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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

Reprise

João Gonçalves 26 Out 14

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O primeiro-ministro fez do encerramento das jornadas parlamentares da maioria um ponto de partida. Já se sabia que estava em campanha mas, no sábado, deixou a coisa bem clara quando, por outras palavras, chamou estúpidos aos jornalistas e aos comentadores que não conseguem enxergar o bem que ele representa para a pátria. Passou-lhes um atestado de "Maria vai com as outras", isto é, a "redacção única" - mesmo muita da de economia e finanças - é "preguiçosa" e "patética" quando não lê pelas mesmas lentes o Excel extraordinário e salvífico que diariamente o dr. Passos apresenta aos pobres de espírito que pastoreia e que, afinal, não o merecem. Se o dr. Costa representa para muitos incautos o Natal, o dr. Passos é o Crucificado e a "vociferante matilha do espectáculo" o seu Golgotá. Quando o dr. Passos apareceu no 1º semestre de 2011 para ficar, aplaudi-lhe, por contraste com o caudilho socialista, a aparente normalidade. A sua vitória desanuviou um ambiente político envenenado pelo ensimesmamento auto-suficiente do anterior chefe do governo. Sucede que o dr. Passos foi-se convencendo - e alguns imbecis encartados ou descartados ajudaram-no nesse convencimento - da sua infalibilidade, à semelhança do antecessor, transformando-se politicamente num papagaio evangélico. Talvez por isso aprecie comparar-se, a seu crédito, com alguns "profissionais" da cacofonia, muitos dos quais, aliás, tal como haviam feito com Sócrates, tão depressa o incensaram quanto o execram agora. A histeria de ontem não augura nada de bom. É uma reprise. E das más.

Da acção comunicacional

João Gonçalves 15 Out 14

Transcrevo aqui, há anos, crónicas e excertos de crónicas de Manuel Maria Carrilho de quem, aliás, sou amigo. Mas já o lia e citava antes de nos tornarmos amigos não vá o filistinismo sempre de serviço ficar incomodado. Nos últimos tempos, Carrilho escrevia no Diário de Notícias mas, segundo afirmou o director do jornal a uma revista, vai deixar de escrever. “Não é o único que deixa de escrever para nós. Ao todo, são cinco, incluindo Celeste Cardona e Baptista Bastos. Não há um motivo especifico, há um motivo geral: quando entra uma direcção nova, tenta-se refrescar a imagem”, declarou André Macedo. Vamos aguardar o resultado deste "refrescamento" em todo o seu esplendor: quem sai, quem fica e quem entra. Todavia faço votos que o Senhor Director poupe, nos dois últimos casos, os putativos leitores a meras redacções das antigas segunda e terceira classes ou a alguidares de baba.

Democracia liberal, democracia adversarial

João Gonçalves 14 Set 14

 

