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portugal dos pequeninos

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Um regresso por vir

João Gonçalves 3 Mar 14

 

No domingo à noite, o PSD aprovou, em conselho nacional, os seus candidatos na lista "aliança Portugal" (parece mais uma marca de massas tenras do que uma designação política). A seguir a Rangel vem o antigo autarca de Viseu, Fernando Ruas, uma desconhecida por causa da "paridade" e Carlos Coelho, um homem competente, um trabalhador dedicado e incansável, que passou para um humilhante quinto lugar porque o quarto tem de ir para o dr. Melo, do CDS, por causa da intendência. Rangel não tem razão ao afirmar que o seu adversário é o dr. Seguro uma vez que, com uma lista deste jaez (caramba, o partido maioritário, e no poder, não arranjava melhor do que isto?), nem sequer chegará a ser o dr. Assis. Por outro lado, "desfoca" a eleição para a paróquia onde, como não é desprovido, decerto não ignorará que a "aliança" não se encontra nas melhores condições para esperar foguetes e fogo de artifício em Maio. É precisamente na altura em que esta gente tem de andar por aí em campanha que se saberá das "piores condições", ditadas pelo governo por conta final do programa de ajustamento, para a conclusão das avaliações e do dito programa. Por isso, julgo que o verdadeiro "regresso de Relvas" só se fará no conselho nacional que vai analisar os resultados das europeias e nos subsequentes. Para já, tratou-se de uma amenidade quase familiar. Relvas leu um discurso previamente escrito, foi aplaudido pelos circunstantes e "elogiou" Paulo Rangel porventura mais a pensar no "destino" (pouco auspicioso) da "aliança" do que em Rangel propriamente dito por quem, aliás, nunca se interessou. Ou seja, Relvas regressou rapidamente e em força à política. Não a esta, mas à por vir.

 

Foto: Ângelo Lucas, Global Imagens

«A despedida»

João Gonçalves 28 Fev 14

 

«Eduardo Lourenço disse que o congresso do PSD lhe parecia uma espécie de missa cantada. A mim, que sei pouco de missas, o que me pareceu o congresso foi uma festa de despedida. Acredito piamente que Marcelo Rebelo de Sousa resolveu lá ir por razões sentimentais, como o resto das criaturas que dirigiram aquela extraordinária agremiação desde 1985. Tanto os “chefes” como os “militantes” sentiram, e com razão, que não se tornariam a encontrar tão cedo naquele ritual. E talvez nunca mais. Vieram de certa maneira ao enterro de uma história, para eles gloriosa, que não voltará. Depois de Passos Coelho, depois de Cavaco, depois desta maioria (embora com CDS) ninguém no seu juízo pensa que o PSD pode ter genuinamente a esperança de recuperar a confiança do país. Não são só estes quatro anos de “austeridade” e a incompetência política com que o Governo executou o programa da troika. É a singular esterilidade de quase tudo quanto fez. O grande partido “reformista” não reformou coisa nenhuma. Na essência, Portugal está como estava antes, com menos dinheiro. O primeiro-ministro transformou, ou deixou transformar, o debate político numa interminável conversa em calão económico, que ninguém percebe e porque verdadeiramente ninguém se interessa. O mortal comum olha para o “ajustamento” com desespero e com medo. E, por mais que Seguro o desconsole, quer outra coisa, seja ela qual for. Não há truque, não há manha, não há justificação ou argumento que alterem este facto básico. No Coliseu, a gente do PSD encontrou entre si algum conforto. Cá fora, o país assistiu ao espectáculo com desdém. A eleição para o Parlamento Europeu e, a seguir, as legislativas irão mostrar a fraqueza do partido. É um mistério como Passos Coelho e a sua corte conseguem imaginar que “empobrecer” os portugueses, liquidar uma boa parte da classe média e tirar o futuro às gerações que tão iludidamente se “qualificaram” é uma política esquecível e perdoável. Era necessário? Acredito. Mas para cada um de nós a necessidade não aliviou nada. Sócrates não compreendeu ainda que morreu em 2010. O actual primeiro-ministro já suspeita que vai morrer em 2014 ou 2015, principalmente quando o país descobrir, com espanto e com terror, que a “austeridade” irá durar mais quinze ou vinte anos. A despedida do PSD chegou na altura certa.»

