Domingo, 04.12.11

EM DEFINITIVO



«Convém perceber que os fins de Sá Carneiro eram dois. Primeiro, levar a direita (o PPD e o CDS) ao poder e, segundo, acabar com a tutela militar a que Portugal estava submetido. Talvez seja inútil explicar que se o poder ficasse indeterminadamente nas mãos da esquerda que se opusera à ditadura, e só nas dela, não tardaria que se criasse a ideia de que não assistia ao PSD e ao CDS qualquer legitimidade para governar e o regime democrático ficava à partida liquidado. As maiorias de 1979 e de 1980 e a genérica moderação da AD (que se absteve de perseguir fosse quem fosse e respeitou meticulosamente a lei) legitimaram a direita em definitivo.»

Vasco Pulido Valente
Domingo, 07.08.11

FACTOS E IDEOLOGIAS


O Público em papel dedica duas páginas a uma coisa que intitula "redefinição da social-democracia é central para o futuro dos partidos socialistas europeus". O "empurrão" para o texto (de São José Almeida) é a mudança no cargo de secretário-geral do PS e os protagonistas do mesmo são "personalidades do PS que foram críticas de José Sócrates". Com o devido respeito pelas "personalidades" em causa (duas delas, aliás, são minhas amigas), a tão esperada "refundação" do PS (Mário Soares), avistada pelo lado teórico dela, mais parece um regresso ao passado doméstico do que uma preocupação genuína com o futuro da social-democracia. De facto, o PS, entre 1974 e 1976, estabeleceu-se cá dentro e lá fora como o partido epígono dos congéneres europeus, tivessem eles a designação de "socialistas" ou de "social-democratas". Soares impediu a filiação, desejada por Sá Carneiro, do então PPD na Internacional Socialista e entreteve-se a "denunciar" o "reaccionarismo" do homem (bem com a sua intermitente "loucura") pelo estrangeiro. O líder do PSD percebeu e exercício mas chegou a propor Belém a Soares, em 1976, e só com o desempenho político e governativo de 76 a 78 concluiu pelo rompimento com a menor veleidade de entendimento com Soares e o seu "sonho mexicano". O PPD/PSD acabou por se forjar em casa, sem complexos ideológicos. Menos de cinco passados sobre o 25 de Abril, Sá Carneiro, com Freitas do Amaral e os Reformadores, conduziu o centro-direita ao poder sem demasiados estados de alma. A história do PS daí em diante é conhecida. Sá Carneiro desapareceu tragicamente, Soares regressou para chefiar o "bloco central" que morreu às mãos de Cavaco - Cavaco retirou-lhe quaisquer veleidades de apropriação exclusiva do programa social-democrata graças, também, à entrada na Europa promovida pelo primeiro -, Guterres e os seus "estados gerais" só apareceriam dez anos depois e, em 2004, chegou Sócrates que triunfou pelas circunstâncias ocorrentes e em nome de um pragmatismo incolor e absolutista que durou seis anos, desertificando o partido, anulando-o. O PS descaracterizou-se ao ponto de o país, a 5 de Junho último, não o reconhecer. Nunca teve o monopólio da social-democracia porque, apesar das filiações e das amizades internacionais, a social-democracia, em Portugal, sempre foi como o cozido: é "à portuguesa". Cavaco Silva, por exemplo, fez mais pelo reformismo (a "matriz" social-democrata e não o "estado social" que é coisa que dá para tudo e para nada) do que anos e anos de "ideologia", fosse ela a do punho ou a da rosa no ar. Das seis "personalidades" escolhidas pela jornalista São José Almeida, quais é que são social-democratas? Ana Gomes? Manuel Alegre? Carrilho leu e trouxe o filósofo social-democrata americano Richard Rorty a Portugal e foi o único ministro da Cultura "reformista" do regime. Medeiros Ferreira levou-nos para a Europa, como MNE, e em nome da flexibilização do sistema económico e da evolução do sistema político, fez um acordo com Sá Carneiro em 1979 que permitiu alargar a base de apoio "reformista" da então AD. Em 2011, o PS - à semelhança dos homólogos europeus e extra europeus - deixou de ter o monopólio dos valores da "igualdade" e da "solidariedade". Pelo contrário, foram justamente partidos equivalentes europeus - e o PS de Sócrates - que mais contribuíram para "enterrar" os referidos valores, para excitar o "individualismo" e o "mercado" nas suas mais repelentes facetas e para diabolizar o Estado enquanto manifestação equilibrada de soberania e autoridade democráticas junto de uma sociedade dita civil que só se sabe emancipar nos livros e na retórica reivindicativa de dois ou três negócios florescentes. Os pobres ficaram mais pobres e os ricos ficaram mais ricos depois das terceiras, quartas e quintas "vias" socialistas europeias. E a vida das pessoas foi objectivamente puxada para baixo. Isto é um facto. Não é uma ideologia.
Domingo, 10.04.11

