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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

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Num fim de semana dominado pelas ameaças do presidente de um clube da bola à liberdade de imprensa e pelo lamentável congresso do PSD, o Expresso concluiu o seu ciclo de entrevistas aos antigos Chefes de Estado com Cavaco Silva. Das três - Sampaio, Eanes e Cavaco - esta é mais "política" de todas. E não o é por Cavaco responder mais ou menos directamente a questões da "actualidade" (vamos só ver uma de seguida) ou por apreciar "perfis" de protagonistas político-partidários.

Não houve uma palavra política no fim do congresso do PSD para a justiça, salvo a exibição de uma antiga bastonária da Ordem dos Advogados como vice presidente. O PSD  precisava de uma populista fácil para se demarcar do passado recente? Acho que não. Rio tem sido demasiado ambíguo quanto a Joana Marques Vidal quando essa sua vice presidente não foi. Cavaco também não é. mas por bons motivos. "Não estou absolutamente nada desiludido em relação à sua actuação, tem dado um contributo para a dignificação da função judicial."

Cavaco, muito agradavelmente surpreendido por Macron, "desmonta" a falácia ideológica que, precisamente, alguns daqueles protagonistas usam no dia a dia da medíocre vida pública portuguesa.

Por exemplo, Costa resumiu tudo ao simplismo museológico da "esquerda vs. direita" quando precisa insultar, usando o artigo definido ("a" direita) como se estivesse a falar de uma praga medieval ou de um livro de uma verdade revelada. E com Rio no PSD parece que foi descoberta a roda, isto é, a social-democracia que pôs de lado "a longa noite neocon e neoliberal" de Passos que, só por acaso, salvou o país de uma bancarrota alarve deixada pelo partido que, em Portugal, representa a Internacional Socialista. Ora a história de ambos os partidos mostra que as lideranças bem sucedidas foram as que levaram a respectiva água ao seu moínho (cito Mário Soares) e não as que fizeram proselitismo "ideológico". Quando se vê e ouve adversários declarados do PSD, e da sua indisputável liderança do centro-direita (ao fim de 40 anos ainda há temores e tremeliques no pronunciar do termo direita), a elogiar o "recentramento" do partido e a babarem-se de hipocrisia porque o PSD "regressou" ao bom porto da social- democracia de Sá Carneiro - por acaso o primeiro a perceber, logo em 1979, que apenas uma frente política reformadora liderada pelo PSD tem condições de se opôr eficazmente ao domínio do Estado, e derivados, por um PS que nunca abandonou o "sonho mexicano" dos anos 70 -, percebe-se que entrámos em terreno pantanoso e falacioso. Em curtas horas, os delíquios comentadeiros porque Rio quer medir, e proventura confundir, a sua social-democracia com a de Costa são eloquentes. Os três mandatos de Rio na Câmara do Porto "social-democratizaram" mais a cidade do que os de outros social-democratas que tomaram conta da cidade antes de Gomes? Até o Bloco de Catarina já é praticamente um campeão da social-democracia, depois de 2015, do que do velho trotskismo dos fundadores. Se Rio quiser ser "original", é melhor ir procurar o "mambo jambo" a outro lado.

Aqui entra Cavaco. "Faz muito pouco sentido hoje, em matéria de governação, em particular, falar de direita ou de esquerda, principalmente num país que está integrado na União Europeia e na zona euro, em que a interdependência das economias e a integração dos mercados é muito grande". Ou seja, "o pragmatismo tem vindo a impor-se e a ideologia aparece acantonada em partidos mais pequenos que não são governo, principalmente no que respeita à parte económica". O PSD quer "acantonar-se" no seu breviário social-democrata? Acho que não.

Depois Cavaco explica muito bem a questão da dívida (e por que é um erro crasso falar na sua reestruturação, ignorando na posse de quem ela está maioritariamente) e o grande mito do crescimento. "Não faz sentido observar o crescimento do PIB em Portugal isoladamente" porque estamos aquém do verificado nos  países que também tiveram ajustamentos, salvo a Grécia, pois "Portugal deve ao governo presidido pelo doutor Passos Coelho não estar numa situação não muito diferente" da Grécia onde "a produção caiu 25%, o desemprego ultrapasa ainda 20%, as áreas de empobrecimento aumentaram brutalmente, a degradação dos serviços públicos não tem nada de comparação com Portugal". "Não alinho nos foguetes que a comunicação social costuma divulgar quando sai um número do INE. Imediatamente vou ver os números dos países da UE, vou pensar se Portugal tem choques assimétricos positivos ou negativos, e depois vou ver o que tem a Espanha, nosso principal mercado, Chipre, Irlanda".