 

Vasco Pulido Valente, Público

 

Foto: Sol

One man show

João Gonçalves 22 Fev 14

 

E Cristo desceu à Terra, vindo da Madeira, para aterrar no Coliseu. Marcelo estragou a prosápia eleitoral de Paulo Rangel que tinha acabado de ter sido "revelado" como cabeça de lista da maioria -  não exclusivamente social-democrata, como em 2009, mas como testa de ferro da previsível "cedência" de eurodeputados do PSD ao CDS em Maio - às europeias. "Obrigou" Passos Coelho a assistir, na primeira fila, à apresentação de um "programa" de uma candidatura presidencial (embrulhada, é certo, num delíquio histórico-partidário) recusada na moção que será aprovada pelos mesmos congressistas que o aplaudiram fervorosamente. De caminho, terá provocado um sorriso amarelo no "neo-barrosismo" que é agora o mais recente aliado do presidente do partido e primeiro-ministro, traduzido na ascensão de Matos Correia, nas lambuzadelas de Morais Sarmento (que, tão rapidamente como os inventou, fez desaparecer o "ano bipolar" e o "semestre negro "pós-troika)  e no regresso precoce de Miguel Relvas. Falta apenas o "momento Santana". Mas o congresso começou e acabou com Marcelo. As coisas são o que são.

Para trás

João Gonçalves 22 Fev 14

"Não deixar ninguém para trás" era um propósito original do PSD quando se lançou nas eleições de 2011. Isso passou para o programa do governo. Infelizmente não passou para a realidade. Nesse aspecto falhámos. Lamento que o primeiro-ministro substituísse esta evidência pela falácia de "um país melhor". Ou, na versão aparvalhada de Luís Montenegro, um país melhor com a vida das pessoas não melhorada. Falhámos e ninguém pede desculpa por isso. Pelo contrário, vejo as elites do PSD desfilarem na televisão ao som e fúria deste tropismo enganador como pobres figurantes num filme da malograda Shirley Temple. Nessa já longínqua primavera de 2011, uma vez dirigi-me ao presidente do PSD e afirmei-lhe que tinha a obrigação moral e política de ganhar aquelas eleições. Precisamente por causa das pessoas. Ora ao deixar-se afinal as pessoas para trás, havia pelo menos a obrigação moral e política de reconhecer o falhanço. Não é, porém, isso que se está a passar na Rua das Portas de Santo Antão. O tom geral, jubilatório e lubrificador, perpetua uma ilusão e ofende a vida das pessoas que não estão ali. Dizem que é o congresso "mais ideológico de sempre" por causa da "matriz social-democrata". Só se aludem às modernaças plataformas interactivas sobre os 40 anos da história do PSD que ornamentam o átrio do Coliseu. Mas isso é outra falácia. Porque a história do PSD, como a das pessoas, também ficou para trás.  

"Teses" para o Coliseu dos Recreios

João Gonçalves 21 Fev 14

 

Começa mais um, o 35º, congresso do PSD. Passa-se no Coliseu de Lisboa e, em princípio, servirá para jubilar o actual presidente do partido, o "sucesso" das suas políticas governamentais e a "nova normalidade" que mais não é do que a institucionalização definitiva da "tanga" de 2002 do venerando dr. Barroso. Em vez de Relvas, há Marco António, e mais um ou outro moço obscuro, para a intendência das pseudo "tendências" e dos lugares. Alguns ministros estão intimados a derramar sobre o "futuro", com base no extravagante passado próximo, porventura com a obrigação de mostrar a Bruxelas e ao FMI a "superioridade moral" do friso governativo doméstico presumivelmente encimado pelo fatal Crato. A cabeça, menos estimulante do que há cinco anos, do dr. Paulo Rangel será consagrada para a improvável lista conjunta das eleições europeias e decerto brindará os congressistas com uma lancinante exposição acerca das virtualidades burocráticas da política "europeia" para a paróquia. Se a social-democracia pairasse no Coliseu, a conversa seria outra. Por exemplo, Paulo Trigo Pereira aponta algumas "teses" que um congresso social-democrata (e não um rendez-vous de línguas de pau irrelevantes e reverenciais) devia discutir nesta altura:

 

«Os nossos dois problemas essenciais não estão resolvidos. O fardo da dívida pública está a aumentar e o crescimento neste ano será ainda fraco. Em 2014, o peso da dívida pública bruta no PIB deverá chegar aos 137% do PIB, (embora haverá 8,7% em depósitos), quando em em 2010 era de 94%. O défice em 2013 foi ainda excessivo.»

