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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

Jorge de Sena

João Gonçalves 25 Jan 14

 

Dois novos livros com Jorge de Sena dentro: a junção da sua poesia publicada em vida num único volume agora intitulado "Poesia 1", organizado por Jorge Fazenda Lourenço, e a correspondência com Carlo Vittorio Cattaneo numa edição preparada por Mécia de Sena, Joana Meirim e Jorge Fazenda Lourenço, com traduções do Jorge Vaz de Carvalho. Espero ter alento para começar brevemente a escrever uma biografia de Jorge de Sena já que, quanto à "actualidade", estamos mais ou menos como no desabafo do autor de "Evidências" dirigido a Cattaneo, em 1972: "Aquilo, meu filho, é um país de filhos da puta que sempre andaram pelo mundo a fazer filhos em putas (...) E tudo, meu caro, deve ser medido por esta triste verdade, que, como estudioso de Portugal, V. deve ter sempre em mente: aquilo foi sempre um país de filhos da puta, apenas com algumas honrosas excepções, entre as quais me conto. Puta que os pariu, com perdão de algumas senhoras decentes que não tiveram culpa de dar à luz os cabrões que deram. Podre, irrecuperavelmente podre, é que aquilo é."

Perdidos de Deus

João Gonçalves 23 Jan 14

«De António Nobre partem todas as palavras com sentido lusitano que de então para cá têm sido pronunciadas. Têm subido a um sentido mais alto e divino do que ele balbuciou. Mas ele foi o primeiro a pôr em europeu este sentimento português das almas e das coisas, que tem pena de que umas não sejam corpos, para lhes poder fazer festas, e de que outras não sejam gente, para poder falar com elas. O ingénuo panteísmo da Raça, que tem carinhos de espontânea frase para com as árvores e as pedras, desabrochou nele melancolicamente. Ele vem no Outono e pelo crepúsculo. Pobre de quem o compreende e ama! O sublime nele é humilde, o orgulho ingénuo, e há um sabor de infância triste no mais adulto horror do seu tédio e das suas desesperanças. Não o encontramos senão entre o desfolhar das rosas e nos jardins desertos. Os seus braços esqueceram a alegria do gesto, e o seu sorriso é o rumor de uma festa longínqua, em que nada de nós toma parte, salvo a imaginação. Dos seus versos não se tira, felizmente, ensinamento nenhum. Roça rente a muros nocturnos a desgraça das suas emoções. Esconde-se de alheios olhos o próprio esplendor do seu desespero. Às vezes, entre o princípio e o fim de um seu verso, intercala-se um cansaço, um encolher de ombros, uma angústia ao mundo. O exército dos seus sentimentos perdeu as bandeiras numa batalha que nunca ousou travar. As suas ternuras amuadas por si próprio; as suas pequenas corridas de criança, mal-ousada, até aos portões da quinta, para retroceder, esperando que ninguém houvesse visto; as suas meditações no limiar; ...e as águas correntes no nosso ouvido; a longa convalescença febril ainda por todos os sentidos; e as tardes, os tanques da quinta, os caminhos onde o vento já não ergue a poeira, o regresso de romarias, as férias que se desmancham, tábua a tábua, e o guardar nas gavetas secretas das cartas que nunca se mandaram... A que sonhos de que Musa exilada pertenceu aquela vida de Poeta? Quando ele nasceu, nascemos todos nós. A tristeza que cada um de nós traz consigo, mesmo no sentido da sua alegria é ele ainda, e a vida dele, nunca perfeitamente real nem com certeza vivida, é, afinal, a súmula da vida que vivemos — órfãos de pai e de mãe, perdidos de Deus, no meio da floresta, e chorando, chorando inutilmente, sem outra consolação do que essa, infantil, de sabermos que é inutilmente que choramos.»

 

Fernando Pessoa, 1915

Grandes contemporâneos

João Gonçalves 18 Jan 14



Só, talvez, em alfarrabistas - o que "vendem" hoje as livrarias? -, com argutos escritos sobre, por exemplo, Herculano e Oliveira Martins.  E Eça, mais "incomum".

Um livro original

João Gonçalves 10 Mai 13



Como escrevi no mail que enviei ao Bruno Vieira Amaral a agradecer o livro, para além de um objecto muito bonito, como quase todos os da Guerra e Paz quando em "sério", pareceu-me desde logo uma boa introdução ao que passa por literatura portuguesa através de algumas das suas personagens. Um livro pelo menos original.