É que "Portugal está a beneficiar de uma envolvente externa extraordinariamente favorável: taxas de juros extremamente baixas, perto de zero, durante um período longo, como nunca se viu na história monetária portuguesa; deslocação de turistas de outros destinos para Portugal; crescimento económico da União Europeia que há muito tempo  não ocorria, com destaque para Espanha, nosso pincipal cliente, para onde exportamos cerca de 27% do total; e preço do petróleo muito baixo".

E devia aproveitar este "quadro de benesses externas", tão raramente conjugadas, para correcções de "desequilíbrios estruturais": "o enorme endividamento do país, a insustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde e do sistema de Segurança Social, a baixíssima taxa de poupança das famílias, a falta de capital, o inverno demográfico, a reforma do Estado".

Portugal, é como quem diz, este governo do "muito hábil" Costa e a oposição (que deve ser "forte e indiscutível") de Rio. 

 

 

 

 

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O Henrique Raposo escreveu um ensaio no Expresso a que deu o título de "Purgatório, um retrato de Vasco Pulido Valente". Mais. Avisa que oportunamente nos irá brindar com uma "biografia política e intelectual" do homem. Li uma parte durante a noite. Adormeci, dado o adiantado da hora apenas.E retomei de manhã. Vasco Pulido Valente (VPV) foi meu professor duas vezes. A primeira, no ano zero do curso de Direito da Católica -  de História, dois semestres, um primeiro em torno dos mistérios da "identidade nacional", e uma segunda parte sobre o século XIX português, antes da Revolução de 1820, ou seja, fundamentalmente as invasões francesas, a fuga da realeza e os ingleses - e a segunda, num único semestre do último ano do curso, numa cadeira facultativa chamada "história das relações internacionais" onde se contava a história da Europa entre as revoluções (1848) e a II Guerra Mundial (1939), baseada num livro famoso de A. J. P. Taylor.

Antes disto, já lia (e, por consequência, já sabia quem era) VPV por causa dos jornais. Por junto, são mais de quatro décadas de "convivência intelectual" que os livros ajudaram a completar. VPV, apesar de pertencer a uma "geração" da qual saíram nomes conspícuos mais ou menos para tudo, foi sempre atípico dela no sentido em que preferiu os bastidores aos palcos. Curiosamente, a única vez em que ajudou alguém a subir ao palco (Sá Carneiro), e a permanecer lá, foi contra essa geração. Em 1985, com Soares, estava nos bastidores como, aliás, tinha estado no primeiro "eanismo" (com Carlos Macedo e outros que depois se zangaram com Eanes), de 1976-1978, ou na Aula Magna, no primeiro congresso do PS, pela "social-democratização" do partido (ao lado de Cunha Rego, Alfredo Barroso e outros) contra a facção Manuel Serra, um congresso onde ironicamente Manuel Alegre teve um papel decisivo nesse processo de "endireita" do partido. 

Se chamo estes pequenos detalhes aqui, é porque não os encontrei no texto de Raposo. Por exemplo, a ligação a Eanes começou na RTP,  em 1975, quando o então major presidiu à casa em pleno PREC. Prosseguiu informalmente em Belém, como disse, onde VPV acabou por ser um "ghost writer" de alguns discursos "tomba governos Soares" dessa época. Depois, por ocasião da recandidatura de Eanes em 1980, VPV seria peça política essencial da candidatura do Gen. Soares Carneiro, da AD. Se o foi igualmente (com Barroso, de novo, António-Pedro Vasconcelos ou António Barreto) no MASP 1985-1986, desapareceria da recandidatura de Soares em 1991. Muito menos apoiou Sampaio, que fora seu amigo nos anos 60. E começou por escrever o melhor artigo sobre Cavaco em 1995 ("Chegou o Presidente"), para ir dando dar cabo dele até às eleições. Cavaco, ou melhor, o cavaquismo é muito aludido no texto de Raposo como um dos ódios de estimação "snob" do estudado. É e não é. VPV e Cavaco foram colegas de governo entre 1979 e 1980. VPV era do círculo político íntimo do 1º ministro (SE adjunto e SE da Cultura), suponho que Cavaco não. Mas Cavaco tirou amplo proveito dessa passagem pelas Finanças para tomar o PSD e o governo por dez anos. E aquando da segunda maioria, em 1991, VPV não falhou com um ou dois textos importantes onde se explicava por que é que não valia a pena mudar de Cavaco.