 

«As famílias definitivamente não saíram da crise. Em 2010 os pedidos à DECO relacionados com sobre-endividamento eram 11960 e têm vindo sempre a crescer, quase triplicando em 2013 (29214). Porém, os processos em que a DECO consegue abrir processos para renegociar a dívida junto dos bancos, cresceu até 2012, mas reduziu-se em 2013, não porque as famílias não necessitem, mas porque já não têm rendimentos suficientes para renegociar essa dívida.»  

 

«Não existe governação económica nem na UE nem na zona euro. Aquilo a que se chama 'governação económica', não são mais de um conjunto de regras e procedimentos praticamente iguais para todos os países  - o “six pack” o “two pack” ou o tratado orçamental.»

 

«A União bancária é muito importante e está avançar, mas não com a velocidade desejável. Vão ser concluídos, espera-se, dois pilares fundamentais – a supervisão e regulação europeia e os mecanismos de resolução bancária – mas faltará um muito importante, a garantia de depósitos. Este é essencial para evitar novas crises e o pânico dos agentes económicos em situações de perca de confiança, mas muito dificilmente a mutualização dos riscos dos depósitos passará  em alguns países.»

 

Como escreve Vasco Pulido Valente no Público, «nunca como hoje houve uma tão larga indiferença pelo nosso destino colectivo, ou seja, pela história e pela cultura, que nos trouxeram onde trouxeram. As causas da desgraça em que vivemos e do esquálido futuro que aí vem são vagamente distribuídas por erros que toda a gente cometeu, pela intrínseca perversidade da política ou pela maléfica influência do estrangeiro. Sobre aquilo em que Portugal se tornou no fim do século XIX e no século XX nem uma palavra. É como se o país só existisse desde 2010, a partir do fracasso da democracia e da iminência da bancarrota (...). Agora, ninguém se importa com a natureza de Portugal.» Ninguém. Muito menos os congressistas do Coliseu.

 

Adenda: Depois de escrito este post, deparo com uma entrevista do Luís Montenegro com este extraordinário oxímoro político no título: «a vida das pessoas não está melhor mas o país está muito melhor.» Das duas, uma. Ou o Luís ignora o país em que vive, ou ignora as pessoas que vivem no país. Qualquer das hipóteses é má de mais para ser verdadeira.

A nova ecologia

João Gonçalves 17 Fev 14

 

O Pedro Santana Lopes já estará esquecido da "nova esperança" dos idos de 80, do tempo em que o PSD era vivo? Ou do que o seu muito justamente idolatrado Sá Carneiro dizia da "casa" antes do famoso congresso do "Cinema Roma"? Ou das cartinhas do prof. Cavaco ao então líder e 1º ministro Balsemão, normalmente enviadas politicamente via "nova esperança"? Ou do entra e sai libérrimo de pessoas como o próprio Sá Carneiro, Mota Pinto ou o actual MNE Machete? Que "ecologia" quer PSL para o PSD? A da Coreia do Norte?

"Um produto de gente mal formada"

