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portugal dos pequeninos

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Pavanas para um poeta morto

João Gonçalves 30 Mar 15

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Não tenho presente a designação da nova revista do hebdomadário Expresso. Talvez seja "E" grande, não sei, e não me apetece ir confirmar. As duas derradeiras edições tornaram-na mais conspícua por capas substantivae formalmente antagónicas. Há duas semanas dedicaram-na a Cristina Ferreira, uma moça da televisão que "abafou" a concorrência em proporções verdadeiramente bíblicas. Julgo, até, que terá uma "marca" com o seu nome e uma revista, outra, cuja primeira página partilhou com o prolixo prof. Marcelo na dupla qualidade de "colega" (de televisão) e de proto-candidato presidencial (dessa televisão, das bases do PSD e do dr. Portas com quem se reconciliou). No número de sábado a fotografia de capa era de Alfredo Cunha e o fotografado era Herberto Helder. Lá dentro havia mais fotografias e, sobretudo, cinco textos a pretexto da morte do autor de Os passos em volta. Digo a pretexto e não exactamente sobre Herberto Helder porque, de uma maneira geral, os articulistas escreveram mais sobre as suas "experiências", reais ou imaginárias, com o poeta do que propriamente dele ou daquilo que ele representou na chamada literatura portuguesa contemporânea. Não tem mal. É comum falarmos de nós quando falamos de outros  e vice-versa. Mesmo a título mais informativo como sucede com o texto de Ana Cristina Leonardo. Ou mais "prosódico" como nos "confrades" de Helder, Tolentino de Mendonça e Pedro Mexia. Clara Ferreira Alves faz naturalmente de Madame de Mertreuil como costuma fazer com tudo o que escreve e diz: "je suis mon ouvrage". Também não tem mal. Fui reler o que o Joaquim Manuel Magalhães tinha dito, em momentos precisos, do que, naquele momento em que o afirmou, era alguma da obra de Herberto. E são ainda hoje esses textos que olham para aquele edifício entretanto sujeito a tantas implosões com menos complacência ou condescendência entre tanta admiração fundamentada. Até nos registos mais aparentemente jubilatórios J. M. Magalhães "liberta" a poesia de Helder da tentação de proeminência que algum lastro epigonal mal amanhado quis à força reter daquele fulgurante uso das palavras. Entretanto em Helder sucederam-se as contingências editoriais que culminaram, nas derradeiras, em "aparições" de rapidíssimos desaparecimentos e em uma "obra completa" ou "toda" que aparentemente não mais cessará de o ser. Talvez por isso mesmo seja difícil, quando não impossível, "fixar" sem ser com a imprecisão musical de uma pavana o que persiste, ou não, em Helder e na sua arte. Que é dela que se trata, não se duvida. Como se trata dela, há-de duvidar-se para sempre.

 

Uns procuram ramas de ouro.
Outros, filões de púrpura unindo
sono a sono. Há quem estenda os dedos para tocar
as queimaduras no escuro. Há quem seja
terrestre.

O'Neill

João Gonçalves 20 Dez 14

 

Se fosse vivo, Alexandre O'Neill teria completado ontem noventa anos. O trabalho das palavras na nossa língua, livre de abortos ortográficos ilegais, era a "missão" de O 'Neill - o poeta, o cronista, o publicitário. Alguma da grande poesia do século XX pertence-lhe tal como lhe "pertenceremos" sempre enquanto "dor mansa e vegetal" de que apenas a morte porventura o "libertou".

«Não gostava nada que me caíssem em cima, nem que dissessem nada sobre mim. Epitáfio… eu até tinha um:

Aqui jaz Alexandre O’Neill

Um Homem que dormiu

muito pouco

Bem merecia isto»

A.D.N

João Gonçalves 23 Ago 14

 

 

 

 

I
Afinal sou assim, infeliz e volúvel,
Porque minha alma guarda uma ordem diversa
De pulsões celulares ao longo do seu eixo:
Decifre-me quem saiba, — que, dispersa,
Com nome de A. D. N. aqui na cruz a deixo.

II
Nervo a pavor, fonte renal de rijo,
Cor dos meus olhos, estatura, gosto,
Quanto me importo, ó Deus, quanto me aflijo,
Tudo A. D. N. inscreve no meu rosto.

Cão não como nós

João Gonçalves 10 Ago 14

Eu gostava de ter um alto destino de poeta,
Daqueles cuja tristeza agrava os adolescentes
E as raparigas que os lêem quando eles já são tão leves
que passam a tarde numa estrela,
A força do calor na bica de uma fonte
E a noite no mar ou no risco dos pirilampos.

Assim, gloriosos mas sem porta a que se bata;
Abstractos mas vivos;
Rarefeitos mas com o hálito nebuloso nas narinas dos animais,
Insinuado nos lenços das mulheres belas, cheios de lágrimas,
Misturado às ervas grossas da chuva
E indispensável aos heróis que vão rasgar no céu, enfim, o último sulco!

Ser a vida e não ter já vida ‑ era um destino.

Depois, dar a minha Mãe a glória de me ter tido;
A meu Pai, vendado de terra, um halo da minha luz; e tocar tudo,
Onde eu houvesse estado, de uma sagração natural; ‑
Não digo como as Virgens Aparecidas,
Que tornam imbecis e radiosos os pastorinhos,
Mas como certo orvalho de que me lembro, em pequeno – Para lá da janela a luz cortada por chuva,
E uma prima que amei, a rir, molhada, chegando;
Mar ao fundo.

