Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

Passos feliz na oposição

João Gonçalves 12 Dez 15

ppc.jpg

 Não tive pachorra para ler a longuíssima entrevista de Passos ao jornal Público. Vi os títulos online. E retive algumas coisas. O presidente do PSD continua naturalmente candidato ao cargo para que foi escolhido a 4 de Outubro: o de primeiro-ministro. A partir de Abril, após congresso, estará relegitimado para o efeito. Esperará por eleições e, apesar de tudo, espera por estabilidade. Ver-se-á se as eleições e a estabilidade também esperam por ele. O PSD não dispõe evidentemente de melhor, ou de diferente, neste transe imprevisto. E Passos, pareceu-me, falou sobretudo para diante como lhe competia. Politizou, e bem, o orçamento para 2016, o tal que será apresentado, atrasado, "o mais cedo possível" e que Marcelo também considera "fundamental". Estava feliz.

Os companheiros de Ulisses

João Gonçalves 19 Jul 15

 

 Viúvas políticas, novas e velhas, têm passado o domingo a louvar-se em Sá Carneiro a pretexto do dia do seu aniversário. Que pensaria o fundador da direita democrática se os lesse e ouvisse, alguns deles, como escreveu Vasco Pulido Valente, «criaturas que ele execrava ou desprezava do fundo do coração»? É que a direita democrática que ele fundou em 1979, sublimando-a através da Aliança Democrática (não houve outra, aliás), não tem nada a ver com o que hoje, por aí, passa por tal. Já em 1974, por ocasião da fundação do PPD, «era um líder nato que avançava. Sempre, no entanto, com aquele desprendimento que, mais tarde, o levaria a estar e a romper logo que a consciência o ditasse.» (Marcelo Rebelo de Sousa, A Revolução e o Nascimento do PPD, 2000). Na realidade, «conservador Sá Carneiro não era. Era um revolucionário incapaz de complacência, impaciente com os males do mundo e sem medo da acção. Em Novembro de 1980, quando o governo se ocupava a discutir o orçamento numa atmosfera de puro delírio e os ministros fingiam não se aperceber que o tecto ia cair, ele pensava já em novas aventuras. Não houve novas aventuras. Como se sabe, os companheiros de Ulisses acabaram transformados em porcos.» (VPV, Retratos e Auto-Retratos, 1992)

Mota Pinto

João Gonçalves 7 Mai 15

Passei ontem pela Aula Magna onde o PSD encerrou as comemorações dos 40 anos da fundação do partido. Pertenci ao PSD entre Maio de 1983 e Julho de 2004. Se lá tivesse permanecido, teria levado para casa um "diploma" que distribuíram aos militantes com mais de 25 anos de "casa". O PSD, em Maio de 1983, tinha à sua frente Carlos Alberto da Mota Pinto. Fora meu professor na Católica, em Lisboa, e marcou gerações de alunos na sua Faculdade de Direito de sempre, a de Coimbra. Fundador do então PPD, Mota Pinto foi um grande parlamentar constituinte - foi ele quem baptizou" o parlamento de "Assembleia da República" - e, na sua enorme generosidade, um insubmisso. Partido de tensão e de personalidades fortes, o PPD/PSD "deixou-o" fugir num daqueles momentos de instabilidade crónica genética que só estabilizou (para logo a seguir, pelas razões mais trágicas, regressar) com a formação da AD em 1979 e a sublimação institucional de Sá Carneiro através do cargo de primeiro-ministro. Mota Pinto aceitou, com Nascimento Rodrigues e Nuno Brederode dos Santos, responder ao interregno Balsemão de 1981-1982 e, mais tarde, negociou a formação do "bloco central" com Mário Soares. Foi de uma lealdade irrepreensível ao que assinou o que lhe valeu a constante picardia dos então "jovens turcos" do partido (e seus futuros presidentes entre o século passado e este, e todos putativos candidatos presidencias em 2016) já então empenhados em promover a ascensão de Cavaco Silva. Saiu do governo e da direcção do partido para morrer inesperadamente pouco tempo depois faz hoje 30 anos. O "meu" PSD é o de homens como Mota Pinto. Passos Coelho pode ter em livro duas ou três biografias mas faltar-lhe-à sempre "uma" biografia. É claro que entre ele e Costa, atordoado e impreparado, não hesito porque há muito que deixei os estados de alma à porta da escola onde voto. Todavia isso são contas de outro rosário. Por agora quero apenas traçar a memória de Carlos Alberto da Mota Pinto, um patriota sério e um homem de cultura, de quem este regime patrioteiro e videirinho com ligeireza se esqueceu.