João Gonçalves 1 Fev 14

«A frase da moção de Passos Coelho sobre a “apropriação excessiva dos direitos das gerações futuras por parte das actuais gerações” é prenhe de significado político e ideológico, mas deve ser combatida sem transigências. É má no plano político e falsa no seu conteúdo. Quem define o que é “excessivo”? Como se pode arrogar de “defender” os “jovens” quem degrada as suas condições de vida actual, inclusive ao atirar os seus pais e avós para a pobreza, e quem empurrando-os para o desemprego, a emigração ou para a precariedade, lhes estraga o presente e o futuro? E que “futuro” vão ter, sendo menos qualificados e com salários mais baixos, “ajustados”? É retórica que usa a juventude para garantir uma nova hierarquia social de poder, mas nada mais do que isso.Mas não é só isso. A frase também é má no plano da moralidade social, gera gente má e indiferente aos estragos que faz na vida alheia, gente que perante qualquer problema tende a de imediato culpabilizar sempre os mais fracos, e assenta no uso do poder do Estado para atacar quem tem pouca defesa e nenhum recuo no meio ou no fim da vida. Até porque a juventude defende sempre os mais jovens, dá-lhes mais mobilidade e oportunidades, por poucas e difíceis que sejam, e a idade adulta, que é a do “desemprego de longa duração” e a da velhice, que é a dos cortes nas reformas e pensões, essas não dão oportunidade nenhuma. Para eles, não há “impulso” nenhum, são aqueles para quem existe apenas uma sanção moral pelo seu “culto da gratificação imediata e da consideração de curto prazo em desfavor da reflexão prospectiva”. Este é o produto de gente mal formada, como se dizia antigamente.»

 

José Pacheco Pereira, Público

O não-protagonista

João Gonçalves 31 Jan 14

Se «o Presidente deve comportar-se mais como um árbitro ou moderador, movendo-se no respeito pelo papel dos partidos mas acima do plano dos partidos, evitando tornar-se numa espécie de protagonista catalisador de qualquer conjunto de contrapoderes ou num catavento de opiniões erráticas em função da mera mediatização gerada em torno do fenómeno político», então as coisas começam a estar facilitadas. Quer no que concerne ao não-protagonista desejado, quer quanto às "opiniões" que esse futuro não-protagonista deve exibir: certinhas, arrumadinhas, nada "erráticas" e escritas numa língua de pau reconhecível e aceitável no "meio" e pelos "nossos". Em suma, uma confirmação, uma obrigação e uma missão. E uma pena. Porque há mais marés que marinheiros.

Passos terrenos

João Gonçalves 27 Jan 14

Há muito tempo que Passos Coelho não fazia um "discurso" tão bom. O reeleito presidente do PSD, depois de apurados os votos, deu uma valente canelada no relógio demagógico do dr. Portas quando alertou para a circunstância de no dia 18 de Maio continuarmos com as mesmas restrições e constrangimentos "austeritários" da véspera. E também "suavizou" o "milagre" económico do dr. Lima ao afirmar, muito sensata e realisticamente, que não há "milagre" algum à espreita com o bonito cenário das montanhas de Davos por enquadramento. Entretanto soube-se que o inefável vice PM vai receber um prémio qualquer pelo seu glorioso contributo para as relações luso-américo-latinas. De facto, só à Venezuela, o "coordenador económico" do governo já foi quatro vezes sem que ninguém tivesse escrutinado os respectivos resultados. O dr. Passos, com esta gente e apesar dos votos e do seu acrisolado "realismo", ainda tem muito que penar.

O "indesejado"

João Gonçalves 19 Jan 14

 

Marcelo comentou a chamada "moção de estratégia" do dr. Passos na parte que alegadamente lhe diz respeito, as próximas eleições presidenciais. E considerou que Passos "considera" a sua putativa candidatura "indesejável". Pelo caminho, e fazendo uso de uma acta da reunião da direcção do PSD na qual ninguém se opôs à trapaça do referendo, acabou por sugerir que o mesmo dr. Passos e a verdade podem nem sempre coincidir: nessa unanimidade estava, à cabeça, o presidente do partido. E ainda teve tempo para questões de má educação. Passos podia ter-lhe telefonado a comunicar que não o queria em vez de permitir que o "recado" fosse passado aos jornais, como sugeriu, sorridente, o visado. Marcelo descreveu o cenário da moção de Passos no condicional. Ora Passos não conhece a conjugação condicional "se". E o país terá a infelicidade de constatar, depois do mítico "17 de Maio", que nada de substancial mudará na vida difícil das pessoas. Não há paraísos artificiais a não ser na literatura. E Marcelo não é pessoa que convenha ter-se por inimigo. Decerto que, na sua loquacidade semanal, jamais se esquecerá do qualificativo "passista", o "indesejado".

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