CONTRA OS LUNÁTICOS DE MATOSINHOS E DE OUTROS LUGARES


«Salazar, num momento de particular malevolência, observou que era tanto o amor dos portugueses pela democracia que, sempre que surgia um sarilho (por exemplo, uma crise financeira), nunca deixavam de exigir um governo “nacional”: ou superpartidário ou extrapartidário ou, pelo menos, de “concentração partidária”. Foi isso que exactamente fizeram ontem 47 luminárias da nossa praça, que numa linguagem mais moderada (ou mais disfarçada), como convém à época, apelaram ao compromisso, à concórdia e à mansidão dos portugueses, para que uma “maioria inequívoca” pudesse tranquilamente salvar Portugal. Estes grandes vultos vão de Adriano Moreira a Jorge Sampaio, de Artur Santos Silva a Eduardo Lourenço e de Freitas do Amaral a Mário Soares. Não falta por onde escolher. Entretanto, o político mais “desagarrado” do poder (desculpem a palavra) ia a Matosinhos tratar da sua periclitante situação. “O PS está todo comigo?”, perguntou ele. O PS estava fervorosamente, absurdamente, histericamente com ele. Este jornal classificou a coisa como “um extraordinário momento de propaganda”; e com razão. Não me lembro de ouvir nenhum primeiro-ministro pedir com tanto descaro num congresso a confiança pessoal, que Sócrates pediu. Ou, se por acaso me lembro, é melhor não infectar a ferida. De qualquer maneira, se o PS gosta de um autocrata, nada o impede legalmente de escolher um. Ainda por cima, aquele que tem uma máquina de campanha organizada e perfeitamente ensaiada e uma estratégia eleitoral que, talvez seja fraudulenta, mas parece eficaz. Claro que a um observador racional não custa ver a solução evidente para a terrível crise, que atormenta os 47 advogados do compromisso: uma coligação entre o PSD e o CDS, com listas conjuntas. Por um lado, há razões para desconfiar que, dividida, a direita (ou se quiserem a direita e o centro-direita) não irá conseguir a maioria absoluta e produzirá um parlamento tão instável e estéril como o último. E, por outro, subestimar Sócrates, que voltou ao seu velho papel de “animal feroz”, não é muito sensato. Uma forte e sólida aliança entre o CDS e o PSD estabeleceria uma certa confiança e ordem no Estado e no país, sem derivações suspeitas das regras da democracia e o conúbio torpe de gente que do coração se detesta. Pedro Passos Coelho precisa de perceber isto enquanto é tempo; e parar de uma vez com o joguinho interno em que se perde e nos perde.»

Vasco Pulido Valente, Público
Sábado, 26.03.11

QUE LINDO "MOVIMENTO"