Estou de acordo com  Eduardo Cintra Torres. Os mais de duzentos mil "simpatizantes" que se inscreveram para escolher o candidato do PS a 1º ministro são uma prova de vitalidade de uma democracia liberal, isto é, do confronto adversarial sem o qual essa democracia não passa de um pastelão ressequido. O que significa que Seguro teve razão em convocar as "primárias" quando Costa pretendia o poder "outorgado". O PS - ao contrário da ruminação dominante que teria preferido a saída de Seguro pela porta dos fundos, em Maio, e a entrada triunfal do seu Bonaparte da Praça do Município pela porta grande - sai reforçado deste processo como saiu de anteriores. Logo em 1974, na Aula Magna da UL, Manuel Serra desafiou Soares a "esquerdizar" o partido. O PS acabou "social-democratizado" e apto a vencer as duas primeiras eleições livres. Entre 1979 e 1981, o partido dividiu-se entre "soaristas" e o chamado "secretariado" que se revia em Zenha. Dois anos depois Soares ganhava as eleições de Abril de 1983 e formava o "bloco central" com Mota Pinto. Em 1985, a "esquerda" apresentou três candidatos a Belém, dois deles- Zenha e Soares - oriundos do PS "histórico". Soares passou à segunda volta, e a Presidente, com o apoio de Zenha e Pintasilgo que ficaram para trás. Em 1991, o "choque" da humilhação eleitoral por que passara Sampaio em Outubro contra Cavaco, levou ao embate feroz com Guterres. Entre 1992 e 1995, Guterres preparou-se para São Bento e Sampaio para Belém. A partir de 1996 e até 2001, o país político era todo "cor-da-rosa". Em 2004, depois da vitória singular de Ferro Rodrigues nas europeias a que se seguiu uma não menos singular demissão por causa de Sampaio, o PS apresenta, na oposição, três candidatos distintos a secretário-geral. Em Setembro "passa" Sócrates que em Março do ano seguinte é primeiro-ministro com maioria absoluta. Nas presidenciais de 2006, o PS tem dois candidatos e o "dissidente" Alegre, que nunca abandonou o partido, supera brutalmente o "oficial" Soares. Com a derrota de Sócrates, apenas Seguro se dispôs a reunir os cacos. De lá para cá, ganhou à coligação as duas únicas eleições que entretanto ocorreram. E, fique ou saia depois das "primárias" e do congresso, o PS dificilmente não será responsável pela liderança do processo político depois das próximas legislativas. O governo é já só um cadáver que ainda não entrou em funções mas que se esforça, com método e perseverança diários, por entrar o mais rapidamente possível. Como escreve o Eduardo, «os debates abriram um precedente que espero se torne habitual. É muito melhor para os portugueses, e em especial para os que elegerem o candidato do PS a chefe de governo no dia 28, conhecer melhor os candidatos e o que nos puderem e quiserem dizer, por pouco que digam. Os debates elucidaram mais sobre o carácter do que sobre políticas? Sim, mas, a meu ver, o carácter de um eventual primeiro-ministro é tão importante como as políticas. O caso Sócrates deveria ter vacinado todos os comentadores sobre este assunto. Fernando Pessoa escreveu em 1919 que "o voto popular não é uma manifestação de opinião; é uma expressão de sentimento. "Os debates, mesmo sem ideias, permitem avaliar o carácter para além do blá-blá. Assim, percebe-se a táctica de Seguro a que Costa chamou "ataques pessoais". Seguro quis transmitir uma versão do seu carácter e uma versão do carácter de Costa. Costa saiu-se mal, a meu ver, nesta questão, porque tinha de facto mais a perder na avaliação pública do seu percurso político e porque numa luta homem a homem, como esta é, o que Seguro fez foram ataques políticos em ligação com o homem seu adversário. Não se pode separar totalmente o político do homem quando se enfrenta um homem político. Por isso, Costa não queria debates. Discordo doutro argumento da maioria comentatória, o de que Costa é o "challenger", quem desafia o líder instalado. Tecnicamente, é. Mas Seguro é o verdadeiro "challenger", pois diz que Costa representa o "projecto de interesses" (os Sócrates, Almeida Santos e outros instalados no sistema). Na prestação mediática, Costa está na TV como em casa, ou não fosse ele um "quadraturo" há anos; não tem nem faz propostas por ser uma variante do sistema, bastando-lhe comentar, com inegável desenvoltura; em Seguro apresenta-se como o acossado pelo sistema, incluindo o mediático. Vendo os debates neste prisma, é Seguro o desafiador — do sistema.»

Uma desilusão, segunda parte

João Gonçalves 9 Set 14

Opinião inteiramente de borla, salvo quanto à Net (paga por mim), não assalariada ou avençada junto de quaisquer meios de comunicação social e cultural: o primeiro debate entre o secretário-geral do PS e o "alto comissário dos referidos meios para o PS" correu bem ao secretário-geral do PS e menos bem para o "alto comissário" e para os ditos meios. É a vida, como diria o proto candidato de ambos a Belém.

