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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

Os companheiros de Ulisses

João Gonçalves 19 Jul 15

 

 Viúvas políticas, novas e velhas, têm passado o domingo a louvar-se em Sá Carneiro a pretexto do dia do seu aniversário. Que pensaria o fundador da direita democrática se os lesse e ouvisse, alguns deles, como escreveu Vasco Pulido Valente, «criaturas que ele execrava ou desprezava do fundo do coração»? É que a direita democrática que ele fundou em 1979, sublimando-a através da Aliança Democrática (não houve outra, aliás), não tem nada a ver com o que hoje, por aí, passa por tal. Já em 1974, por ocasião da fundação do PPD, «era um líder nato que avançava. Sempre, no entanto, com aquele desprendimento que, mais tarde, o levaria a estar e a romper logo que a consciência o ditasse.» (Marcelo Rebelo de Sousa, A Revolução e o Nascimento do PPD, 2000). Na realidade, «conservador Sá Carneiro não era. Era um revolucionário incapaz de complacência, impaciente com os males do mundo e sem medo da acção. Em Novembro de 1980, quando o governo se ocupava a discutir o orçamento numa atmosfera de puro delírio e os ministros fingiam não se aperceber que o tecto ia cair, ele pensava já em novas aventuras. Não houve novas aventuras. Como se sabe, os companheiros de Ulisses acabaram transformados em porcos.» (VPV, Retratos e Auto-Retratos, 1992)

EM DEFINITIVO

João Gonçalves 4 Dez 11



«Convém perceber que os fins de Sá Carneiro eram dois. Primeiro, levar a direita (o PPD e o CDS) ao poder e, segundo, acabar com a tutela militar a que Portugal estava submetido. Talvez seja inútil explicar que se o poder ficasse indeterminadamente nas mãos da esquerda que se opusera à ditadura, e só nas dela, não tardaria que se criasse a ideia de que não assistia ao PSD e ao CDS qualquer legitimidade para governar e o regime democrático ficava à partida liquidado. As maiorias de 1979 e de 1980 e a genérica moderação da AD (que se absteve de perseguir fosse quem fosse e respeitou meticulosamente a lei) legitimaram a direita em definitivo.»

Vasco Pulido Valente

PASTORÍCIA

João Gonçalves 4 Dez 10

É isto mesmo. Quem diz nona ainda pode vir a dizer vigésima ou centésima. Há quem viva desta forma de pastorícia inerme. E não há nada a fazer.

UMA OFERTA

João Gonçalves 4 Dez 10


O Carlos Medina Ribeiro vai oferecer um exemplar do livro da foto - a edição que possuo - no seu blogue. Vão lá.