O Expresso traz uma entrevista curta com Pedro Santana Lopes. Para utilizar uma expressão recentemente grata a Medeiros Ferreira, Lopes não sabe recolher a quartéis. A mini-entrevista é uma espécie de oferta de uma caixinha de After Eights a José Sócrates, um recuerdo de um "injustiçado" a outro "injustiçado". Sócrates destruiu Lopes na urnas, há seis anos, mais isso não interessa nada a Lopes. Sócrates, de mão dada com Constâncio, arrumou-o numa vasta prateleira de irresponsabilidade, mas isso agora também não interessa nada. Não. Para Lopes o que conta presentemente é estar contra os "seus" e "compreender" o sofrido Sócrates em regime demissionário e de gestão. Esta é a primeira parte patética da coisa. A segunda, é o "movimento (?)" que ele está a preparar e cujo destino não ser será difícil de adivinhar. Finalmente, Cavaco. Lopes odeia Cavaco (é um direito humano) e o momento em que refere o PR é aquele em que o delíquio por Sócrates (a "compreensão") se torna mais pungente. Porque é a "experiência comum" com Sócrates, a "tensão" com o PR, uma coisa que "tem de acabar na próxima revisão constitucional" pois, diz Lopes, "não há mais nenhum país em que o Presidente possa dizer mal do seu Governo." Lopes, um proto-candidato a Belém em 2016, parece almejar um PR cego, surdo e mudo, não apenas limitado pela actual constituição parlamentarista, mas um verdadeiro eunuco político nas mãos do caprichismo voluntarista dos primeiros-ministros. Que lindo "movimento".
Sábado, 19.03.11

CONTRA A DIREITA DO "PERDOA-ME"

A derradeira coisa que o país precisa é de uma "direita" chorona, mesmo pequenina, com delíquios "corin tellado" em estilo "perdoa-me".
Terça-feira, 22.02.11

PREPARAÇÕES E EXPERIÊNCIAS


Vejo Pedro Santana Lopes muito preocupado com a falta de experiência e a "impreparação" de Passos Coelho. Em apenas alguns dias, sugeriu por duas vezes que Rui Rio, graças ao seu já longo desempenho autárquico, sempre seria, a título exemplificativo, "diferente". Sou insuspeito em relação a Passos (é o que há) mas parece-me que, salvo numa ou outra infelicidade de formulação, tem sido sensato. Não tem pressa o que quer dizer que talvez, e para variar dos derradeiros anos, esteja mesmo interessado em "preparar-se". Rio perdeu a sua oportunidade quando desistiu para Ferreira Leite depois de ter dito "sim" (para além disso não é certo que consiga "crescer" do Porto para o país). E Ferreira Leite passou como passou o próprio Lopes, tendo servido de pouca coisa a "experiência" de ambos na hora da verdade. Mal vai entretanto um partido que não consegue libertar-se da "síndrome trituradora interna" face a um opositor tenaz como Sócrates. E que persiste, pela voz "autorizada" de ilustres militantes, nos tirinhos de feira destinados ao pé.
Segunda-feira, 07.02.11

CRÓNICAS DE MORTES E VITÓRIAS ANUNCIADAS


Directamente da prestigiada democracia angolana que possui vasta parte da ex-Metrópole, o prof. Marcelo assegurou que o governo está "morto". Bastou uma entrevista radiofónica do líder do PC (quem diria) - na qual admitia votar favoravelmente uma moção de censura do PSD -para Marcelo endossar a Passos Coelho o papel de futuro (próximo) atestador do referido óbito. Hoje de manhã, pela fresquinha, a dra. Paula Teixeira da Cruz (nº 2 de Passos), também pela via radiofónica, não se mostrou tão segura acerca destas pompas fúnebres. E bem. A "direita", se fosse a curto ou a médio prazo para o governo, ia repetir, eventualmente com duas ou três almas novas apenas, o improviso de 2002/2004 que custou ao país estes anos de chumbo de Sócrates. Sabe-se que os Marcos - e, até, alguns intelectualmente a milhas dos Marcos mas com uma ambição parecida -, andam há muito a babar-se por todo o lado à espera da papinha e da prebenda. Sucede que não subscreveria assim tão rapidamente nem a morte anunciada de Sócrates nem a voracidade estúpida de algumas franjas da "direita" em regressar a um posto onde, da última vez, não foi feliz. E não estou a ver Cavaco interessado em começar um segundo mandato a gerir imediatamente uma crise política. Tem tempo.
Domingo, 06.02.11