A eminência eterna

João Gonçalves 1 Mai 15

Leio que o dr. Mota Amaral está "disponível" - é assim desde o antigo regime quando entrou, novinho, para a então Assembleia Nacional - para encabeçar a lista do PSD nos Açores. Consta que o novo senhor do partido no Atlântico, Duarte Freitas, pretende renovar a coisa e remover gentilmente o dr. Amaral dessa primazia. Concordo com o sr. Freitas. O dr. Mota Amaral tem-se em grande conta e, depois de se ter "desinstalado" tranquilamente do Estado Novo (era o único deputado da chamada "ala liberal" em funções no 25 de Abril: os outros ou já se tinham demitido ou nem sequer se recandidataram em 1973 por manifesta inutilidade do exercício), instalou-se confortavelmente no actual regime para, julgava ele, nunca mais sair. Retirar-se a tempo em certas circunstâncias da vida, pública ou privada, é uma razoável saabedoria que a poucos assiste. O dr. Amaral, que não é parvo, devia ser o primeiro a compreender isto. Agora alguém vai ter de lhe explicar.

Travar o recúo social-democrata

João Gonçalves 18 Dez 14

 

Fora do PSD desde 2004, não deixo de tentar perceber o que lá vai dentro. Um dia destes foi lançada uma biografia do dr. Rui Rio e, no contexto, disseram-se uma série de dislates em torno da "dimensão" do homem. Eu próprio, algures, achei que Rio podia servir. Um pequeno grupo de "notáveis" também achou, em 2009, mas o homem fugiu da possibilidade de ascender à Lapa em menos de 24 horas. Aos poucos realizei que Rio, fora dos sucessos eleitorais camarários de 2001 e seguintes, é a personificação do lugar-comum da "esperança" sendo que a "esperança", em política partidária, é tão lugar-comum como o "estratégico" que António Costa deu em usar para tudo e o seu nada. A principal diferença entre Costa e Rio é que Costa já é líder do PS e Rio dificilmente ultrapassará o patamar "esperançoso" em que se colocou apesar dos andores circunstancialmente erguidos para o pôr em cima seja do que for - partido, São Bento, Belém. Quando passar a tormenta dos próximos meses políticos, ninguém no seu perfeito juízo "social-democrata" (ou, se preferirem, do programa não escrito do PSD) pretenderá continuar a ouvir os sermões moralistas do dr. Passos Coelho. O país e o partido agradecer-lhe-ão os serviços prestados, sobretudo na supra-execução do PAEF, e Passos rumará com naturalidade para a sua nova vida de "senador" (a fila é longa mas cabe sempre mais um). Em rigor o "passismo" não tem herdeiros porque no PSD como, presumo, no PS, os "istas" do derradeiro líder tendem a ser os primeiros "istas" do próximo. É da vida, sobretudo da deles. Por o conhecer desde 1978, quando entrámos para o curso de direito na Católica, e por lhe reconhecer o que mais prezo em política, a independência de espírito crítico - e independentemente de ninharias em que ele às vezes se perde por pessoas que não merecem ou não valem o esforço -, veria com bons olhos uma candidatura do Nuno Morais Sarmento a presidente do PSD. Se ela aparecer, e valendo isto o que vale (e que é muito pouco), conta comigo.