SITUAÇÕES

João Gonçalves 4 Dez 10


Hoje é dia das diversas "viúvas Porcinas" de Sá Carneiro se manifestarem. Muitas delas eram execradas pelo dito cujo ou pura e simplesmente ignoradas. Outras nem sequer existiam politicamente. Certo é que pouca gente pode, com honestidade intelectual, falar com algum rigor de Sá Carneiro, trespassado pela lança da morte, como um herói wagneriano, em pleno campo de batalha. Inglória? Sem dúvida. O país não entendia como se podia governar bem com Eanes e, no dia a seguir à segunda vitória da AD em Outubro de 1980, já não se podia. Ao longo desse ano de eleições, as indicações eram invariáveis - o "povo" queria Sá Carneiro como 1º ministro e Eanes como PR. Nos depoimentos dados ao Público (a Miguel Gaspar), Vasco Pulido Valente e José Medeiros Ferreira resumem a coisa. «Francisco Sá Carneiro deu um grande passo para a democratização do regime. Fez uma coisa que foi decisiva depois do 25 de Abril. Levou a direita legalmente para o poder. Deu o direito à direita para governar. A direita foi eleita democraticamente e governou o país serenamente e democraticamente, sem qualquer tipo de perseguições (...). Sá Carneiro tinha a capacidade de ver realisticamente o estado em que está a sociedade que ele se propõe governar, de apreciar realisticamente os meios possíveis para agir sobre ela (...). Tinha uma grande confiança nele. Era muito educado; tinha lido muito, sobre arte, sobre história, sobre arqueologia, sabia imenso sobre arqueologia e da sua profissão, era um bom advogado. Era uma pessoa segura de si própria. Tinha um grande talento político. E não era uma pessoa fechada, pelo contrário (...) Eu não achei até certa altura impossível que Eanes e Sá Carneiro se entendessem para tirar os militares do poder. Quando ganhámos em 1979, opus-me ao confronto imediato com ele (...) Eanes é um conservador, mas é um militar. Não se deixam soldados mortos no campo de batalha. No fundo, queria proteger os amigos e que não houvesse represálias. Queria tirar o exército da política, mas não sabia como o fazer (...). Quando chega ao fim do jogo, não pode dizer ganhámos, mas agora não podemos continuar a jogar com este presidente do clube (...) Ele saía e ficava com o prestígio e o poder; e mais adiante voltaria.» Medeiros Ferreira recorda que «Sá Carneiro não queria ficar prisioneiro da direita» (e daí o acordo com os Reformadores negociado directamente entre Sá Carneiro e Medeiros Ferreira) e, «sendo emotivo, tinha métier político, uma coisa mais rara do que se pensa» porque «o que ficava estabelecido era executado, era uma personalidade fiável, voluntarioso e determinado.» E diz mais. «Havia um lado importante - as coisas eram mais transparentes, ele não dissimulava. A arte da dissimulação é uma arte católica portuguesa. Os grandes talentos políticos portugueses são dissimulados e Sá Carneiro não era dissimulado», concluindo que «os tempos difíceis fazem os grandes líderes.» Agora temos tempos difíceis e nenhum grande líder. Se calhar não merecemos melhor.

Foto: Ephemera

SÁ CARNEIRO E A HIPOCRISIA

João Gonçalves 4 Dez 10


O Pedro Santana Lopes tem razão. Será que alguns "investigadores" e privilegiadas "testemunhas" dos últimos anos da vida de Sá Carneiro* não terão visto os tempos de antena do PS de então - enfiado na fracassada FRS "inventada" pelo futuro bonzinho Guterres - em que apareceu, designadamente, a dra. (e quase beata) Maria Barroso a defender a "sagrada" figura do casamento e os "valores" da família alegadamente "desafiados" pelo par Sá Carneiro-Snu Abecassis? Alguma vez a "esquerda" (e muita da chamada direita) defendeu Sá Carneiro da congénita hipocrisia da sociedade portuguesa?

*isto nada tem a ver com o livro da Maria João Avillez, na foto, ainda hoje uma bonita homengem a Sá Carneiro