SÓCRATES AGRADECE


No Dia do Senhor, apareceu a dra. Cristas do CDS a sugerir "rescisões amigáveis" na função pública. Cristas é cada vez mais o dr. Silva Pereira de Portas uma vez desaparecido o dr. Nobre Guedes para uma vaga oposição interna. O CDS, pelos vistos, não resistiu em cair na armadilha de Sócrates que apontou o dedo à "direita" em matéria de despedimentos na administração pública, jurando não tencionar fazer um. O PSD apressou-se a garantir que nunca falou em tal. Tudo visto e ponderado, Sócrates (em campanha interna circunstancial e externa permanente), depois de ter apoucado a função pública o mais que pôde, surge agora como o campeão da sua defesa. Isso vale votos e, apesar do descalabro, as sondagens - que lhe dão na orla dos 30% - confirmam-no. Sócrates fez o mal e a escaramunha mas emerge como a "barreira" contra um mal maior. O CDS devia ter escolhido outra ocasião para abrir a boca e deixar um sorriso na do 1º ministro. Não era má ideia poder fazer-se igualmente "rescisões amigáveis" com alguma da "direita" que temos.
Sábado, 05.02.11

«PERSONALIDADES»

«PSD prepara governação com personalidades", lê-se num título do Público, um jornal cada vez mais com demasiada "opinião" e pouco jornalismo. Ontem, uma dessas "personalidades" lançou um livro e foi entrevistada na tvi24. Falava "de fora", reclamava novos protagonistas, era contra (sic) o "bloco central de interesses" e quem não o conhecesse podia imaginar que Carapatoso (é dele que se trata) se preparava para ser o Sr. Baradei da política portuguesa. Antes de Carrapatoso, porém, já tínhamos tido outros Carrapatosos como o dr. António Borges que, por exemplo, chegou a vice-presidente do PSD sem que dele sobrasse uma história para contar. Carrapatoso vem já pelo menos desde o tempo em que a "direita" governou brevemente o país entre 2002 e 2004, com o seu "compromisso Portugal". Aliás, o "compromisso" e a comissão de honra da recandidatura de Cavaco deverão ser os principais "centros de recrutamento" das ditas "personalidades" que, salvo uma ou outra excepção, estão vistas e revistas. No fundo, Passos pretende imitar, não os "Estados Gerais" de Guterres (que, apesar de tudo, ainda produziram algumas novidades) mas as estafadas "Novas Fronteiras" de Sócrates, com os mesmos, os menos maus dos mesmos e os novos fiéis. Carrapatoso, lá por vir da "sociedade civil" e querer "desatar o nó", continua a ser apenas mais um tagarela na longa fila deles, dos que se preparam para se perfilar atrás de Passos Coelho enquanto for Passos Coelho. Esta monotonia, da esquerda à direita partidárias, é preocupante. E enquanto não se "desatar o nó" do regime no sentido de o mudar para o presidencialismo, não saímos disto e destes. Das "personalidades".
Sábado, 29.01.11

O MAIS VELHO E O "NOVO" CICLO


O matusalém do CDS, o dr. Portas, quer ir rapidamente para o governo. Falhado Sócrates, Portas vira-se agora para Passos Coelho a quem sugere um "movimento político" que os abranja e a "independentes". Da última vez que Portas "participou" numa AD pré-eleitoral, em 1999 com Marcelo, bastou uma entrevista sua na televisão para acabar rapidamente com ela (e com Marcelo). Só em 2002, depois de umas eleições que deram Barroso à frente mas em minoria, é que Portas se tornou indispensável para viabilizar um governo de "direita" que durou pouco mais de dois anos. E não foi por sua causa, diga-se a bem da verdade, que a coisa borregou porque Portas apreciava (e aprecia) o poder nem que fosse às cavalitas de Barroso e, depois, de Santana ou de outro do PS. Todavia, a reeleição de Cavaco não "abriu" nenhum "ciclo político" novo como Portas veio a correr sugerir na noite do passado domingo. Nem tão pouco despertou em Passos Coelho quaisquer pressas apesar de já estar aberta a "montra de vaidades" ministeriáveis. E, depois, Portas é a pessoa menos indicada (parece um "sempre em pé" da "direita", há mais tempo no activo partidário do que Jerónimo de Sousa ou Louçã) para vir falar em "novo ciclo" precisamente por ser o mais velho em exercício em vários "ciclos". Como bastas vezes aqui escrevi, Sócrates tem todas as condições políticas internas (o resto ninguém sabe) para terminar a "sua" legislatura. Alguém da "direita", no seu perfeito estado mental, está interessado em pegar nisto agora ou a curto prazo, com mais ou menos "movimentos"? Julgo que não.

Portugal dos Pequeninos

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