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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

«Merecidos vexames»

João Gonçalves 26 Jul 14

 

 

«Não interessa evidentemente comentar o comportamento da diplomacia indígena no caso da CPLP. Como sempre, foi miserável. Nem interessa dizer muito sobre o dr. Cavaco, que ninguém espera que defenda a dignidade da República ou se porte bem numa situação apertada. Mesmo com o dr. Passos Coelho não se pode contar, se lhe acenam com uns negócios para o seu empobrecido Portugal. O petróleo da Guiné Equatorial e a vontade de Angola pesam mais do que qualquer outra consideração presente ou futura. A nós que por aqui andamos a contar tostões não nos faz mal o vexame público do país, que é uma tradição histórica e, pior ainda, um hábito de vida. Embora obedecer ao Império Britânico seja em princípio menos comprometedor do que obedecer a um bando de cleptocratas. Sobretudo quando esse bando de cleptocratas tem razão. O Jornal de Angola escreveu sobre o assunto um editorial, em prosa duvidosa, mas no essencial cheio de razão. Depois de injuriar meticulosamente a opinião de cá (“preconceituosa”, “incoerente” e “estrábica”), o preopinante continua: “Os Media em Portugal praticam diariamente atentados contra a Língua Portuguesa. Nos jornais já se escrevem mais palavras em inglês do que em português. Nas rádios e televisões a situação é (…) pior. Escrever e falar português contaminado de anglicismos e galicismos é uma traição a todos os que falam a língua que uniu os países da CPLP”. Descontando a hipérbole e um certo desconhecimento do que de facto acontece em Portugal, o Jornal de Angola não se engana. Desde 1976 nenhum Governo se ocupou seriamente da defesa da língua. O Dicionário da Academia de Ciências não passa de uma triste imitação do Oxford Shorter, não há uma gramática decente e acessível ao leigo ou um Thesaurus ou sequer, com as confusões do Acordo, um prontuário ortográfico decente e fiável. Também não há uma edição completa e crítica dos “clássicos” reconhecidos, nem a investigação universitária redescobriu a literatura do século XVI ao século XIX, que merecia outra sorte. Em matéria de língua, os Governos ficaram entre a ignorância e o desdém. Ou seja, abandonaram o principal interesse de Portugal e um dos seus melhores meios de influência. Nunca o Jornal de Angola escreveria o que escreveu se nós lhe pudéssemos responder com uma política e uma obra. Mas não podemos.»

 

Vasco Pulido Valente, Público

Bem vindo, sr. Teodoro

João Gonçalves 22 Jul 14

 

O PSD acha que "estão criadas as condições" para a entrada da Guiné Equatorial na grotesca CPLP onde Portugal famosamente não manda nada. Com jeitinho, ainda podem "adoptar", a título póstumo, o fantástico Ceausescu já que a língua romena tem umas certas parecenças orais com o português. E não consta que na terra do sr. Teodoro - talvez seja por ele se chamar tão portuguêsmente Teodoro que o ligam à CPLP - se pronuncie uma palavra em "língua oficial portuguesa". Salvo "negócio" que é tão mundana como não ter vergonha na cara.

Portugal, o fardo do homem preto

João Gonçalves 6 Jul 14

 

O jornal Público traz este domingo um interessante dossiê sobre a pequena (no sentido de rasca) história da "adesão" da Guiné Equatorial à CPLP. A CPLP sempre me pareceu um resquício ornamental da nossa mal resolvida relação com países que foram Portugal. Escudada na defesa da língua (nem isso conseguiram por causa do imbecil "acordo ortográfico" que é rejeitado por quem efectivamente "manda" na pobre CPLP) e de mais meia dúzia de trivialidades democrático-saudosistas, a "comunidade" não passa de um pretexto frívolo e inconsequente para o Portugal "actual" lavar alguma eventual má consciência "colonialista" que possa ter sobrado dos idos de 70 do século passado. Mesmo que essa má consciência inexista, alguns dos parceiros da "comunidade" estão permanentemente dispostos a recordá-la quando lhes convém. Foi agora o caso com a chegada da ditadura do sr. Obiang à CPLP. A figura pusilânime de Portugal neste processo, agachado diante dos seus "parceiros", dá uma imagem eloquente do "Portugal contemporâneo": um lugar tomado pelo negocismo, pelos interesses e pela irrelevância política que aqueles se encarregam em colocar ao seu serviço. O MNE, fora as "recepções" e os croquetes, foi substituído no seu funcionamento político-institucional pelas consultoras, pelos videirinhos e pelos escritórios da advocacia de negócios "especializados" em África e Brasil. De vez em quando aparece a AICEP, com o inocente Frasquilho à frente, para a coisa não parecer tão descarada. Alguns ex-MNE's, como Martins da Cruz, António Monteiro ou Luís Amado, participam alegremente nestas "actividades circum escolares" da "comunidade" e raramente pelo lado do país do qual foram chefes da respectiva diplomacia. Aliás, Amado ou Portas, para nomear apenas os MNE's mais recentes (Machete é mero corpo presente, não conta nada), bastam nesta edificante peripécia política que conduzirá o glorioso Teodoro ao convívio da "comunidade" por causa do temor reverencial do regime perante as antigas colónias, da América latina e África a, imagine-se, Timor que tanta honesta lágrima fez derramar a tanto crédulo. E, fatalmente, por causa do instinto rapace de sobrevivência próprio de periféricos sem vergonha na cara. Como escreve Miguel Sousa Tavares no Expresso, «foram, de facto, décadas de política externa que consolidaram uma prática que faz com que a nossa diplomacia não seja respeitada em quase lugar algum», culminando desta vez com «a adesão do Estado criminal da Guiné Equatorial à CPLP em troca de umas vagas promessas de negócios com petróleo e dinheiro para o Banif», «sem que alguém do Governo se preocupe em justificar o que quer que seja, sem que o Presidente da República levante qualquer objecção que se conheça e sem que a oposição faça disto um escândalo nacional.» 

SEM CARÁCTER

João Gonçalves 22 Jul 10


Houve para aí um patusco, reitor da Universidade Lusófona, que, apropriadamente, referindo-se ao pedido de adesão da Guiné Equatorial à CPLP e à alegação de que tal implicaria a "descaracterização" da dita, disse que não se pode descaracterizar uma coisa que "não tem carácter". O senhor é favorável à referida adesão porque, salienta, ditadura por ditadura, a CPLP já lá tem parecido e que enquanto o Brasil não for o "motor" da "comunidade", a "comunidade" não vai a lado algum. Precisamente o "motor", o sr. Lula, estará ausente mas pairará sobre a cimeira como entidade fantasmagórica ameaçadora da integridade da língua portuguesa a que os chefes de Estado e de governo que a falam e escrevem se preparam para dar valente catanada. Ora a "falta de carácter" da CPLP também passa por aqui e menos por pruridos com "ditaduras" quando se sabe que membros efectivos da organização não são propriamente modelos de democracia ou de preservação de elementares direitos humanos. O cinismo diplomático costuma engolir tudo e o seu contrário em nome do pragmatismo e de boas contas-correntes. Vão ver.

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