SÁ CARNEIRO SEM PROSELITISMOS

João Gonçalves 3 Dez 10


«Trabalhei dia a dia desde o princípio de 1979 até Dezembro de 1980 com Sá Carneiro; primeiro como adjunto no partido e membro do Governo-sombra, a seguir como secretário adjunto no Governo propriamente dito. Até há pouco tempo, julguei que sabia o que ele pensava da política portuguesa e que tinha uma ideia aproximada do que ele se propunha fazer. Erro meu. Hoje, trinta anos depois do desastre que o matou, apareceram dúzias de íntimos, que nunca vi na altura perto dele e filósofos que explicam numa prosa arrevesada e solene o verdadeiro pensamento do homem. Compreendo que a ocasião é boa para ganhar uns cêntimos ou para ajudar carreiras tremelicantes. Mas não consigo deixar de me espantar com revelações que não revelam nada e com a transposição anacrónica para a cabeça de Sá Carneiro de coisas que manifestamente não o preocuparam ou que nem sequer imaginava. Assim se escreve a história e o jornalismo que se diz de “referência”. No meio dessa mistura de alhos com bugalhos, convém perceber que os fins de Sá Carneiro eram dois. Primeiro, levar a direita (o PPD e o CDS) ao poder e, segundo, acabar com a tutela militar a que Portugal estava submetido. Talvez seja inútil explicar que se o poder ficasse indeterminadamente nas mãos da esquerda que se opusera à ditadura, e só nas dela, não tardaria que se criasse a ideia de que não assistia ao PSD e ao CDS qualquer legitimidade para governar e o regime democrático ficava à partida liquidado. As maiorias de 1979 e de 1980 e a genérica moderação da AD (que se absteve de perseguir fosse quem fosse e respeitou meticulosamente a lei) legitimaram a direita em definitivo. O que simplificou a vida a Diogo Freitas do Amaral, ao PS e a Mário Soares, quando, pouco a pouco, resolveram reduzir os “revolucionários” de 1974 e 1975 ao pequeno papel que, num país civilizado, lhes cabia. Sá Carneiro queria apressar este processo, que, na prática, durou até ao colapso do PRD. O plano (se merece o nome) era eleger Presidente da República um general conservador e provocar, com o apoio dele, um referendo sobre a Constituição. Infelizmente, esta estratégia não passava de uma fantasia. Em 1980, o eleitorado da direita andava pelos 47 por cento e não bastava para submeter a esquerda. Pior ainda, a AD proclamara na campanha para as legislativas que “governara bem”, com Eanes, e ninguém aceitaria, como não aceitou, a súbita necessidade de correr com Eanes para garantir que dali em diante não governaria mal. Sá Carneiro morreu e o candidato da AD, como se previa, perdeu. Muita gente não se consolou deste desastre. Acontece que um desgosto, que do coração partilho, não substitui a evidência histórica.»


Vasco Pulido Valente, Público

IMPACIÊNCIA E PATRIOTISMO MORAL

João Gonçalves 15 Nov 10


No lançamento do livro da foto, de Maria João Avillez, Pedro Lomba - que prodigalizou um texto notável de apresentação - falou de impaciência e desastre, de acaso e de génio. Lomba, como recordou, tinha 3 anos quando Sá Carneiro morreu. A circunstância de não ter "vivido" aquele período talvez tenha contribuido para a inequívoca oportunidade da sua intervenção. O Pedro intuiu e descreveu perfeitamente a coisa. Como membro do "pequeno grupo dos Reformadores", de 79, como lhes chamou a Maria João, acompanhei o "processo AD". Já o escrevi várias vezes. É difícil entender - mas o Pedro entendeu-o adequadamente - que o país ( e os políticos dessa época) era outro olhando à palhaçada que para aí anda. E que aquilo que hoje emerge como banal (a direita alternar com a esquerda no governo apesar da "comunidade" retórica e vácua que as une), parecia impossível passados apenas quatro anos e meio sobre a "revolução". Mas foi isso que aconteceu com a AD de Sá Carneiro, Freitas do Amaral, Ribeiro Telles, Reformadores e dezenas de independentes. Todavia, a vida política de Sá Carneiro jamais foi um cortejo de felicidade ou de previsibilidade. Até 2 de Dezembro de 1979, Sá Carneiro poucas vezes foi levado a sério dentro e fora do seu partido. E daí até ao seu trágico desaparecimento, nada foi fácil. Pressentiu sempre que morreria cedo - pathos e hubris, hubris e pathos, inseparáveis. O que teria sido a vida política portuguesa com ele, dentro ou fora dela, saíndo e entrando, rompendo e conciliando, separando e unindo, é uma incógnita. Que fazem falta a ela a impaciência e o patriotismo moral de Sá Carneiro (P. Lomba), fazem. Imagino a vergonha que sentiria se vivesse agora nisto, no meio de tanto peralvilho desbiografado. Como nós, os que vivemos aqueles anos, temos a estrita obrigação de sentir à medida que se aproxima o desastre.

Nota: Não, não comprei o livro porque tenho a 1ª edição. Quanto ao resto, este post "responde" às observações do João Villalobos acerca do "tempo que passa" e em que ele se sente como peixe na água. Quem me dera.

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