A voz do ungido

João Gonçalves 4 Set 14

 

Não sei por que carga de água recebi um mail da campanha do dr. Costa. Um conhecido meu também e supõe que é por estar inscrito num site de busca de empregos. Seria interessante saber quantos mailings a campanha do dr. Costa - para o PS, sublinhe-se, com o qual nem eu nem esse meu conhecido temos quaisquer relações - comprou ou quem os cedeu para aquela específica utilização. Para mim, como se deve notar, o dr. Costa é "spam" e vai directamente para o "lixo". Para outros, como alguns e algumas jornalistas, é a "voz do ungido" que nos chega milagrosamente seja por que via for. Foi o caso, ontem à noite, da exibição politicamente pornográfica de uma jornalista-comentadora num canal de notícias. Melhor do que qualquer um ou uma dos seus inábeis porta-vozes, a jornalista-comentadora "defendeu" o seu há muito "ungido" com um argumentário "notável" do ponto de vista democrático. Em resumo: Costa tem o apoio de toda a gente que conta (ela própria deve estar incuída neste saco de gatos), dando o exemplo das vetustas luminárias Alegre, Sampaio, Santos e Jardim e de todos os antigos secretários gerais à excepção de Constâncio e Guterres; Seguro está, por consequência, "cercado" e não tinha nada de convocar "primárias"; mas já que as convocou, imagine-se o problema que criaria ao PS a sua vitória (sic). Lá concedeu que Costa ainda não foi muito "claro" sobre o que tenciona fazer se ganhar, depois, as legislativas mas isso não interessa nada. O que realmente "preocupa" a jornalista-comentadora é a hipótese - remota, claro, dado o referido "cerco" - de, ao arrepio do que está "previsto", o outro ganhar. Ou seja, as "primárias" só servem (e aí são "boas") se tiveram um único resultado, o "previsto" e desejado. Nunca pensei que esta jornalista-comentadora, em concreto, tivesse estagiado na Coreia do Norte. Vou sempre a tempo de aprender.

Os "videntes televisivos" e a democracia

João Gonçalves 14 Ago 14

 

Vistos por Manuel Maria Carrilho. «O espaço público português está minado por excentricidades que a Europa não tolera, mas a que Portugal parece resignado. Como se tivesse perdido sensibilidade em relação ao seu carácter democraticamente devastador. Porque é na informação e no comentário que se constroem e destroem os factos, os projectos e os protagonistas políticos, decisivos para a vitalidade e qualidade da nossa vida colectiva. O seu poder é portanto imenso, e a sua responsabilidade devia ser do mesmo gabarito - mas não é! (...) André Macedo acerta em cheio quando diz que "a cama do poder mudou-se para o quarto poder". Mas também podia ter lembrado Stuart Mill, que escreveu que a democracia é sempre um combate contra os "interesses sinistros" que desprezam o bem público. E que o combate continua.»

As escadas de Costa

João Gonçalves 27 Jun 14

 

Não entendo por que é que António José Seguro insiste em trazer António Costa a debates. Não porque a coisa, os debates, não fossem eventualmente mais interessantes que uns empurrões, uns mails ou o fatal César. Não. Costa recusa-se a debates uma vez que o seu lance napoleónico-cartesiano assenta precisamente numa espécie de "tomada de assalto", sem direito a contraditório, com base no primado da primeira pessoa. Apesar de encher a boca de "ética republicana", Costa não passa prudentemente daí, de encher a boca. Por outro lado, com os media generalistas e não generalistas e os comentadores por natureza generalistas ao seu serviço, ao edil lisboeta basta-lhe aparecer no seu "espaço" de comentário televisivo semanal. E, mesmo aí, pode estar calado porque os outros dois debitam por ele. Se levasse a "ética republicana" a sério, Costa aceitava os debates e suspendia a sua participação na sicn. Mas, como dizia a outra, quem tem ética passa fome. Pelos vistos as escadas, para Costa, não têm degraus.