Tudo isto, e vontade de dormir, também em pequenino,
E logo uma mão de mulher pronta a fingir de asa aberta,
E preguiça,
Impressão de morrer do primeiro desgosto de amor
E de ir, vogando, num negrume que afinal é toda a luz que nos fica
Desse amor forrado de desgosto,
Como as estrelas encobertas,
Que, depois de girar a nuvem, mostram como estão altas:

Tudo isto seria aquele poeta que não sou,
Feito graça e memória,
Separado de mim e do meu bafo individualmente podre,
Livre das minhas pretensões e desta noite carcomida
Pelo meu ser voraz que se explora e ilumina.

Mas não. Do canto necessário
Para me diluir em som e no ar que o guardasse
(Como o nervo do degolado alonga em tremor seu pasmo)
Não chego a soltar senão uma vaga nota,
E a noite faz muito bem em vergar uma gruta sem ecos
No  meu buraco vil de bicho harmonioso.

Deixarei, estampada pelo silêncio definitivo,
A ramagem fremente dos meus dedos num pouco de terra
Estranho fóssil!
Vitorino Nemésio, O Bicho Harmonioso

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Sophia de Mello Breyner é, talvez, ao lado de Vitorino Nemésio (tão parcamente evocado como tal) e de Jorge de Sena um dos poetas fortes do século XX literário português. Se os outros dois fossem, um dia, transladados para o Panteão, acompanhavam-se perfeitamente uns aos outros. Se lá repousa o Junqueiro, essa meia-tijela intelectual nas palavras ácidas de Sena, por que é que aqueles não podem entrar em Santa Engrácia? Entre nós, estas "entradas" no Panteão, apesar de toda a devoção regimental, correm sempre o risco da sua própria caricatura contrariamente ao que que sucede em países como a França, mais dados a prestar à cultura e à história uma atenção que por aqui é quase sempre fruto do descaso. Da poesia de Sophia "falaram" bem alguns seus "confrades" e ensaístas como Óscar Lopes, Joaquim Manuel Magalhães, Eduardo Prado Coelho e, mais recentemente numa peça notável no Expresso, Pedro Mexia. Mas porventura por andar com ele na mão, é a Vasco Graça Moura (Discursos vários poéticos) que peço emprestadas as palavras do título e as seguintes. Porque há nos versos de Sophia um sentido de austeridade, de rigor e de autenticidade, que Graça Moura evoca e resume, um sentido de quem escreve «o poema como o boi lavra o campo/Sem que tropece no metro o pensamento/Sem que nada seja reduzido ou exilado/Sem que nada separe o homem do vivido».

 

«Ela surge, assim, outra vez, na sua nobre voz e no seu vulto frágil, num momento em que a cidade dos homens perdeu o norte e se tornou um pântano em que se respira tanto lixo, tanta porcaria e tanta abjecção. Nunca o que tinha a dizer-nos foi tão imperativamente necessário como agora. Nunca, como agora, precisámos tanto do banho lustral e purificador dos sons da sua lira de oiro e cristal, e dos fustes, dos frisos, das colunas, da justa proporção e da medida, do sonho e da água, do ar cor de safira e da luz que cintilam na sua palavra, atravessando-a e atravessando-nos para nos despoluírem a alma e para nos refundarem em dignidade.»

VGM

João Gonçalves 7 Mai 14



«Como poeta Vasco Graça Moura nunca teve o reconhecimento que merecia. Por um lado porque nunca se encaixou em nenhum grupo e, sobretudo, não estava alinhado com o 'mainstream' literário português. Há mesmo muita gente que diz que nunca lerá Vasco Graça Moura devido às posições políticas que ele tomou ao longo da vida. Mas ele tinha muita consciência disso e, de certa forma, também cultivava uma espécie de solidão poética que se afirmava pela ironia, o sarcasmo, o diálogo com as tradições ocidentais (...) Acredito que agora e com o inevitável apagamento da sua voz política, a sua voz poética possa ressurgir na sua verdadeira dimensão.»


 

 

 

Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente â secular justiça,
para que os liquidasse «com suma piedade e sem efusão de sangue.»
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de urna classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadela de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de té-la.
É isto o que mais importa - essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém
está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
- mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga -
não hão-de ser em vão. Confesso que
multas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam «amanhã».
E. por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.

Grandeza

João Gonçalves 25 Fev 14

 

«Pourquoi m'interrogez-vous "à present" sur Paul Éluard? Sa vraie mobilité, sa course glorieuse, durant laquelle, rare et merveilleux poète, il va enfin pouvoir distancer par le seul verbe ses bons frères de partout, vient de commencer depuis ce matin neuf heures. Nous ne pouvons plus rien pour lui et il pourra encore beaucoup pour nous. Mais il ne peut plus rien contre les dieux libres de son berceau revenus et le visage en flamme de son amour. Durant des dizaines d'années nous nous sommes rencontrés presque chaque jour avec le même impatient entrain. Puis nous avons cessé de nous retrouver. Nous nous adressions dérisoirement des livres, comme d'anciens jumeaux fendus, mais qui s'estiment, savent et communiquent doucement... Misère!»

 

"À la mort d'Éluard", René Char (1952)

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