Numa longa litania no Observador, em Janeiro de 2017, por ocasião da morte de Soares, VPV tornou a explicar por que é que Soares era o tipo dos dois primeiros D's do programa do MFA, descolonizar, democratizar (aliás, ideia recolhida da comunicação de Medeiros Ferreira, a partir do exílio na Suiça, lida pela Maria Emília ao Congresso de Aveiro da oposição democrática, de 1968 ou 69) e Cavaco do terceiro, desenvolver. 

O "famélico de Boliqueime" é uma facécia que não chega, a meu ver, para fazer um ressentimento de classe por cima. Tal como "a cabeça de um regedor da I República" de Mário Soares. Nunca foi nem um "indefectível"  soarista, nem um "incansável snobista" desprezador de Cavaco. Pelo contrário, Raposo é que parece ter a necessidade de invocar persistentemente o "lumpen" e o "social" (ora por baixo, ora por cima), ao longo de todo o texto, para malhar VPV com a novilíngua dita libertária do que passa em Portugal por liberal, aconchegando, de caminho, alguma representação mediática circunstancial desse "libertarismo liberal", tão, mas tão académico, afinal.

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Nem sequer me parece relevante apurar se VPV é de esquerda ou de direita (Raposo jura que ele foi sempre de esquerda). O que é certo é ele ter contribuído ("the pen is mighter than the sword"), contrariamente ao que escreve Raposo, para retirar ao PS o famoso "sonho mexicano" dos anos 70 e, com o PSD, Reformadores, CDS, PPM e independentes que depois apareceram nas elites do cavaquismo, introduzir a direita pós-marcellista (um período que VPV considerou o melhor da vida dele: ele constatou as melhorias nacionais 1950-1974 ou 1851-1908, Raposo) neste regime. Há alguma lógica sincrónica (e cronológica) nisto: menos asfixia marcellista, PS social-democrata, RTP e "ambiente cultural e comunicacional" liberto do PC, liderança institucional de Eanes contra o "sonho mexicano", falhanço dessa liderança que passou para Sá Carneiro, Soares Carneiro para flexibilizar mais depressa o sistema económico, sem militares, Cavaco para "desenvolver". Balsemão ou Guterres, ou mesmo os interregnos da direita com Barroso e Lopes, não o entusiasmaram particularmente. Nunca deu corda ao autoritarismo socrático. Tentou sempre perceber Passos. Teve fraquezas por Portas, mas "ça va de soi".

É por isso um pouco leviano dizer que "VPV nunca se adaptou ao país democrático e igualitário que perfurou aquela Lisboa pequenina e oitocentista do salazarismo, acabando por se refugiar numa espécie de exílio oitocentista". Vamos por partes. Se alguma coisa o salazarismo era, era "ancien regime" e não oitocentista. Pelo contrário, a chamada monarquia constitucional, em certo sentido, foi do mais "progressivo" que ainda conseguimos ter. Depois, não é uma questão de "adaptação" a um país democrático. Na raíz, o país persiste autoritário e imaturo. Dos seus mais pequenos e insuspeitos sinais aos maiores, nos poderes institucionais e outros. É bom que haja sempre alguém que detecte e denuncie esse autoritarismo "democrático" de um regime que não há meio de tornar-se adulto. E persiste muito pouco igualitário, fora da retórica habitual, o que prejudica a denominada meritocracia logo nos acessos. Se nunca derem a oportunidade a um miúdo de Barrancos ou de Boticas a apreciar Bach, se quiser, o que é que me adianta andar com o credo do país igualitário na boca?

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 Penso que VPV sempre tentou perceber (título de um livro seu, "Tentar Perceber") o país a partir de três ou quatro "capítulos" da sua história política, económica, social e cultural do século XIX em diante. Até acredita, a avaliar por entrevistas recentes, que o país é "reformável", coisa em que eu, a não ser para efeitos meramente administrativos, deixei de acreditar há muito tempo. Ele sempre afirmou ler e reler vezes sem conta o Eça de Queiróz, ficando-lhe a falhar uma biografia. A "vulgata queirosiana", como lhe chama Raposo, é a apoteose literária da ironia, não é nem a do pessimismo nem a do cinismo filosóficos ou sociológicos. As "cenas" dos livros do Eça também servem para "tentar perceber" o país macrocéfalo, intolerante e hipócrita que continuamos a ser. Continua-se a aprender mais numa página dele, sabendo que se trata de pura literatura, do que em cem ou quinhentas que deve dar o somatório dos autores citados no último parágrafo de Raposo. Mas escapou a Raposo "o" autor de VPV para os efeitos pretendidos nesta parte do ensaio e que nem uma única vez é mencionado: Oliveira Martins. Sim, o Oliveira Martins do "Portugal Contemporâneo" que, à sua maneira, VPV foi escrevendo ao longo destas décadas. Serão ambos "homens de tempos abolidos"? Se calhar são. Todavia, abençoados sejam.

