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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

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João Gonçalves 27 Jun 03

O ANONIMATO II

Tenho dedicado muitos posts à cultura. Estive fugazmente ligado à dita, no sentido institucional do termo, na direcção de um teatro nacional, o de São Carlos. Demiti-me do cargo em Abril último por razões que expliquei numa carta dirigida ao Ministro da Cultura e que foi, na altura, mais ou menos publicitada. Ou seja: eles conhecem-me e eu conheço-os. Seria torpe da minha parte, andar para aqui a escrever sobre o Teatro e o estado da cultura em regime anónimo. Seguindo a boa doutrina do ex-administrador da Casa da Música do Porto, Dr. Rui Amaral, primeiro saímos, e, depois criticamos, se nos aprouver.. Mas também não é propósito destas escritas "reformar" a cultura ou o teatro de ópera em Portugal. Não sou candidato a profeta. Porém, gosto o suficiente de uma e do outro, para que lhe dedique bastante atenção, no meio de muitas outras coisas...assinando em baixo.

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João Gonçalves 27 Jun 03

O ANONIMATO

O Guerra e Pás colocou um post que levanta uma questão interessante, pelo que, com a sua licença virtual, o repito:

"O Nélson de Matos fala de uma questão que eu julgava que nos ia passar ao lado, a do anonimato. Diz ele que não gosta de blogs anónimos, e eu acho que há mais argumentos a favor da sua posição que da minha, que até mantenho um! Mas eu defendo os blogs anónimos.
Tentarei explicar-me.
Num blog anónimo há liberdades e libertinagens impossíveis num blog assumido – para já a imunidade parlamentar funciona e num país tão litigante ( e sei bem do que falo) e com juizes tão curiosos, nunca se sabe se não malhamos com os costaços na pildra por qualquer coisa escrita in the heat de um moment qualquer. Depois, imagine-se que um dos famosos que por aqui anda embirra com alguém que dá o nome. Num país tão pequeno e tão mesquinho, a falta de fairplay pode significar um emprego, uma carreira universitária (e sei bem do que falo). Mas estes estão longe de ser os argumentos, embora não sejam dispiciendos. O argumento é de natureza literária, ou se quiser, de natureza autoral. Em abstracto que nos interessa a identidade de um criador se a criação nos agrada? Sei que o NM é amigo e admirador (como eu) de Lobo Antunes, mas se não o conhecesse não admiria a sua obra na mesma? Não é ele um admirável escritor?
Sabe muito melhor que eu que a esmagadora maioria dos criadores maiores do nosso mundo eram gente abjecta no íntimo dos seus lares. Freud nem ligava à mulher, Jung enganava a dele, dois filhos de Bing Crosby suicidaram-se, etc (não há aqui nenhum salto lógico a partir de Lobo Antunes, obviamente).
Há um excesso de protagonismo autoral no mundo lá de fora – a nossa sede de ídolos e a humanização forçada de escritores, músicos, actores, distorce a nossa apreciação sobre eles - quem sabe se eu não gostaria mais de Saramago se não embirrasse com ele?
Finalmente, e a questão está longe de estar esgotada, há saberes aqui na blogolândia que são partilha. E por serem partilhados anonimamente, funcionam como a pessoa de que nunca soubemos o nome que chamou a ambulância quando tivemos o acidente, ou, mais comum, que nos indica o caminho na estrada. Há partilha, não há nomes."

Comentários:

1. É pertinente a observação de que, sendo isto a "pequena caixa de fósforos" que conhecemos, em que todos roçamos mais ou menos todos uns pelos outros, a identificação pode ter o efeito perverso de conotar o autor com posições política ou outra "coisamente" incorrectas, que lhe podem causar dissabores, num País onde a inveja e o ressentimento andam quase sempre de mão dada com a falta de sentido de humor e a pura ignorância;

2. Por outro lado, é saudável, visto do lado liberal, democrático e ironista em que me coloco, dar um "nome à  coisa", dar o "meu" nome à  coisa escrita, sem subterfúgios, não por vontade de exibição gratuita ou de crí­tica dirigida, mas porque assim posso testar - se bem que não esteja aqui para testar o que quer que seja - a maturidade cívica e intelectual dos meus putativos interlocutores, mesmo que eu nunca venha a saber quem eles são;

3. Na perspectiva em que sempre me coloco, nesta "blogomania" podem conviver saberes partilhados com ou sem nomes, em que alguns de entre eles me ajudam a "redescrever" o meu próprio vocabulário e as minhas próprias convicções, sendo que todos representam, de alguma forma, a apoteose da contingência, no sentido que Richard Rorty atribui a estas designações;

4. Finalmente, agrada-me a ideia de poder falar aqui livremente do que me interessa ou interessou: um livro, um discurso, um poema, uma reportagem, uma opinião, uma pessoa, uma situação, para poder dizer, se me apetecer e quando me apetecer, como no magnífico e já longínquo filme de Antonioni, " A identificação de uma mulher", "tu não és a minha norma".