Método na loucura

João Gonçalves 17 Dez 14

 O primeiro e mais sério sinal foi dado por Maria Luís. O dr. Passos aparentemente hesita entre apresentar-se ao lado do dr. Portas em 2015 (e vice-versa) ou sozinho. No lastro evangelista que o tomou acha que, sozinho, vence o dr. Costa. Quando muito poderá precisar do dr. Portas para a "maioria absoluta".  Não parece mas, citando Shakespeare, existe método na loucura do dr. Passos. Se a coligação já não funciona a não ser para o cabecear no parlamento quando é transmitida ordem em conformidade e distribuir os lugares que faltam, como é que há-de funcionar para o futuro, sem réstia de um desígnio, uma vez que tudo se exauriu com o fim do PAEF e a ambição desavergonhada de Portas? O dr. Passos pode até dar um "excelente" líder da oposição a partir do PSD. O problema é saber se a oposição, nessa altura, estará disponível para o manter.

 

Foto: Stock Illustration

A palavra de Maria Luís

João Gonçalves 15 Dez 14

 

O jornal imaterial Observador, manifestamente pró-governo, fez-lhe uma maldade. Ou melhor, perpetrou-a na pessoa de Maria Luís Albuquerque - a "número dois" de Passos Coelho e a "número três" na hierarquia do dito governo - ao intitular uma entrevista com ela da seguinte forma: «Passos Coelho seria um excelente líder da oposição.» Na realidade, Maria Luís afirmou que «seria sempre um excelente líder – com um contributo relevante para o país – quer à frente do Governo, quer à frente, eventualmente, da oposição.» Mas o que "fica" é a "ideia", nada subliminar, que a coligação governativa não sobrevive a esta legislatura. E que poderá nem se apresentar como tal ao sufrágio do próximo ano. A palavra a Maria Luís: «as conversações não pré-determinam nenhum resultado, e não digo que um terá que ser melhor do que o outro». O PSD "profundo" tem razão. Maria Luís dará uma excelente cabeça de lista em qualquer lugar. E, quem sabe, uma líder parlamentar bem mais interessante que Passos se este não seguir o seu "desejo".

A síndrome passista do bivalve

João Gonçalves 6 Dez 14

 

Sem se rir, o dr. Portas anunciou que o "centro" está deserto e que, para além de "restaurador" de serviço (falso, porque só em 2016 se volta a falar nos feriados), o  tenciona recuperar. Não me consta que, salvo na fase em devia ter sido operado às amígdalas e não foi, Portas seja social-democrata. Sei que, à semelhança de muitos outros, as ocasiões fazem-no e não a inversa. Todavia não deixa de ter uma ponta de razão. A "loquacidade" improvisada do seu primeiro-ministro, em road show eleitoral permanente, ajuda bastante a afugentar o referido centro. O austeritarismo persistente do quarteto Gaspar, Maria Luís, Portas e Passos (por ordem  de importância política) arrasou a classse média e os remediados que apreciam votar ao "centro". Os "donos disto tudo", que Passos bimbamente supõe ter suprimido, foram substituídos por outros sendo que alguns deles ficaram dos anteriores. Apenas falam outras línguas ou são obrigados a conhecê-las. Portas tem, aliás, nesta matéria sido um excelente front desk. "Sexy", até, para usar o vocabulário do "soldado disciplinado" da Horta Seca que possui o condão de pôr Passos a suspirar intermitentemente por Santos Pereira. O eleitorado silencioso que dita as vitórias não se revê nisto como qualquer criança com a literacia de um 8º ano lhes poderá explicar. Estamos, de facto, já muito abaixo do mexilhão.