 

 

 

O problema da raiva

João Gonçalves 18 Abr 16

 

Durante a última campanha eleitoral para as legislativas, e mesmo antes, José Pacheco Pereira aludiu várias vezes à questão da raiva. Ele achava que António Costa não aproveitava suficientemente o "espírito" de protesto calado que grassava um pouco por toda a sociedade portuguesa contra o "austeritarismo", a "frieza" e a "insensibilidade social" da Direita. Costa berrava muito, como continua a berrar em funções oficiais, mas tal não se traduzia em mais porque o PS, timorato, não explorava o filão do descontentamento. E, de facto, não se traduziu. A páginas tantas Costa viu que ia perder e que à Esquerda iam inchar. Ainda agora, a avaliar pelas sondagens, o PS medra pouco relativamente aos seus parceiros parlamentares. A raiva sublimou-se em meia dúzia de papéis assinados, num Governo construído às avessas, engolido pela correcção política e pela demagogia irresponsável, num Orçamento fofinho e insensato para lambuzar o eleitorado "central", num presidente "afectuoso" e hiperpresente, numa Comunicação Social tagarela, levezinha e complacente. Costa, à semelhança do que fez na Câmara de Lisboa, distribui pão e circo com a beatitude laica de quem acha que a raiva passou e que pode transformar os aliados do Bloco e do PC em "marca branca" política.

O Bloco, um ajuntamento de patos-bravos deslumbrados com a proximidade do poder, só se distingue do PS por apascentar "causas" idiotas e domesticar ministros mais crédulos e rústicos. É um partido no lastro daquilo que Eco designava por fascismo eterno: "Filosoficamente desengonçado, mas do ponto de vista emotivo firmemente articulado com alguns arquétipos" tais como a acção pela acção, a frustração individual ou social, o elitismo prosélito, uma "invidia penis permanente", um "populismo qualitativo".

O PC, coitado, agarra-se às ossadas sindicais e à "palavra dada" num pequeno mundo de mentirosos. Não consegue penetrar na "nova aliança" com Costa e Catarina, unidos, a declinar Ionesco citado por Eco: "Só as palavras é que contam, o resto é conversa". As lérias escondem tempestades e não é certo que façam desaparecer a raiva. Pacheco, aliás, não se cansa de advertir os seus amigos das esquerdas. E os nossos credores também não. A Direita, porém, não vai longe enquanto houver nela quem declare Costa um "príncipe da política" ou ande pelas televisões a lamber-lhe untuosamente as botas. Costa é Sócrates sem as trapalhadas pessoais de Sócrates. Dá raiva não se perceber.

 

Jornal de Notícias, 18.4.2016

LOUVOR E SIMPLIFICAÇÃO DE UM GENERAL

João Gonçalves 11 Abr 16

 

1. A dada altura acompanhei um ministro com quem trabalhava a uma comissão parlamentar em que a interlocutora do Bloco era a ainda não tão embotada Catarina Martins. Foi a primeira vez que dei por ela: insolente e regateira. Depois aprimorou-se como chefe da tribo e dona até de ministros. Agora quer ouvir um General do Exército português presumivelmente com a insolência e a regateirice exacerbadas e a complacência de meia dúzia de bananas de outros partidos. Quem nasceu para lagartixa nunca chega a jacaré.

2. Um mês de Marcelo: 18 valores. Só não tem 19 por ter aceitado a demissão do Chefe de Estado-Maior do Exército sem pestanejar.

3. João Soares sai por causa de umas bofetadas retóricas e porque o Bloco só permite a retórica moralista das suas senhoras. Um general prestigiado sai porque não percebe nada de "afectos" e de gatinhos. Sempre o triunfo dos porcos.

