Aqui vemos primeiro Carlos Kleiber durante a representação de Otello no alla Scala em 1976. Famosa representação com a Freni, Domingo e Cappuccilli. Impassível perante as "bocas" vindas lá de cima - que heresia um maestro nascido em Berlim a tocar Verdi em Milão! -, repare-se no momento em que discretamente baixa a batuta e se eleva no desprezo. Os aplausos sobrepuseram-se às duas ou três alimárias vociferantes. Kleiber deixou para a posteridade uma das mais portentosas versões da ópera de Verdi com argumento de Arrigo Boito (dueto do 1º acto, Otello e Desdemona com Domingo e Freni no auge).
O que mais me satisfez nos últimos posts foi a reacção ao maestro Carlos Kleiber. Homem de poucas falas, Kleiber era um exímio músico que não se deu excessivamente às gravações. Há, dele, pequenos momentos de ouro. Um Otello no alla Scala, uma Traviata em cd, um Morcego e uma Carmen em dvd, em Viena, um Cavaleiro da Rosa em Munique. Algumas sinfonias e concertos. Não tinha tipicamente bom feitio. Mas num dia tão cheio de lixo doméstico - na tvi24 estava a vaga literata, a poltrona Pedrosa, a remexê-lo (como é que a Helena Matos aceita debater com aquilo?) e na sicn o misterioso clone Silva Pereira a dizer nada - Kleiber parece uma blasfémia. Uma luxuosa blasfémia. Neste clip tinha quarenta anos - morreu poucos dias depois de fazer 74 - e está tudo resumido naquelas mãos geniais. Pessoas como Kleiber provam que o genérico (não o género) humano é facultativo.
Regresso a Carlos Kleiber. Desta vez dirige o derradeiro andamento da 7ª sinfonia de Beethoven. Repare-se na euforia delicada, na entrega absoluta e, mais importante do que isso, na alegria que este grande músico "retira" da peça do mestre, alegria essa que esta imagem eternizou literalmente até à exaustão. Estes breves minutos jubilatórios servem apenas para nos recordar - para eu me recordar - que, algures, houve génio.