Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

...

João Gonçalves 13 Jun 03

A NOVELA DOS TELEJORNAIS II

Por ser sexta-feira 13, a TVI brindou-nos no seu interminável "Jornal Nacional" com a prestação de uma senhora parapsicóloga que dissertou sobre a matéria do azar, com alguns exemplos práticos. Os guiões destas sessões informativas deviam ser objecto de um estudo sociológico, dada a profusão dos temas apresentados e a ligeireza da função. Como se isto não bastasse, há jornalistas que abordam assuntos e pessoas num estilo que, muitas vezes, roça a insolência de mistura com uma leveza ignorante. Eu, que nunca simpatizei nem pessoal nem politicamente com António Guterres, gostei de o ver outro dia à saída de uma visita ao amigo Paulo Pedroso dizer o que disse ao grupinho de destrambelhados jornalistas que, à força. queriam um comentário inócuo. Suspeito que eles nunca irão perceber o alcance da frase assassina de Guterres ( tivesse ele sido assim sempre como Primeiro Ministro e ainda hoje lá poderia estar). De facto, o ridículo mata, e nós, se devemos ter respeito pela profissão de jornalista, nunca devemos sentir por ela - ou outra qualquer ligada a poderes "fácticos" - qualquer tipo de temor reverencial.

...

João Gonçalves 13 Jun 03

O BASTONÁRIO EXCELENTÍSSIMO

José Miguel Júdice, em tempos, escrevia sobre a coisa pública com alguma elegância, e nela participou com relativa intensidade enquanto membro do PSD, chegando mesmo, por amizade a Marcelo Rebelo de Sousa, a fazer parte da Comissão Política Nacional da agremiação. Há dois ou três anos, decidiu concorrer a bastonário da Ordem dos Advogados, e lá está. Os seu artigos, desde então, passaram a tratar em exclusivo a maçadora questão da justiça e do justo, vista naturalmente, pela óptica dos advogados (sobre estas coisas da justiça, recomenda-se a leitura de dois livrinhos de Paul Ricoeur, um já traduzido entre nós, sob o título genérico de "Le Juste" ). Devo confessar a minha alergia a corporações profissionais, particularmente a esta à qual, numa fase ainda ingénua da minha existência, fui obrigado a pertencer. Júdice, pelos vistos, entrou decidido a fazer da seita uma muito agitada e "conspicuous" instituição, com lugar quase diariamente cativo nas televisões. Nada de extraordinário, se pensarmos que, se há coisa que o País tem em demasia, é "juridicidade" , pelo que se compreende a mediatização da Ordem levada a efeito pela actual direcção, se bem que o antecessor de Júdice, Pires de Lima, no mínimo, tivesse mais graça. Esta gente, porém, leva a coisa a peito, como se viu pela forma respeitosa, veneranda e obrigada como José Miguel Júdice resolveu há dias o incidente António Marinho Pinto. Este senhor advogado era o presidente da Comissão dos Direitos do Homem da Ordem até ao dia em que "ousou" dizer numa comissão parlamentar o que pensava acerca da magistratura judicial. Parece que tal desaforo podia colocar em causa a realização de um tal "congresso da justiça", pois ilustres representantes da sobredita magistratura ameaçaram logo amuar e não aparecer no dito congresso. Pressuroso, Júdice demitiu o senhor advogado de presidente da comissão para salvar a "honra do convento", apesar de ter esperado que o colega tivesse saído pelo seu próprio pé ( a que título ?), como revelou numa conferência de imprensa, colocando-se a ele próprio no lugar de Marinho Pinto. Eis como, num simples gesto, Júdice desfez a imagem que dele tinha: a de um liberal esclarecido e livre.

...

João Gonçalves 13 Jun 03

PORTUGAL DOS PEQUENINOS

Não se trata de um blog destinado a enaltecer a obra coimbrã de Bissaia Barreto. O Portugal de que se fala é o País onde tudo ou quase tudo é "pequenino": a política, o Estado, o crime, o combate ao crime, a cultura, a comunicação social, a cidadania, a sexualidade, a sardinha, etc, etc. Até nós: a epígrafe de O'Neill continha um "lapsus scriptae" , em boa hora emendado, graças à oportuna chamada de atenção do Prof. Abel Barros Baptista. Neste blog procuraremos surpreender o quotidiano nacional - e não só - no que ele possa conter de ameaça à efectiva realização de uma "política democrática" e às liberdades individuais, no sentido que lhes atribuem os pragmatistas ironistas e liberais, como o americano Richard Rorty, felizmente com algumas traduções entre nós. Talvez esta citação de Rorty nos ajude a explicitar o sentido deste blog, se é que ele tem de ter algum:
"Uso o termo "ironista" para designar o tipo de pessoa que encara frontalmente a contingência das suas próprias crenças e dos seus próprios desejos mais centrais - alguém suficientemente historicista e nominalista para ter abandonado a ideia de que essas crenças de desejos centrais estão relacionados com algo situado para além do tempo e do acaso. Os ironistas liberais são pessoas que incluem entre esses desejos infundáveis a sua esperança de que o sofrimento venha a diminuir e de que a humilhação causada a seres humanos por outros seres humanos possa terminar."
(in Richard Rorty, Contingência, Ironia e Solidariedade, trad. de Nuno Ferreira da Fonseca, Ed. Presença)

...

João Gonçalves 13 Jun 03

A NOVELA DOS TELEJORNAIS ( A TVI)

No final dos anos 70, Portugal acordou para a realidade das telenovelas brasileiras com a adaptação do "fresco" baiano de Jorge Amado, "Gabriela Cravo e Canela", seguindo-se outros sucessos associados à exclusividade de antena da RTP. A emergência das "privadas", primeiro a SIC, depois a TVI, deu continuidade ao fenómeno, disputando agora esta última o primeiro lugar das audiências com as telenovelas portuguesas. Eis que, talvez embalada por este fenómeno, a TVI (especialmente) faz do seu "Jornal Nacional" (parece que é assim que se chama) uma autêntica novela que se prolonga por cerca de duas horas! Há de tudo um pouco: desde um qualquer recôndito crime, até à curiosidade obscura e inútil, passando pela política caseira e internacional onde normalmente os pivots aproveitam para dar uma arzinho da sua graça, no final de cada peça, a meio caminho entre "provedores" dos espectadores e comentadores residentes. Percebe-se que o combate feroz pelos "shares" de audiência conduza a tamanho despropósito, mas o espectador que muito humildemente quer saber o que se passa ( o "perceber" passa por outros registos que não o das graçolas ou o das vozes distorcidas e de rostos mascarados a atingirem o nível do insuportável) é que não tem nada a ver com isso. Esticar um telejornal em nome da vulgaridade e do circo, não abona quem deliberadamente o produz, nem contribui para aumentar os terríveis indíces de cidadania responsável. Afinal, como perguntava há uns anos o José Pacheco Pereira, o que é que comunica a comunicação social? Voltaremos ao tema mais tarde.

Pesquisar

Pesquisar no Blog

Últimos comentários

  • João Gonçalves

    Primeiro tem de me explicar o que é isso do “desta...

  • s o s

    obviamente nao é culpa do autor ter sido escolhi...

  • Anónimo

    Estou de acordo. Há questões em que cada macaco se...

  • Felgueiras

    Fui soldado PE 2 turno de 1986, estive na recruta ...

  • Octávio dos Santos

    Então António de Araújo foi afastado do Expresso p...

Os livros

Sobre o autor

foto do autor