 

Sou um bocadinho mais velho que Passos Coelho. Estive o tempo suficiente no PSD para me lembrar dele. Quando entrei, aos 22 anos, ainda estava em boa idade de me filiar na JSD. Mas já nessa altura não simpatizava particularmente com a ideia e nunca por lá passei. Com o tempo, comecei a defender a pura e simples extinção das juventudes partidárias. Os partidos chegam perfeitamente para forjar uma "carreira", a partir dos 14 ou 15 anos de idade física, como se pode constatar pelo que anda por aí. Passos presidiu à JSD. Estava lá em pleno "cavaquismo". Era deputado, Couto dos Santos e, depois, Ferreira Leite eram os ministros da Educação. Duarte Lima presidia ao grupo parlamentar quando foi votada a lei que previa um aumento de propinas. Foi imposta a disciplina de voto. Da dezena e tal de deputados da "quota" JSD, apenas Passos votou contra. Não lhe aconteceu nada, ninguém o "perseguiu". Mais. Reeleito presidente da JSD, "ameaçou" votar contra  o OE do ano seguinte se previsse mais aumentos de propinas. Ou seja, já nesse tempo Passos Coelho se revelava um intransigente "moralista". Ali ao serviço da corporação que representava - e que andava pelas ruas ao lado daqueles que apreciavam mostrar o rabiosque diante de São Bento -, agora ao serviço, por exemplo, do tratado orçamental, do austeritarismo cego e do "empreendedorismo" onde não cabem as pessoas "normais". Já crescidinho, a sua longa mão "moralista" exibiu-se agora em todo o seu complexo esplendor mas em sentido oposto ao da "juventude": mandou punir os deputados eleitos pela Madeira que votaram contra o OE para 2015. Pressurosa e lacaia, a direcção do grupo parlamentar "retirou-lhes" a "confiança política". O sr. Velosa, a tremelicar de respeitinho, pôs  logo o seu lugar de presidente de uma comissão qualquer "à disposição". Todavia Montenegro, o porta-voz deste "moralismo" reciclado, exigiu a demissão do vice-presidente do Parlamento Guilherme Silva como se não soubesse que os vice-presidentes são eleitos pelos seus pares e não pelos "moralistas" dos partidos que os indicam. A meses de eleições, o PSD dá mostras de querer "comprar" uma guerra estúpida com um Parlamento que respeita, independentemente das proveniências partidárias, Guilherme Silva. Passos, afinal, mesmo quando era "jovem" já era um velho "moralista" da "linha" dos que, mais do que não esquecerem, não aprendem nada. Bom proveito.

Coisas por explicar

João Gonçalves 26 Nov 14

 

Como escreve um leitor, «a questão da aquisição dos direitos dos jogos da liga dos campeões (pela RTP) ainda está por explicar. Talvez seja só "manha", mas brincar com dinheiro publico desta forma não é bonito. Continuemos à espera de alguma justificação válida para esta despesa.» Talvez o primeiro-ministro possa dar a sua "visão" acerca da matéria na entrevista que amanhã concede à televisão pública. Por outro lado, foi aprovado pelo parlamento o OE para 2015 com, entre outros, quatro votos contrários dos deputados do PSD eleitos pela Madeira. Montenegro murmurou "consequências" e Marco António Costa, o actual alter ego do dr. Passos para o partido, anunciou  solenemente, com uma gravitas mais adequada a um "comité central" do que a uma "comissão permanente" de um partido social-democrata, que ia "participar" a coisa ao conselho jurisdicional respectivo para que os refractários possam ser processados internamente e, ainda com Montenegro a pairar, "consequentemente" punidos. Também seria interessante perguntar ao dr. Passos para que é que servem deputados eleitos pelas Regiões Autónomas e quem é que eles representam - se os seus eleitores nessas Regiões ou os preclaros Marco e Montenegro, por exemplo. Coisas por explicar.

Pesquisar

Pesquisar no Blog

Últimos comentários

  • André

    Gosto muito da sua posição. Também gosto de ami...

  • Maria

    Não. O Prof. Marcelo tem percorrido este tempo co...

  • Fernando Ferreira

    Caríssimo João, no meio da abundante desregulação ...

  • António Maria

    Completamente de acordo.Ontem tive vergonha de ser...

  • Fernando Ferreira

    Caríssimo João, «plus ça change, plus c'est la mêm...

Os livros

Sobre o autor

foto do autor