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portugal dos pequeninos

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Esta elite consensual

João Gonçalves 6 Mar 15

 

«Em tempos recuados, há mais de meio século, quando floresceu uma análise semiológica da cultura de massas, Roland Barthes analisou numa das suas “mitologias” aquilo a que chamou “La Critique Ni-Ni”. Tratava-se, aí, de um tipo de crítica literária, mas a categoria “Nem-Nem”, a “mecânica da dupla exclusão” que Barthes dizia ser um traço pequeno-burguês (era esta a linguagem da época), sobrevive hoje com muita vitalidade na opinião e no comentário da classe político-mediática das várias proveniências (...). A encenação de debate cria a aparência de que uns e outros pensam de maneira diferente, mas toda a diferença se anula na mesmidade que brota da linguagem comum do “Nem-Nem”. Como se todos eles, festivos como os saltimbancos e nómadas como os cibernautas, se preparassem diante de um espelho deformador, antes de debitar opinião e analisar a temperatura exterior do ambiente: “Diz-me, espelho meu! Estou em forma? Estou conforme?”. A conformidade é a chave que tudo abre e o critério primeiro para definir a elite consensual que se moldou pela fórmula do “Nem-Nem” (...). Esta elite consensual que segrega uma doxa a que poderíamos chamar o tecno-populismo (dando assim a ver um paradoxo: são os habituais denunciadores do populismo que representam o populismo mais saliente do nosso tempo) compreende também uma parte considerável dos profissionais do comentário político, jornalistas e analistas das várias especialidades da tripla aliança política, económica e mediática. Empossados como fabricantes de opinião para consumo da população genérica, quanto mais “Nem-Nem” são, mais hipóteses têm de ser aclamados como objectivos e responsáveis (...). Esta elite consensual, resultante de um agregado onde se instalou a maquinaria infernal de produção do “homem médio” ou homo mediocris, reivindica-se como uma maioria moral, na medida em que exerce uma hegemonia da opinião. E a opinião, no sentido de doxa, de senso comum, é sempre vontade de maioria e de conformidade. Daí, a regra mais importante da elite consensual: nunca oferecer qualquer resistência ao presente.»

 

António Guerreiro, Público

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