4. (...) O pedido de demissão do chefe de Estado-Maior do Exército, General Carlos Jerónimo, merece outra atenção. Desde o fim do serviço militar obrigatório por razões "correctas", comuns à Esquerda e à Direita, perdeu-se o "sentido" das Forças Armadas enquanto elemento estratégico de coesão nacional e social. O episódio "Colégio Militar", que terá estado na origem na demissão de Jerónimo, é elucidativo desta cedência progressiva dos responsáveis políticos à ditadura da "superioridade moral" das elites radicais e comunicacionais. Entre a "vociferante matilha do espectáculo", referenciada por Sloterdijk, e a salvaguarda de modelos institucionais estáveis por natureza e dever, o Poder Político já há muito que não hesita. Lê-se superficialmente uma reportagem online mas conclui-se logo que ali há "discriminação", a palavra mágica para qualquer oficiante da "moderna" inquisição. Lamentavelmente o ministro da Defesa foi o primeiro a cair na armadilha das "vanguardas": preferiu a via pública para vexar a hierarquia militar. Logo secundado pelo comandante supremo das Forças Armadas, e presidente da República, que aparentemente não encontrou motivos para não aceitar imediatamente o pedido de demissão do chefe de Estado-Maior do Exército. Não é "popular" falar do Colégio Militar, das Forças Armadas ou usar figuras de estilo como "bofetadas" ou "bengaladas" no contexto meloso e hipócrita da nossa sociedade actual. É mais fácil fazer proselitismo, o que nunca foi o meu género. Na mensagem de despedida que enviou aos seus militares, Carlos Jerónimo acabou por dar uma bofetada de luva branca a quem a merecia. Já ninguém a tira. (Jornal de Notícias, 11.4.2016)

SIMPLIFICAÇÃO DO M(IN)ISTÉRIO DA CULTURA

João Gonçalves 11 Abr 16

 

1. Há quem, inocentemente, julgue que o ministério da cultura é a "cultura". Não é. É, à semelhança dos outros ministérios, uma mercearia política que distribui dinheiro (quase nenhum) por equipamentos referenciados como culturais. Depois, consoante o titular saiba minimamente o que está a fazer, essa distribuição deve ser calibrada com uma coisa chamada mecenato ou junção de privados a equipamentos e actividades culturais porque o dinheiro público é finito. Finalmente a distribuição pressupõe pelo menos uma ou duas ideias sólidas e fundamentadas do que se deve fazer e, muito especialmente, do que não se deve fazer. Por exemplo, mais preservação do património material e imaterial ou mais artes ditas performativas, estatais ou "independentes"? Se há área onde a "independência" é curta é esta. Se há país onde existe uma cultura, como aliás uma literatura assim, pequena e irrelevante por muito que gostemos dela, é o nosso. Os chicos-espertos da "cultura" sabem isto e tentam desde sempre apropriar-se dela e do seu putativo ministério. Eles são os "donos" eternos da cultura e os ministros ou secretários de Estado (incluindo os das finanças e da economia) só existem para os servir. Preferem um botão de rosa na Ajuda a alguém que tenha a sua opção política (e financeira) para o sector (que é comum a todas as opções políticas do governo ou então não é nada). O último que intuiu isto tudo, e não mistificou, foi Manuel Maria Carrilho. Percebo que seja difícil encontrar alguém à altura dele

2. O embaixador Castro Mendes sucede a João Soares. Não vão faltar os panegíricos. O homem é ficcionista e poeta pelo que pelo menos os seus editores não lhe irão falhar. Nesta matéria nada digo porque nunca o li. Lembro-me de ter passado pela presidência Eanes e de entretanto se ter tornado um compagnon de route do PS "certo". Estava na Índia em 2010 quando o seu amigo Luís Amado era MNE. Desejava Paris e a remoção violenta de Manuel Maria Carrilho da UNESCO pela mão de Sócrates (Amado não contava) abriu-lhe as portas da cidade que ele rondava porventura farto do mau cheiro. Ironicamente vem agora, de novo, ocupar um lugar que já foi de Carrilho. Nunca há uma segunda oportunidade para causar uma primeira boa impressão.

3. Já estão em curso as costumeiras oferendas de alfinetes de peito ao novo MC. Em geral começam por "um homem de cultura, um magnífico poeta". O Público é bem capaz de acometer um suplemento ou um caderno especial com 27 páginas. E um par de bofetadas nestas lambisgóias?

