Sábado, 12.01.13

Para princípio de conversa

O prolegómeno ao "debate" sobre a reforma do Estado não foi o mais feliz. Sobretudo quando o programa do Governo descreve um enunciado reformista para a legislatura - no contexto do programa de assistência externa em vigor mas não refém dele - que vale por si. Em áreas como a saúde, o apoio social, a administração local, a justiça, a economia ou a concertação social esse programa tem sido prosseguido embora o "modo lérias e larachas" de tudo encarar nem sempre permita que isso se evidencie. Um membro do Governo procura explicar em linguagem chã o que está a fazer - no parlamento, num meio de comunicação social ou no "terreno", com as pessoas singulares ou colectivas a quem, em última análise, as reformas se destinam - e logo uma pequena intriga, um pequeno "recado" ou uma pequena inveja se sobrepõe ao que interessa. Como escreve o Francisco José Viegas, este "debate" (qual debate, sem aspas?) «deve fazer-se com abertura e espírito de tolerância, em liberdade, mas sobretudo convocando para ele — além dos partidos políticos — as pessoas mais qualificadas. Há anos que muita gente tem contribuído para esse debate, à esquerda e à direita. Não faz sentido entregá-lo a comentadores que vivem do curto prazo e têm o seu mercado dependente do grau de inanidades apreciadas pelas audiências (é um mercado) — nem reduzi-lo a especialistas em finanças, a «senadores» cujo único «mérito» é o ressentimento, ou a universitários e «politólogos» que fazem da universidade um megafone para fazerem política sem entrarem na política («ah, nós não sujamos as mãos»). Faz sentido que seja feito com os cidadãos. E, já agora, com mais empresários do que gestores de empresas. Com mais gente que faça pela vida; porque não se trata de um debate sobre como salvar este Estado mas, pelo contrário, sobre como mudá-lo porque a sua existência é insustentável.» Nada, pois, de comissões parlamentares em petit comité, nada de "sábios" em circuitos místicos fechados, nada de "chapas" aplicadas indistintamente a sangue frio. O programa do Governo, escrito no final de Junho de 2011, é, por si, um excelente princípio para esta conversa. E que não precisava nada do ruído desagradável dos últimos dias e dos que se vão seguir. 

João Gonçalves | link do post | comentar
Terça-feira, 01.01.13

A ideia da "excepcionalidade"

É uma ideia que tem tanto de demagógica quanto de estúpida. A nossa história baseou-se amiúde nessa falácia. O desembarque de Ceuta, em 1415, foi uma formidável manifestação da "técnica" lusa? Foi, mas bastou pouco mais de um século para a "excepção" se desfazer num deserto luminoso do norte de África. No princípio do século passado, os crédulos do Corpo Expedicionário Português lá foram pastar a "excepção" que eles imaginavam representar para a Europa. Não sabiam inglês e escuso de lembrar como aquilo acabou. Salazar alimentou anos a fio uma ideia de excepcionalidade provincial do país, espalhada por vários continentes, apesar do desprezo a que sempre votou os colonos "continentais" que via como meros oportunistas sem o menor sentido de nação (como ele devia rir para dentro aos acordes da "nação valente e imortal"). Este regime também se concebeu excepcional a partir do momento em que se fundou numa revolução sem sangue e com cravos. Não deu "filhos" excepcionais, como qualquer observador superficial das últimas décadas pode constatar sem grande esforço. Mas alguns, coitados, acham-se e andam para aí feitos almas penadas da coisa. Não, não há qualquer "excepcionalidade" portuguesa apesar do esforço primordial da espada do conde D. Henrique cuja utilidade, aliás, ainda está por provar. 2013, esta coisa que começa hoje, provará uma vez mais - como se fosse necessário - que a "excepcionalidade" lusa não existe. É uma fantasmagoria como outra qualquer, sempre pronta a deixar o armário naqueles dias "solenes" em que a regra se confunde com a excepção e a excepção com a regra. Bom dia e boa sorte.