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João Gonçalves 27 Jun 03

A FALTA II

No anterior post, falei em cerca de 50 deputados que seriam candidatos à falta injustificada. Afinal são só 30, mas até podia ser um só. Li algures que, por exemplo, o Sr. Alberto Martins, deputado do PS, acha que foi a Sevlha em - imagine-se - "trabalho político" e quer que Mota Amaral lhe releve a falta. A dele e as do resto do grupo excursionista. Que eu saiba, a não ser o Sr. Pinto da Costa, ninguém lhes pediu para ir, e muito menos em representação política. De quem? Do FCP?

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João Gonçalves 27 Jun 03

A FALTA

Quando ainda era politicamente imberbe e tinha acabado de aderir ao PSD, participei num jantar de homenagem ao então presidente do Governo Regional dos Açores, João Bosco Mota Amaral, na antiga FIL, num tempo em que havia "tendências" dentro da seita. Nessa altura mandava o saudoso Mota Pinto e preparava-se um congresso, no qual, se bem me lembro, Mota Amaral era apoiado por Balsemão, inclusivé para eventual candidato a Belém. Passaram estes anos todos, Balsemão tornou-se uma irrelevância política - mais tarde percebi que antes disso já o era - e Mota Amaral chegou, não a primeira, mas a segunda figura do Estado desde o ano passado. Recebi-o várias vezes no Teatro Nacional de São Carlos, de que é assíduo frequentador, mesmo antes de exercer as funções de Presidente da AR. É um homem amável, educado e com sentido da coisa pública. Por estes dias, decidiu que os deputados que foram a Sevilha assistir a uma final qualquer de futebol em que participava o FCP do Sr. Pinto da Costa, deveriam ter falta injustificada. Muito bem feito. Apesar de sabermos que a Pátria se confunde praticamente com futebol, e, este ano em particular, com o FCP, nada justifica esta saloia excursão de deputados, para aí uns 50, a que também se associaram o PM e o PR.Há dias fui a Espanha ver ópera, e meti dois honestos dias de férias. Para estas coisas, o "centrão" PSD/PS, seguramente com "o bracinho direito de Portugal" a ajudar, já está a funcionar,contra a posição de Mota Amaral. Não ceda, só lhe fica bem.

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João Gonçalves 27 Jun 03

ONZE

É o número médio de livros lidos no País, por ano, e por cabeça, segundo um estudo citado no Diário de Notí­cias e encomendado pela APEL. O desprezo indígena pela leitura já não é um dado novo. Os nossos índices de iliteracia também não. A profunda incultura e, em muitos casos, a imensa ignorância da nossa população universtária, é um dado infeliz, praticamente pacífico. O facto de não sermos propriamente nem ricos nem muito desenvolvidos, não tinha fatalmente de nos conduzir à indigência cultural. O êxito de vendas que conhece a "literatura das tias", tipo não sei quê Lopo de Carvalho ou Rebelo Pinto, diz quase tudo acerca da questão. É pedagógico, por exemplo, que todos os domingos Marcelo Rebelo de Sousa incite à leitura com uma mão cheia de livros. O problema é que mistura, às vezes, livros com lixo, indistintamente, e isso não ajuda nada ao caso. O prazer da leitura exige uma aprendizagem e uma vontade, é um gosto e um gozo que se adquirem, ou não. Saudando a tradução de Pedro Tamen do primeiro tomo da "Recherche" de Proust, aqui deixo um excerto das "Journées de Lecture" do mesmo Proust, numa tradução da Editorial Teorema:

"A amizade, a amizade que diz respeito aos indivíduos, é sem dúvida uma coisa frívola, e a leitura é uma amizade. Mas pelo menos é uma amizade sincera, e o facto de ela se dirigir a um morto, a uma pessoa ausente, confere-lhe algo de desinteressado, de quase tocante. É além disso uma amizade liberta de tudo quanto constitui a fealdade dos outros. Como não passamos todos, nós os vivos, de mortos que ainda não entraram em funções, todas essas delicadezas, todos esses cumprimentos no vestíbulo a que chamamos deferência, gratidão, dedicação e a que misturamos tantas mentiras, são estéreis e cansativas. (...) Na leitura, a amizade ésubitamente reduzida à sua primeira pureza. Com os livros, não há amabilidade. Estes amigos, se passarmos o serãocom eles, é porque realmente temos vontade disso. A eles, pelo menos, muitas vezes só os deixamos a contagosto."

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