4. No epitáfio de João Soares, o dr. Costa inscreveu o admirável vereador da cultura que ele foi em Lisboa. Passou, como é seu timbre, por cima da circunstância de Soares ter sido presidente da CML bem antes dele e, salvo erro, ter acumulado o pelouro da cultura. Agora o dr. Costa foi buscar Miguel Honrado, da vasta tribo da cultura da Câmara costista, para SE do sr. embaixador Mendes. Nunca votei em Soares em Lisboa mas não sou propriamente parvo. O sr. embaixador fica à vontade para continuar a versejar.

Marcelo

João Gonçalves 14 Mar 16

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Numa carta de Novembro de 1969, enviada de Moçambique a Marcello Caetano, Baltazar Rebelo de Sousa fala às tantas do seu filho mais velho. "O Marcelo Nuno é, na verdade, uma boa cabeça - e, nos infelizmente curtos contactos que com ele tenho, "actualiza-me" quanto ao pensamento da sua geração e até quanto aos sistemas de ideias que vão tendo voga". Marcelo Nuno tinha apenas vinte anos, todavia o pai resumiu perfeitamente o futuro presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa: uma boa cabeça, sem dúvida das mais brilhantes e estimulantes da sua geração, "racionalizada" pela história e disponível para a contingência. Marcelo apresentou-se candidato ao país praticamente sem um programa eleitoral escrito, ou um "manifesto", como era costume. É certo que existiram dois ou três discursos iniciais que o substituíram, mas o essencial que Marcelo procurou transmitir foi ele próprio. E a genuinidade não o traiu. Pelo contrário, o grande comunicador solitário intuiu o que o "povo" queria e, sobretudo, o que não queria, depois da tagarelice infindável do último trimestre de 2015. Chegou à chefia do Estado sem dever nada a ninguém e de mãos inteiramente livres. Conhece o regime por dentro e por fora, o que faz dele presentemente o homem político mais bem preparado para o cargo que ocupa: os partidos (o objecto da sua dissertação de doutoramento), a chamada "sociedade civil", a complexidade social, económica e cultural do contemporâneo português e mundial, o transe europeu, as pessoas. A realidade vai bater-lhe à porta conforme bateu à dos seus antecessores. O muito mundo que Marcelo adquiriu, nas suas luzes e imperfeições, é a mais-valia para um mandato previsivelmente difícil. O balanço entre o institucional e o informal, a dessacralização do poder sem beliscar a autoridade, a firmeza na liberdade de espírito, o sentido útil do Estado e a preservação da autonomia privada, a defesa intransigente do interesse público aqui e na Europa, são desafios fortes a que, confio, Marcelo Rebelo de Sousa responderá inteligentemente e com ponderação, em linha com o que afirmou no dia da sua tomada de posse. "O presidente da República é o presidente de todos. Sem promessas fáceis, ou programas que se sabe não pode cumprir, mas com determinação constante. Assumindo, em plenitude, os seus poderes e deveres. Sem querer ser mais do que a Constituição permite. Sem aceitar ser menos do que a Constituição impõe. Um servidor da causa pública".

 

Jornal de Notícias, 14.3.2016

Aníbal Cavaco Silva

João Gonçalves 7 Mar 16

 

Estive a observar uma reprodução do retrato oficial do presidente Aníbal Cavaco Silva, da autoria de Carlos Barahona Possollo, que a partir de quarta-feira fica exposto no Museu da Presidência da República. O retratado está de pé contrariamente aos seus antecessores mais próximos, ora demasiado hirtos ora propositadamente desfocados. Assenta a mão esquerda em figurações encadernadas da Constituição da República Portuguesa, de "A riqueza das nações", de Adam Smith e de outros dois exemplares maciços. Emergem folhas manuscritas e marcadores nos livros. Na mão direita, o presidente exibe uma caneta de tinta permanente. Este retrato oficial sugere uma observação de Gombrich sobre arte figurativa e o papel de quem "vê": quem observa vê em regra o que já sabia. De facto, Possollo conseguiu mostrar-nos o que já sabíamos sobre o retratado enquanto presidente da República. Cavaco Silva foi o leitor mais "formalista" da Constituição e o menos "presidencialista" dos chefes de Estado do regime semipresidencial que ela instaurou. Sem ser jurista de formação, ateve-se o mais que pôde à interpretação literal da coisa. Como se viu, por exemplo, aquando de uma adequada defesa dos poderes presidenciais a propósito de uma deliberação do Parlamento Regional dos Açores. Deu importância ao poder da palavra presidencial embora algumas vezes essa "palavra" o tivesse traído, menos quando abordou a economia e o social do que a política propriamente dita. Confio que as "memórias" que se anunciam destes dez anos permitirão esclarecer muito do não dito dessa "palavra". Cavaco preferiu uma magistratura reservada e algo afastada das pessoas. Os seus "roteiros" sinalizaram instituições bem-sucedidas, rumos frutuosos, temáticas presentes e futuras mas ficou a faltar-lhes alguma "humanidade" e ressonância popular. Neste período raramente emergiu o homem das maiorias absolutas dos anos 90, o que falava directamente à nação por cima de caciques rapaces ou de cortesãos autocomplacentes e menos atentos à eficácia do desempenho presidencial. Não "rompeu" nem "consensualizou" tanto quanto porventura teria preferido o que não dependeu exclusivamente dele. Tal significa que não lhe devem ser debitadas as falhas dos sucessivos governos, desde aquele que encontrou em 2006 até ao derradeiro empossado em Dezembro último. Indisputavelmente rigoroso, Aníbal Cavaco Silva fica para a história política como o estadista persistente, sério, exigente e ponderado do retrato oficial. Não é pouco.

