOSAS

Como é domingo, há mais tempo para deambular pela "blogosfera". Dei da caras com o último post do Mar Salgado, acerca do "Sexo e a Política", com base num artigo do "Spectator" ali citado. São oportunas as reflexões produzidas. Aqui ficam.

SEXO E POLÍTICA: A Spectator publica este excelente artigo a propósito da atitude do Partido Conservador em relação à vida privada de um dos seus altos quadros. É um bom pretexto para discutir a relação entre Sexo e Política. Devem os partidos políticos ter opinião sobre os hábitos sexuais dos cidadãos ou dos seus militantes ? Um partido conservador deverá defender uma moral conservadora nestas matérias ou respeitar a liberdade de cada um ? Há uma atitude de esquerda ou de direita nestas questões ?
Pretender que ideologias ou partidos políticos regulamentem esta área tão íntima denuncia uma pulsão totalitária. O Estado (e os partidos políticos fazem parte do aparelho de Estado) deve manter-se afastado destas matérias, desde que salvaguardada a protecção de grupos que devem ser especialmente protegidos como as crianças. A tentação para intervir é grande: hoje em dia respira-se sexo por todo o lado - nos media, na publicidade, no trabalho e na rua. A posição correcta e liberal é a de defender o direito de cada cidadão a não ser incomodado por causa dos seus hábitos íntimos.
Graças a uma história caricata, o Partido Conservador inglês está numa encruzilhada: aceitar o facto da vida sexual ser um problema individual ou seguir na linha do infelizmente célebre back to basics de John Major. Em suma, ser um partido preparado para os dias de hoje ou manter um espírito reaccionário em que os ingleses não se revêem. É que, como se escreve no artigo, não é o sexo que incomoda os cidadãos, é a hipocrisia.

Comentário:

Sobre estas matérias, recomendei outro dia a leitura de Gore Vidal. Aliás, no seu vastíssimo livro de ensaios "United States", há um texto que se intitula precisamente "Sex is Politics", cuja leitura vivamente recomendo, apesar de ter sido escrito há mais de 20 anos.

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João Gonçalves 29 Jun 03

JOSÉ CARDOSO PIRES

Nelson de Matos, responsável pela Editora D. Quixote, tem hoje um belíssimo texto/retrato sobre Cardoso Pires. Aqui está uma prova de que há blogues que acrescentam algo de bom à nossa cinzenta atmosfera.

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João Gonçalves 29 Jun 03

FLORILÉGIO DOMINGUEIRO

Não nos andam de feição estes domingos de Verão. Farejo por perto a data do desaparecimento de David Mourão-Ferreira, em 1996. Não é a sua morte que quero lembrar hoje, mas a fulgurância escorreita da sua poesia, a sua imensa alegria de viver, a compreensão que as suas letras fazem da beleza e do que há de imaterial e improvável no encontro despojado de dois corpos que, por momentos, se amam.

Ternura

Desvio dos teus ombros o lençol
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do Sol,
quando depois do Sol não vem mais nada...

Olho a roupa no chão: que tempestade!
há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
em que uma tempestade sobreveio...

Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...

Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!

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João Gonçalves 29 Jun 03

PASSAGENS SEM NÍVEL

O domingo começou, perto de Barcelos, com mais duas mortes numa passagem de nível, dentro de um carro. Uma terceira vítima estará mais para lá do que para cá, no hospital. Anda por aí espalhada o "Portugal em acção", uma nova "griffe " oficial. Porém, quando vejo as discussões bizantinas em torno do aeroporto da OTA, quando me lembro de que são precisas horas intermináveis para chegar ao Algarve de comboio, quando sinto as reduções de velocidade nos Alfas Lisboa/Porto por causa das nunca mais reformáveis linhas e carris, tudo culminando nestas pequenas mas significativas tragédias em obscuras passagens de nível espalhadas por esse País "real", ocorem-me as palavras de Milan Kundera a propósito do comportamento "kitsch" dos chamados "responsáveis" pelas coisas públicas, "a necessidade do Kitsch do homem-kitsch (kitschmensch)": "é a necessidade de se olhar ao espelho da mentira que embeleza e de aí se reconhecer com uma satisfação enternecida".

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João Gonçalves 29 Jun 03

AUGUSTO GIL

Quando eu era pequeno, tipo aluno da primária, impingiam-nos a mais pirosa das poesias de Augusto Gil nos livros de leitura, de seu nome "A balada da neve". É muito conhecida pelo seu começo bucólico: "...batem leve, levemente, como quem chama por mim". Era o "pathos" possível. Poucos saberão, no entanto, que Gil era um pouco mais do que isto. Natália Correia, na sua "Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica" ( ed. Antígona), inclui aguns textos de Augusto Gil que configuram "composições inéditas de um autor muito popular" ( pág. 331). Aos fins de semana costumamos ser incomodados pelo buzinar compulsivo de carros e mais carros, com patéticas fitinhas brancas, que significam casamento. É em homenagem a um desses felizes enlaces que reproduzo este outro Augusto Gil (1873-1929):

NOITE DE NÚPCIAS

Enquanto despia o fraque
junto ao leito de noivado,
escapuliu-se-lhe um traque
de timbre aclarinetado...

A noiva olhou-o de lado,
e pôs-se, com ar basbaque,
a remirar o bordado
das botinas de duraque...

Houve, após esse momento,
naquela noite de gala,
um duplo constrangimento.

E o noivo disse-lhe então:
"Oh filha, cu que não fala
é cu sem opinião...."

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