«Aquele império com pés de barro [a Controlinveste] ruiu com a crise, mas os bancos injectaram lá milhões para manter o controle. A solução encontrada é política: a escolha para presidente da empresa de Proença de Carvalho — homem para todos os regimes do poder e do dinheiro (e advogado de Sócrates) —, e a escolha dum protegido do BES, familiar de Cavaco mas de facto com ligação ao PS socratista (como o revelaram as escutas da Face Oculta no CM) apontam para a mesma triste aliança obscura entre media e dinheiro e política dos poderosos. Agora despediram bons profissionais independentes ou de áreas políticas desafectas aos novos donos. Socratinistas e costistas ficaram lá todos. O mesmo em Espanha: os bancos, em conúbio com o governo Rajoy, tomam conta dos principais media. Sinal do século XXI: com a Internet e a fragmentação dos media, o poder mediático disseminou-se de tal forma que os poderes fácticos de sempre — o dinheiro e seus agentes políticos — precisaram de voltar em força ao controle férreo dos media e encontraram em alguns jornalistas bem pagos agentes sabujos para o exercer. Os poderosos servir-se-ão dos seus media, mas, mesmo que os cidadãos não os leiam, eles farão contas para ver se os negócios que ganharam pela porta do cavalo compensam os prejuízos com os seus media e as notícias ou "notícias" neles plantadas. Entretanto, como qualquer industrial do capitalismo selvagem, destroçam vidas, fazem concorrência desleal aos media honestos e enganam o povo.»

 

Eduardo Cintra Torres, Correio da Manhã

"Passe-o na televisão", já dizia Salazar

João Gonçalves 8 Jun 14

 

 

«Como Seguro, Costa fez carreira no PS: não há outra maneira. É também um profissional da política e, portanto, não pode estar longe do aparelho. Mas o partido não lhe chega. Como Sócrates, de quem foi indefectível, às maçadas do aparelho prefere outro meio de chegar ao poder: os media. Tem uma relação ambivalente com o jornalismo: despreza-o, mas bezunta-o de graxa, tende a tentar controlá-lo (como Sócrates), enquanto jura pela liberdade de informação. Enquanto para Seguro o poder se alcança pelo trabalho da formiga, para Costa conquista-se pelo canto da cigarra. Enquanto Seguro não dá nada por adquirido e age timoratamente para que o país lhe entregue o poder, Costa, na esteira de Soares, acha-se um predestinado a quem o país deve o poder: acorda uma terça-feira, depois das Europeias, e anuncia que o PS e o governo são para ele. É um Messias de promessas vagas (um ‘governo forte’), um "Napoleão para as Esquerdas", na expressão de João Gonçalves no blogue Portugal dos Pequeninos. Napoleão não quis receber a coroa de imperador das mãos do papa e colocou-a ele mesmo na sua cabeça. Para Seguro, é uma injustiça que lhe tirem o partido que conquistou; para Costa, é uma injustiça que não lhe dêem o poder para que se acha talhado. Enfrentam-se agora o percurso de aparelho, de Seguro, e o percurso mediático-messiânico, de Costa. O primeiro leva a melhor no partido, o segundo leva a melhor nos media — os jornalistas também sofrem do atávico e reaccionário desejo de Chefe — e, por causa dos media, também nas sondagens. No combate dos próximos meses, Seguro gritará "o meu reino por um canal de TV" e Costa berrará "o meu reino por umas federações do PS"

 

Eduardo Cintra Torres,  CM

As bruxas barbudas de Costa

João Gonçalves 2 Jun 14

 

Como Eduardo Cintra Torres escreveu apropriadamente no Correio da Manhã, Seguro sofre do "pecado original" de não ter um programa de televisão. Nem tão pouco de dispor de uma "tribuna", ou duas ou três, em jornais onde terceiros debitem artigos bonitinhos que ele pudesse rever e a que apenas emprestasse o seu rosto e assinatura. Depois, sendo do "sistema PS", Seguro nunca foi propriamente do "sistema geral" ou, pelo menos, aceite dentro dele. Basta atentar no que a vociferante matilha do espectáculo (para usar a sempre feliz expressão de Sloterdijk) anda a dizer e a escrever há uma semana. Costa praticamente não precisa abrir a boca  (essa é uma das razões "mitológicas" do seu sucesso) porque é precedido de uma auréola comunicacional e classista alimentada por fontes distintas do "sistema" e do "meio" que, como se costuma dizer, o viu nascer: ele é um dos "nossos", murmura a matilha conspícua. Parece Macbeth diante das bruxas barbudas quando estas lhe vaticinaram um destino "real". Oxalá não acabe como ele.

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