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Domingo, 02.12.12

Os avoengos de 1979

 

Acompanho o Pedro Santana Lopes nesta evocação da vitória da Aliança Democrática - the one and only - de 2 de Dezembro de 1979. A AD juntava o PSD, o CDS, o PPM, os Reformadores e outros independentes nas eleições legislativas intercalares convocadas por Eanes na sequência do fracasso dos governos ditos de iniciativa presidencial. Em apenas cinco anos, a Direita "legalizava-se" perante a revolução e com maioria absoluta. Durou praticamente o tempo de vida que restava a Sá Carneiro. Acompanhei o momento no Hotel Altis. Valia a pena o empenho político (aos dezanove anos tudo vale a pena)  porque os envolvidos eram de valia. Entrei nisso tudo pela mão do Medeiros Ferreira que é um dos espíritos mais livres da vida pública nacional. Quem nasceu "nisto", dentro destes inverosímeis trinta e dois anos de regime, dificilmente poderá perceber o simbolismo daquela tão já longínqua noite. Sá Carneiro venceu por ruptura. Em 1979 isso parecia uma missão impossível, isto é, a Direita alternar no governo com a Esquerda quando o poder ainda era amplamente dominado pela tropa. A vida política de Sá Carneiro nunca foi um cortejo de felicidade ou de previsibilidade. Até 2 de Dezembro de 1979, poucas vezes foi levado a sério dentro e fora do seu partido. E daí até ao seu trágico desaparecimento, nada foi fácil. Pressentiu sempre que morreria cedo - pathos e hubris, hubris e pathos, inseparáveis. O que teria sido a vida política portuguesa com ele, dentro ou fora dela, saíndo e entrando, separando e unindo, permanecerá para sempre uma incógnita. O ano que aí vem será seguramente um dos mais tremendos do regime e decerto não haverá lugar para quaisquer voluntarismos amadores e estéreis. Oxalá a Direita de hoje saiba, então, estar à altura dos ilustres avoengos de 1979.

Quinta-feira, 29.11.12

O segundo volume

 

Num café, esse refúgio dos solitários a que alude George Steiner, escrevo. Não vá dar-se o caso de os zelotas e os lacaios das "redes sociais" tomarem "devida nota", gozo um dia legal de férias. Aproveito-o para tratar de intendências pessoais uma delas a ver com a minha primeira editora, a Bertrand. O livro Portugal dos Pequeninos, uma "ideia" da Maria Teresa Loureiro, lá publicado, abrange o período de 2005 a 2009, princípio de 2009. Assim, está a ser preparado o segundo volume do Portugal dos Pequeninos que começa no segundo semestre de 2009 e terminará em 2012. O período comprendido entre o segundo semestre de 2011 e o ano ainda em curso, para além de recolher alguns dos posts editados neste blogue, conterá material inédito que, espero, contribua para "contar" parte de alguma "história" recente. No fundo, e em homenagem a Eduardo Prado Coelho e a Wittgenstein, tudo o que não escrevi. Sai em Junho de 2013.

Domingo, 15.07.12

“Fiquei viva, sabe-se lá porquê”

Há muito tempo que não lia um trabalho num jornal tão bom como este, de Paulo Moura, sobre um Portugal que não passa nas televisões onde, em geral, só passam patetas e plumitivos embotados do "meio" amiguinho. Talvez não tenhamos avançado muito mais no país que Paulo Moura tão brilhantemente descreve. Se calhar também não merecemos melhor.

Sábado, 16.06.12

Um desconsolo

Estava a folhear a revista do Expresso dedicada aos anos oitenta e princípio dos anos noventa. O país vagueava então entre Soares e Cavaco, entre Cavaco e Soares. Eanes despediu-se no primeiro trimestre de 1986. Cavaco teve duas maiorias absolutas, a segunda maior que a primeira. Soares foi eleito à tangente da primeira vez e como monarca praticamente absoluto da segunda, com uma votação albanesa. As campanhas destes dois homens foram as últimas com graça: Soares em 85 e 86, Cavaco em 87 e 91. O país mudou, com um atraso de décadas, graças a Cavaco e à Europa. Julgo que o actual Presidente não esperava, muitos anos depois, ver a "sua" Europa neste estado e o país obrigado a cumprir um programa de ajustamento macroeconómico vindo justamente da Europa e do FMI. Um desconsolo, a dias do Verão.