Franqueza

João Gonçalves 31 Mar 13

Aos jornais, preferi neste domingo de Páscoa a troca de argumentos entre dois homens inteligentes ao longo de várias décadas. Refiro-me a Óscar Lopes e a António José Saraiva e à "correspondência" reunida no livro da foto por Leonor Curado Neves. Correspondência deste jaez é praticamente impossível de encontrar hoje em dia. Quer porque o "mundo" editorial português mudou radicalmente, e  para pior (e muitas das cartas tratam dele, sobretudo por causa das sucessivas reedições da História da Literatura Portuguesa de ambos), quer porque o "mundo" dito literário português de agora não se confunde com o que eles frequentaram enquanto estudiosos, quer ainda porque a densidade das prosas respectivas não "toca" os espíritos shallow nem o mandarinato medíocre que rege o "meio". Estes homens nunca precisaram de lambuzar ninguém para se afirmar. As cartas contam a história de uma amizade intelectual que sobrelevou sempre a "razão" de cada um. Numa delas, aliás, Lopes diz a Saraiva que prefere a amizade deste a ter propriamente razão. «Franqueza é amizade e confiança.» Incompreensível, não é? Mas, como escreve Lopes na mesma missiva de 1969, "é tão fácil ser E. L." Ainda hoje é.

 

Adenda: Sobre Óscar Lopes, este "depoimento" de José Pacheco Pereira

Óscar Lopes

João Gonçalves 22 Mar 13

 

Morreu Óscar Lopes. Não sei se na secretaria de Estado da Cultura o conhecem. É provável que nas próximas horas lhe dediquem as costumeiras linhas apesar de Lopes não ser um "evento" ou um sapato gigante enfiado numa sala. Há uns anos, numa feira do livro em Cascais, arranjei o "par" que me faltava dos seus livros de ensaios editados pela Inova, do Porto, Ler e Depois. O outro intitula-se Modo de Ler". Ler e Depois foi publicado em 1969. Ou seja, em pleno "fascismo". Lopes nunca escondeu a sua "formação" ideológica (marxista) mas nunca fica diminuída a escrita. Pelo contrário, lêem-se referências a autores que só nas décadas seguintes surgiram sob o signo de "grandes referências". Ou de outros, como Heidegger, cujo "modo de ler" de Óscar Lopes ajuda a compreender mesmo através de demoradas e perspicazes notas "de pé de página". Lopes era irmão de Mécia, a mulher de Jorge de Sena, que, para felicidade dela, ainda reside nos Estados Unidos. Com António José Saraiva escreveu a mais reeditada História da Literatura Portuguesa. Dvidiram bem o trabalho e, dos dois, há uma recolha relativamente recente da correspondência. O seu desparecimento é mais um no lastro de perda em que mergulhámos enquanto "cultura" e sociedade. As coisas são o que são.

Só lhes fazia bem

João Gonçalves 8 Ago 12



"Deveria haver um conjunto de obras literárias escritas na nossa língua que todos teriam de conhecer. No plano do ensino, isto parece de uma evidência elementar, mas tem andado mais ou menos esquecido. Ora, reduzida às suas linhas mais simples, esta é afinal a questão do cânone literário e da sua relevância para o currículo escolar, embora esse plano, por definição, acabe por ser transcendido, pois o cânone não é propriamente uma simples ferramenta para uso do ensino, mas antes um quadro de referências indispensáveis e um complexo de elementos literários respeitante ao sistema de valores e aos interesses culturais de uma dada sociedade: incorpora uma série de modelos cuja evidência paradigmática se recorta ao longo dos sucessivos tempos históricos e se impõe à mentalidade e à sensibilidade colectivas. Na escola, a abordagem do cânone deve ser flexível e variada. Em Portugal, antigamente, havia para tal efeito excelentes instrumentos que iam dos cadernos literários da Seara Nova aos textos da editorial Comunicação e vários outros. Havia também selectas, crestomatias e antologias que apresentavam criteriosamente passagens mais ou menos extensas de obras que faziam parte do cânone. E havia, para quem estudava, a obrigação de saber dessas obras e mesmo de conhecer algumas delas na íntegra. Dos cancioneiros medievais a Fernão Lopes, de Bernardim e Gil Vicente a Sá de Miranda e Camões, de Rodrigues Lobo e Francisco Manuel de Melo a Bernardes e Vieira, de Bocage, Garrett e Herculano a Camilo, Eça, Cesário, Antero e António Nobre, isto para dar só alguns exemplos flagrantes do século XIII ao século XIX, os alunos de Português tinham de contactar com toda uma série de autores e isso só lhes fazia bem. Visitavam lugares escolhidos da grande literatura escrita na sua língua e, a partir desses paradigmas, tinham de proceder a vários tipos de análise e de interpretação, enriqueciam o seu conhecimento do léxico e da gramática, aprendiam figuras de estilo, adquiriam uma certa compreensão história e contextualizada da obra de cada autor, aperfeiçoavam grandemente o conhecimento do português como língua materna e tornavam-se capazes de utilizá-lo melhor. É por isso da maior importância que se retome o cânone literário e que este forneça uma base essencial para o desenvolvimento dos programas de português. Tanto o Ministério da Educação como o Plano Nacional de Leitura têm aqui uma tarefa de grande responsabilidade. Nunca será de mais insistir em que os estudantes, se tiverem um bom domínio da língua portuguesa, ficam preparados para ler tudo o mais: bulas de medicamentos, manuais de instruções, relatórios técnicos, notícias de jornais... Ao invés, se a sua preparação for circunscrita a este tipo de textos, nunca eles conseguirão ler capazmente um grande escritor. E se não forem capazes de ler capazmente um grande escritor, acabarão por não ser capazes de mais nada.»

