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portugal dos pequeninos

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João Gonçalves 24 Dez 03

UM OUTRO NATAL...

...com DAVID MOURÃO-FERREIRA
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<b>UM OUTRO NATAL...</b><br /><br />...com <i>DAVID MOURÃO-FERREIRA</i><br /><img src="http://www.instituto-camoes.pt/cvc/oceanoculturas/foto7.jpg" border="0" <br /><br /><b>É o braço do abeto a bater na vidraça?<br />E o ponteiro pequeno a caminho da meta!<br />Cala-te, vento velho! É o Natal que passa,<br />A trazer-me da água a infância ressurrecta.<br /><br />Da casa onde nasci via-se perto o rio.<br />Tão novos os meus Pais, tão novos no passado!<br />E o Menino nascia a bordo de um navio<br />Que ficava, no cais, à noite iluminado...<br /><br />Ó noite de Natal, que travo a maresia!<br />Depois fui não sei quem que se perdeu na terra.<br />E quanto mais na terra a terra me envolvia<br />E quanto mais na terra fazia o norte de quem erra.<br /><br />Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me<br />À beira desse cais onde Jesus nascia...<br />Serei dos que afinal, errando em terra firme,<br />Precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia?</b><br /><br />...com <i>ALBERTO CAEIRO</i><br /><img src="http://www.culturabrasil.pro.br/imagens/pessoa.jpg" border="0" <br /><br /><b>Meto-me para dentro, e fecho a janela. <br />Trazem o candeeiro e dão as boas noites, <br />E a minha voz contente dá as boas noites. <br />Oxalá a minha vida seja sempre isto: <br />O dia cheio de sol, ou suave de chuva, <br />Ou tempestuoso como se acabasse o Mundo, <br />A tarde suave e os ranchos que passam <br />Fitados com interesse da janela, <br />O último olhar amigo dado ao sossego das árvores, <br />E depois, fechada a janela, o candeeiro aceso, <br />Sem ler nada, nem pensar em nada, nem dormir, <br />Sentir a vida correr por mim como um rio por seu leito. <br />E lá fora um grande silêncio como um deus que dorme.</b><br /><br />....COM <i>MÁRIO CESARINY</i><br /><img src="http://www.instituto-camoes.pt/cvc/poemasemana/06/cesariny.jpg" border="0" <br /><br /><b>É preciso dizer rosa em vez de dizer ideia <br />é preciso dizer azul em vez de dizer pantera <br />é preciso dizer febre em vez de dizer inocência <br />é preciso dizer o mundo em vez de dizer um homem <br /><br />É preciso dizer candelabro em vez de dizer arcano <br />é preciso dizer Para Sempre em vez de dizer Agora <br />é preciso dizer O Dia em vez de dizer Um Ano <br />é preciso dizer Maria em vez de dizer aurora </b><br /><br />....com <i>AL BERTO</i><br /><img src="http://www.elfenbein-verlag.de/bilder/alberto1.jpg" border="0" <br /><br /><b>dizem que em sua boca se realiza a flor<br />outros afirmam:<br />a sua invisibilidade é aparente<br />mas nunca toquei deus nesta escama de peixe<br />onde podemos compreender todos os oceanos<br />nunca tive a visão de sua bondosa mão<br />o certo <br />é que por vezes morremos magros até ao osso<br />sem amparo e sem deus<br />apenas um rosto muito belo surge etéreo<br />na vasta insónia que nos isolou do mundo<br />e sorri<br />dizendo que nos amou algumas vezes<br />mas não é o rosto de deus<br />nem o teu nem aquele outro<br />que durante anos permaneceu ausente<br />e o tempo revelou não ser o meu</b><br /><br />....com <i>ALEXANDRE O'NEILL</i><br /><img src="http://omni.isr.ist.utl.pt/~cfb/gif-store/oneil_1.jpg" border="0" <br /><br /><b>Estamos todos bem servidos<br />de solidão.<br />De manhã a recolhemos<br />do saco, em lugar de pão.<br /><br />Pão é claro que temos <br />(não sou exageradão)<br />mas esta imagem do saco<br />contendo um pequeno «não»<br /><br />não figura nesta prosa<br />assim do pé para a mão,<br />pois o saco utilizado,<br />que pode ser o do pão, <br /><br />recebe modestamente<br />a corriqueira fracção <br />desse alimento que é<br />tão distribuído, tão<br /><br />a domicílio como<br />o leite ou o pão.<br />Mas esse leitor aí<br />(bem real!) já diz que não,<br /><br />que nunca viu no tal saco<br />o tal «não».<br />Ao que o poeta responde,<br />sem maior desilusão:<br /><br />- Para dizer a verdade,<br />eu também não...<br />Mas estava confiante<br />na sua imaginação<br /><br />(ou na minha...) e que sentia<br />como eu a solidão<br />e quanto ela é objecto<br />da carinhosa atenção<br /><br />de quem hoje nos fornece<br />o quotidiano «não»,<br />por todos os meios, desde<br />a fingida distracção,<br /><br />até ao entre-parêntesis<br />de qualquer reclusão...</b><br />

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