Sábado, 02.06.12

As árvores e a floresta

«A origem da presente crise do Ocidente emerge da sua desindustrialização e da dependência energética, com custos crescentes. Foi isso que afundou as economias e foi esse afundamento que motivou os endividamentos já referidos, destinados a evitar uma quebra acentuada do padrão de vida ocidental. Entre nós, sentem-se também os efeitos da incompetência e da irresponsabilidade governativa vigente nos últimos anos. A fragilidade económica ocidental gerou os endividamentos e foram estes que originaram o subprime americano, tanto quanto a chamada crise das dívidas soberanas na Europa. A crise da zona euro surge na sequência desses factos. Sem se enfrentar esta realidade mais ampla, os esforços em curso na Europa do euro, mesmo que bem sucedidos, não evitarão a progressiva decadência do Ocidente. Neste emaranhado de circunstâncias, de que ainda não se fala em Portugal, as árvores são a austeridade, a falta de crescimento e o desemprego. Estão na orla da floresta e por isso são visíveis por todos. Mas a reviravolta do mundo, que é tudo o resto que a liberalização económica provocou, ultrapassa a Europa e o euro, e constitui a verdadeira floresta em que avançamos, desorientados. (...) Já mencionei há pouco as causas situadas fora da Europa. Pela sua importância decisiva, volto a sublinhar que são, primeiro, a instalação das indústrias transformadoras nos países de mão-de--obra muito barata, em geral no Oriente; segundo, os custos crescentes do petróleo. Por isso ficaram connosco: o desemprego industrial, que não diminui; os empregos mal pagos nos serviços pouco qualificados; a obrigatoriedade de importar o que antes produzíamos e agora já não produzimos, provocando desequilíbrios, que não existiam, nas nossas balanças comerciais; a cada vez mais pesada factura do petróleo. São estas as causas essenciais do afundamento das nossas economias. Iludimos esta realidade com os “endividamentos” destinados a manter um nível de bem-estar que já não estava, nem está, ao alcance do que produzimos. As sociedades desta parte do mundo estão a ser enganadas, todos os dias, por um número excessivo de irresponsáveis. Se põem dinheiro a circular sem se instalar uma rigorosa disciplina financeira na Europa, num prazo muito curto corre-se o risco de voltarmos ao ponto de partida.»


Medina Carreira, i

 

Foto:Expresso

Sexta-feira, 25.05.12

A realidade de um título

Comecei  há dois dias a ler o livro de Miguel Sousa Tavares editado pelo Clube do Autor. Alguns daqueles textos, previamente publicados no Expresso em português correcto - o que duplica o prazer de os reler em livro - eram meus conhecidos. Tudo junto, é um livro que "conta" a história do país, nos últimos seis anos, vista pelo autor. Nem sempre será forçoso concordar com ele mas o "retrato" geral é impressionante. Parece que, famosamente, o abismo atrai o abismo e o Portugal mais recente aí está para o demonstrar. Sousa Tavares romancista interessa-me relativamente pouco. Este interessa-me mais porque, na concordância ou no dissenso, me ajuda a pensar. E porque tem subjacente uma atitude intelectual indeclinável: «nada há de mais difícil e mais exigente do que ser-se livre» É verdade que «Portugal não acaba assim nem agora.» Sobretudo, como reza o título feliz, a história não acaba assim.

Quarta-feira, 11.04.12

Uma figura

O meu amigo Júlio de Magalhães recorda aqui o nascimento de António de Spínola. Em 1980, precisamente por ocasião dos 70 anos do então General e dos seis do "25 de Abril", os Reformadores (na altura integravam a bancada da Aliança Democrática no Parlamento) propuseram ao Presidente Eanes que Spínola - o primeiro Chefe do Estado da democracia - fosse promovido a Marechal. Medeiros Ferreira combinou comigo, ao telefone (fixo), a redacção do comunicado dos Reformadores com a dita proposta. Ele ia sair do país e acabei por manuscrever sozinho o dito comunicado que seguiu o seu caminho. Spínola é um grande nome da arma de Cavalaria ao lado de D. Carlos ou Carmona como o atesta o nobre edifício do Regimento de Lanceiros na Ajuda. Nenhum país subsiste sem símbolos. A rapidez com que agora tudo e todos passam, na maior das vulgaridades, não chega para reter grandes nomes quanto mais grandes símbolos. Com toda a carga de virtudes e defeitos que António de Spínola tinha, era, sem dúvida, uma figura. Não há mais disto.

Terça-feira, 14.02.12

Lá como cá

«Los portugueses saben que este Gobierno ha tenido que tomar estas medidas porque otros en el pasado no fueron lo suficientemente responsables para asumir sus responsabilidades. Engañaron y desilusionaron. A lo largo de los dos últimos años en España y Portugal tuvimos dos gobiernos que únicamente se preocuparon de la comunicación de la ilusión. Vendían a la sociedad una realidad que no existía, y sabían que ese camino era el equivocado. »

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