 

Vasco Graça Moura, DN

Tabucchi, património nacional

João Gonçalves 25 Mar 12

Tabucchi lia Fernando Pessoa como muitos portugueses não conseguem ler. Isto quer dizer que tinha um interesse genuíno por essa coisa que passa por literatura portuguesa da qual, aliás, acabou por fazer parte. É de uma das suas leituras de Pessoa o excerto seguinte onde, ao lê-lo, leu-nos a nós. «Pessos não escapou, sem dúvida, à ira da divindade que desafiou, e não precisa de um código religioso para ter o castigo que lhe compete. Na sua lucidez, precisamente enquanto está cometendo o seu pecado, enquanto está sendo o que não é permitido ser, sabe perfeitamente que «falta sempre uma coisa/ um copo, uma brisa, uma frase,/ e a vida dói quanto mais se goza e quanto mais se inventa.»

DA LITERATICE PAROQUIAL

João Gonçalves 17 Jul 11


«vhm [valter hugo mãe] foi ao camarote de Elza Soares em Paraty com uma câmara de filmar nas costas, para — sejamos sérios! — registo dum momento promocional da sua própria pessoa diante duma artista puríssima, duma brasileira extraordinária. Tremendo equívoco: se se sentiu tocado por ela só teria de falar-lhe ou escrever-lhe da maneira mais anónima possível e não fazer dessa aproximação um trunfo pessoal. Não foi capaz de lhe dizer nada que não fosse banal. E quando ela lhe falou de Florbela Espanca, vhm não teve uma frase ou a expressão duma surpresa digna desse momento, pois tudo o que ali se jogava era ele, ele, ele e ele. Petit homme e nada mais.»

Vasco M. Rosa, Corta-Fitas

A OSTRA

João Gonçalves 29 Mai 11


Ontem, o suplemento A(c)tual do Expresso trazia uma carta da escritora Lídia Jorge. Parece que a "romancista" concedeu uma entrevista à revista Ler. E que, nessa entrevista, insinuou que tinha sido boicotada pelo dito suplemento do Expresso uma vez que a grande crítica literária Mellid-Franco (?), com dois ll e um hífen, lhe aviou 5 estrelas - o máximo - e no jornal saíram apenas 3. Tratou-se aparentemente de um erro de paginação, o suficiente para Lídia fazer queixinhas na sua editora e, ao que me dizem, insinuando quem teria sido o perpetrador contra tamanho génio escrevente luso. Recordo-me de, entretanto, o A(c)tual ter, em errata posterior, reposto as duas estrelinhas que faltavam no firmamento lídio. É neste contexto que aparece, então, a cartinha a que aludi e que resume o "génio" da autora. Diz ela, "a dado passo" daquela entrevista, que «em vez de porem cinco puseram três» e que «houve alguém que alterou aquilo.» Depois esclarece que «esta afirmação foi produzida num contexto de ironia e na tentativa de exemplificar o carácter por vezes aleatório da avaliação quantitativa dos livros, referindo-me em concreto aos erros comuns originados pela formatação informática, como terá sido o caso, sem que as minhas palavras procurassem ter outro qualquer significado ou envolvessem associações pejorativas.» Fala seguidamente em "incómodo" e em "especulações", talvez ciente das queixinhas que tinha andado a fazer, e acaba a «pedir desculpa aos profissionais envolvidos bem como ao editor» do suplemento. O êxito de livraria e de difusão nunca foram sinal de nada em literatura. Pelo contrário, aquilo a que temos assistido é a uma profusão de péssimos escritores e de romancistas medíocres que não conseguem livrar-se de uma concepção provinciana dela ao mesmo tempo que beneficiam de uma mediatização equivalente a marcas de cerveja. A circunstância de Lídia Jorge fascinar a mediania tribal e comádrica em vigor no pequenino mundo das letras portuguesas não passa, por isso mesmo, de um gesto de propaganda como qualquer outro em outras áreas. A sua carta (o "assunto") é como a ostra do poema de Ponge no sentido em que revela, na perfeição, o modo de ser daquilo que passa por literatura portuguesa contemporânea em versão "romance": tout un monde opiniâtrement clos. Um mundo no qual importam mais as entrevistas certas e as "estrelas"- em casos de patologia literata avançada e compulsiva, como Eduardo Pitta, a gastronomia e a vitivinicultura fazem parte da "pensão completa" - do que a qualidade intrínseca da obra. É o que há.

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