 

Jornal de Notícias, 7.3.2016

 

Aníbal Cavaco Silva - 1

João Gonçalves 2 Mar 16

 

A semana e meia de deixar o Palácio de Belém, e numa altura em que "parece bem" ignorá-lo ou diminui-lo, entendo que devo a mim mesmo umas palavras sobre Aníbal Cavaco Silva. Quando foi ministro das Finanças e do Plano de Sá Carneiro, as suas funções não me entusiasmavam especialmente. Aos 20 anos interessava-me a política pura e dura e a ruptura democrática introduzida pela AD de 1979 que os Reformadores, onde eu estava, apoiaram. Cavaco só entrou na minha paisagem quando tomou conta do PSD na Primavera de 1985. Não ignorava as suas desconfianças públicas e partidárias relativamente a Balsemão que, naquele ano, se sublimaram sobretudo através da "corrente" lisboeta Nova Esperança (de Marcelo, S. Lopes, D. Barroso, J. M. Júdice e, imagine-se, Helena Roseta) que desaguou no célebre congresso da Figueira da Foz. O PSD dessa altura seguia Mário Soares no Bloco Central e Cavaco vinha para desfazer esse "consenso" mole e impor uma agenda própria nas presidenciais. Ganhou a primeira parte e perdeu a segunda, o que, paradoxalmente, ajudou a criar o lastro para a sua primeira maioria absoluta. Depois da Figueira, Cavaco emergiu com uma autoridade indisputável sobre o partido. E o poder democrático foi determinante para afirmar por dez anos a sua autoridade no país a que sempre se dirigiu sem intermediários e em nome, cito-o, de uma "imagem de competência, rigor e determinação". Cavaco passou a definir os "consensos": não eram os "consensos" que o definiam. As "elites" dividiram-se sempre entre as que fingiam tolerá-lo e as que lhe devotavam uma espécie de temor reverencial. A "burguesia" democrática, educada no republicanismo torpe da 1.ª República e no "antifascismo" de salão ou de rua, nunca o suportou. Aos "próximos" nunca permitiu uma proximidade que ultrapassasse a sua estrita necessidade deles. Aliás, quando, em Janeiro de 1995, quebrou um famoso "tabu" estava farto deles. Cavaco aprendera a ser um dirigente político capaz que transformara a timidez natural em força e intimidação. Em suma, mandava e o país apreciava que ele mandasse. Até nas presidenciais em que Sampaio ficou presidente, Cavaco obteve um resultado que, fosse outra a eleição, lhe garantiria uma terceira maioria absoluta. Esperou então dez anos, paciente e metodicamente, pela próxima. Qual foi o "segredo"? Parafraseando V. Pulido Valente, Cavaco sempre soube o que quis enquanto os seus inimigos e adversários apenas sabiam que não queriam Cavaco. Nunca chegou.

