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portugal dos pequeninos

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ALBERT COSSERY (1913-2008)

João Gonçalves 24 Jun 08


Em apenas cinco anos, este blogue já conta com demasiados obituários. Isto quer dizer que, à semelhança dos que desaparecem, também nós, para usar uma expressão de Gore Vidal, nos encaminhamos graciosamente para a porta chamada "saída". Como as coisas andam, a ideia acaba por não ser completamente má. Albert Cossery, nascido no Egipto, "enfiou-se" em Paris há sessenta anos onde morreu, no domingo, com noventa e cinco. Literariamente era um nómada embora o homem se deslocasse por entre pouco mais do que uma rua durante todos estes anos. Não vivia para a vida videirinha e revelava o seu desprezo por isso na lentidão do ofício traduzida em "apenas" oito livros publicados. Como bom escritor, era um imenso observador das pessoas e dos seus acasos, no essencial, infelizes. «Lui qui fut l’ami de Henry Miller et de Lawrence Durrell, de Camus et de Queneau, de Jean Genet et d’Alberto Giacometti, on le voyait tous les jours s’attabler et se fixer pour de longues heures tel une momie élégante au Bonaparte, aux Deux-Magots, au Flore, sur l’autre rive du boulevard chez Lipp ou dans des cafés moins connus de la place, observant en seigneur nonchalant la course folle des gens, écoutant leurs conversations, médisant avec talent et causticité sur la faune alentour, cinglant mais non sans tendresse, et répondant par des sourires, des clins d’yeux et de longs silences, une opération d’un cancer de la gorge ne permettant pas à ses sons d’être audibles.» Citado aqui por Pierre Assouline, Cossery disse que escrevia para que quem o lesse não fosse trabalhar no dia seguinte. Em sua homenagem, eu que "sonhei" ser tão livre como ele e que acabei prisioneiro da insensibilidade, sentei-me no café a contemplar o vazio, meu e alheio, e a pensar neste homem que nunca desejou «ter um belo carro ou qualquer outra coisa» a não ser ter sido apenas ele mesmo.

5 comentários

De de.puta.madre a 24.06.2008 às 13:31

Isto de não fazer "nada" nada é uma arte, o mais aprazível dos ofícios e requer uma inabalável força interior. E claro que não é para toda agente, é um talento equivalente à mestria do Cristiano Ronaldo.
Cossery leva com ele tudo o qu adquiriu, e vocês? vão levar o quê?

De jt a 24.06.2008 às 14:11

"Se um determinado livro não tiver sobre o leitor um tal impacto que no dia seguinte ele deixe de ir ao emprego, esse livro nada vale."

Albert Cossery

De joshua a 24.06.2008 às 20:26

Viver como ele, Albert, representa todo um programa de vida e de escrita-vida para mim.

PALAVROSSAVRVS REX

De joshua a 24.06.2008 às 20:26

Viver como ele, Albert, representa todo um programa de vida e de escrita-vida para mim.

PALAVROSSAVRVS REX

De Anónimo a 25.06.2008 às 00:09

Tinha-me prometido não perder mais tempo a enviar comentários destinados à censura,mas como este não é comentário mas mensagem,vá. V,Gonçalves é pior que o Pessoa dos heterónimos. Ora escreve textos de grande nivel,civilizados e cultos,como este e um outro,precisamente sobre o Pessoa e que oportunamente elogiei,ora escreve puros disparates a fingir(?) que é populista,ferozmente anti "regime", simpatizante dos skins,etc.É verdade que existiram os Brasillachs,Drieus,Rebatets,etc. Talvez seja isso,o que mesmo assim sempre me custou a entender.Defeito meu,que fui educado na ideia que a civilização vai acompanhada da negação dos primitivismos políticos e dos radicalismos sociais e culturais. Mais uma vez,defeito meu,com certeza. Mas não resisto a ingloriamente lhe recomendar que insista nos Pessoas,nos Cosserys,nos Rienzis, e deixe os skins e os "anti-regimes" para o apropriado lixo. Olhe que o Dr.Salazar,que ambos admiramos em âmbitos diversos,tambem não apreciava os extremistas camisas azuis e outros,e despezava os estúpidos.Exactamente.

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