 

Jornal de Notícias, 29.2.2016

Ao lado de Carrilho

João Gonçalves 23 Fev 16

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Tenho evitado escrever sobre coisas que não me dizem respeito. Ou melhor, sobre coisas que não me dizem respeito mas que envolvem uma pessoa que respeito. Enquanto Manuel Maria Carrilho desempenhou funções governamentais, entre 1995 e 2000, acompanhei de longe a sua actividade. Nessa altura ainda era do PSD e desagradava-me profundamente a forma altiva como o ministro, em intervenções públicas, criticava o então presidente do partido, Marcelo Rebelo de Sousa. Todavia percebi que a "aliança" subtil entre dois homens cultos e perspicazes (Carrilho e Sousa Franco nas finanças) estava a mudar a relação da cultura "institucionalizada", através de um ministério e dos seus equipamentos, com a sociedade e vice-versa. Carrilho sabia mais dos orçamentos desses equipamentos e da sua gestão do que a maior parte dos seus directores-gerais. Dei bem por isso quando, menos de dois anos após a sua demissão, fui para a direcção do São Carlos. Passei, pois, a ler Carrilho retrospectivamente e a escutá-lo com outra atenção. Apoiei-o na malograda candidatura à Câmara de Lisboa de 2005. Depois disso, já Carrilho era vice-presidente da bancada do PS no parlamento, ficámos amigos. Não é no entanto por essa circunstância, a da amizade, mas apesar dela que o acompanho nestas suas considerações. Manuel Maria Carrilho é um homem frontal, claro, bem preparado, defensor do interesse público, conhecedor, pela sua formação, das implicações sociais, culturais e mediáticas do Direito, sem tribos nem donos. Ora isso num país em que a deliquescência, o lambe-botismo, a moleza, o comadrio cúmplice e a estupidez "por simpatia" forjam as regras de jogo, torna-o insuportável para os "costumes" e respectivos beatos e beatas. Carrilho foi sempre um dos alvos preferidos dessa má-fé em parte por ser como é. Sou brutal com os meus amigos, sobretudo os mais íntimos, o que me tem valido uma larga debandada de interlocutores que só apreciam festas, favores e pancadinhas nas costas. Nessa brutalidade incluo o cuidado em não os deixar cair quando acredito firmemente neles. O meu lado é, como deve ser, ao lado de Carrilho.

Acabou a festa

João Gonçalves 23 Fev 16

 

Passados quase três meses sobre a entrada em funções do "Governo de iniciativa do PS" ou, na versão épica do PC, "patriótico e de esquerda", o Parlamento começa finalmente a discutir o orçamento para o ano em curso. As papeletas que vão ser apreciadas já não são as originais. Depois de Bruxelas, do Conselho Económico e Social, da Unidade Técnica de Apoio Orçamental, apareceu uma "errata" substantiva (e não apenas com vírgulas e pontos finais) que as mudou. Mesmo o "binómio papeletas-errata" conhecerá modificações até ao derradeiro instante. Um orçamento é uma previsão financeira e económica que, por natureza, é sobretudo um documento político. Se uma maioria "estável e coerente" tem sempre dificuldades em fazer entrar em vigor no dia 1 de Janeiro uma previsão "estabilizada" (os orçamentos estão inapelavelmente "desactualizados" quando entram em vigor), como é que uma maioria "instável e incoerente" pode dar sossego aos seus concidadãos, e aos vigilantes externos, com as "exigências" ideológicas do PC e da extrema-esquerda? Mesmo assim, vai ser este desconchavo parlamentar a aprovar este orçamento "rectificado antes de o ser". Até agora, tinha sido mais ou menos um festim nu com muitas palmas e comoções palermas. Derrubar Passos, ignorar o maior grupo de deputados, aprovar legislação "correctíssima", humilhar Cavaco, mostrar em suma a "força" do segundo governo deste primeiro-ministro e que é liderado no hemiciclo de São Bento pelas mocinhas do Bloco. Daqui para diante, a conversa será outra. A "novidade" é, por um lado, o compromisso do PC e da extrema-esquerda com um austeritarismo corrigido e, nalguns aspectos mais subtis, aumentado. E, por outro, o do PS com declarados adversários da "moderação" que, de uma forma geral, junta socialistas e sociais-democratas europeus aos seus congéneres das direitas, governativas ou não. A questão fundamental não é a opção política do PS pelas suas esquerdas com a bênção, entre outros, de algum bispado ortodoxo de outras bandas como o soturno dr. Pacheco Pereira. O problema é que esta opção não passou pelo crivo eleitoral como, por exemplo, Tsipras passou duas vezes com um referendo pelo meio. Costa entrou pela secretaria e tem de tratar de tudo na secretaria com os seus parceiros, antes de aparecer com "soluções" diante do povo ou em Bruxelas. Todavia, há que respeitar esta brilhante opção e tirar dela todas as consequências políticas. A primeira das quais, quanto ao PSD e ao CDS, é votar contra o orçamento.

 

Jornal de Notícias, 22.2.2016

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