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portugal dos pequeninos

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O futuro não se recomenda

João Gonçalves 27 Jun 14

 

«O governo de Sócrates, ajudando entusiasticamente à bancarrota, e o de Passos Coelho, que andou sempre a tropeçar em contradições, mudanças de estratégia, polémicas sem sentido e reformas falsas, tiraram ao executivo o vago prestígio com que saíra de um pequeno período de prosperidade, inteiramente devido aos subsídios da “Europa” e, a seguir, ao euro. Hoje ninguém confia em nenhum ministro, a começar pelo primeiro-ministro. Sofremos, por impotência e por desespero, uma anarquia mansa de que ninguém vê o fim e a que muita gente se resignou. O Presidente da República, ansioso por evitar sarilhos no último ano do seu mandato, prega docemente aos peixes, sem se importar que o ouçam ou não ouçam e, de facto, a generalidade dos políticos não o ouve. Quase não vale a pena falar da extrema-esquerda. O ódio fraternal entre os vários grupinhos, que em conjunto a formam, não tem diluição ou concerto, como se viu em 25 de Maio. Os chefes são personagens de comédia ou aventureiros sem vergonha. Para ajudar à história, o PS resolveu cometer em público um suicídio longo e degradante, que o deixará dividido por muito tempo. Nem Costa, nem Seguro devem pensar que, lavada a roupa suja (que aparentemente é inesgotável), as coisas voltarão à ordem e tranquilidade do passado. Não voltarão. Cada um se ilude a seu gosto. Mas também Coelho e Portas aceitam ainda o absurdo postulado de que o PSD e CDS resistirão a quatro anos de “austeridade”. Erro deles. Seja como for, a República está presa por arames. E o futuro não se recomenda.»

 

Vasco Pulido Valente, Público

"Como raio estas coisas nos podem suceder?"

João Gonçalves 20 Jun 14

«Qualquer indivíduo com mais de seis neurónios pode ver que a aventura da selecção portuguesa duplica em miniatura a aventura do défice e da dívida. Primeiro, o silêncio, até cairmos sem remédio no fundo do poço. A seguir, o espanto fingido ou a corajosa afirmação de irresponsabilidade. E, no fim, acusações sobre acusações, para disfarçar o facto de que toda a gente colaborara no desastre. Nós, como Ronaldo, somos manifestamente os “melhores do mundo”. Só que, de quando em quando, nos cai a Alemanha na cabeça ou uma dívida inexplicável, que levará a pagar 30 e tal anos. Como raio estas coisas nos podem suceder?»

 

Vasco Pulido Valente, Público

Da espetada de baratas a Ronaldo

João Gonçalves 18 Mai 14

 

«Não se percebe o que o dr. Cavaco e a mulher do dr. Cavaco, com uma comitiva de cem empresários (de quê?) e uns tantos ministros, foram fazer à China. É muito compreensível que a China apeteça a quem gosta de viajar: há a “cidade proibida” para ver e uma espetada de baratas para comer. Melhor ainda, numa “visita oficial” não se espera no aeroporto e um exército de senhores mesureiros abre as portas em toda a parte e sabe onde são os melhores restaurantes. O dr. Cavaco andou sempre muito bem-disposto, com os privilégios que o seu cargo lhe oferece. Mas, para consumo interno, inventou uma teoria para vender ao Presidente lá da terra e, suponho, para impressionar o indígena de cá. Nem os jornais, nem a televisão disseram que espécie de efeito tinha tido este esforço intelectual. A teoria é de facto impressionante e com certeza ficará na história com o nome de “o ponto e o triângulo”. Convém explicar. Segundo o dr. Cavaco, a China deve fazer de Portugal o seu “ponto de entrada” na Europa e poderemos por isso esperar daqui a pouco tempo dezenas de milhões de chineses a desembarcar por essa costa com biliões de coisas para vender à Finlândia ou à Dinamarca, a pretexto de que Sines fica mais perto dos mercados do que, por exemplo, Dover ou Southampton. E Cavaco não pára nesse pequenino “ponto”, quer também que Portugal sirva de intermediário entre Pequim e os PALOPS, que andam ansiosos por arranjar quem tome conta deles, para os defender da roubalheira geral do Ocidente. Esta parte “triângulo” da teoria mostra bem a profundidade de espírito do nosso inspirado Presidente. Só que o sr. Xi, apresentado ao ilustre representante dos nossos navegadores, e pretendendo ser amável, puxou pela cabeça e, depois de muito puxar, saiu com um único nome: Ronaldo. Não se julgue que um homem tão sério como ele planeava trocar Ronaldo pela importação imediata de 300.000 pastéis de Belém, com o intuito perverso de pôr Ronaldo a ensinar futebol a um bilião de chineses e transformar a China em campeã do Mundo e da Europa. De maneira nenhuma. Na bruma, que certamente é o resto da terra para um mandarim, o sr. Xi não se lembrou de mais nada sobre Portugal. Na sua sereníssima cabeça, Portugal é Ronaldo e foi mesmo uma trabalheira para o convencer que o próprio Cavaco, apesar da sua idade avançada, não era Ronaldo. De qualquer maneira, esta viagem serviu para afastar as nuvens que existiam entre os dois grandes países, para nos revelar o fundo do pensamento do nosso querido presidente e para ele descansar durante a campanha eleitoral.»

 

Vasco Pulido Valente, Público

Uma triste procissão

João Gonçalves 2 Abr 14

«Vamos «regressar aos mercados» em 2014 num trapézio com uma rede rarefeita, tecida pelo EUROGRUPO - ou seja por uma nova troika ad-hoc isenta das perplexidades do FMI - em sucessivas reuniões, de finais de Janeiro até 1 de Abril. Há tudo a temer desses ministros das Finanças sem pinga de sentido do que possa ser o «interesse geral» da zona euro. Disse-o desassombradamente o ministro da República de Irlanda quando anunciou o desinteresse de Dublin por um «programa cautelar» porque receava que esse processo negocial- de que o seu governo tudo desconhecia ainda no final de Novembro- pudesse acabar «pelas três da manhã, em Dezembro, transformado numa espécie de nova crise irlandesa por muitos ministros sequiosos de aparecerem como campeões do rigor perante a opinião»! Não estaremos isentos dessa oscilação entre um paternalismo patético e ofensivo e a pressão para fazer de Portugal uma cobaia do primeiro ensaio intergovernamental do até aqui virgem Mecanismo Europeu de Estabilidade Financeira. Sem novas eleições em Portugal chegaremos fracos e desarmados a essa prova de fogo da invenção de um programa cautelar intergovernamental. Ainda por cima somos uma população em decadência, com cada vez menos habitantes, com uma baixa de natalidade superior a qualquer outro período contemporâneo a que se hão-de acrescentar as estimativas da Comissão Europeia apontando para um decréscimo da população residente de cerca de 130.000 pessoas empurradas pela «ordem para emigrar» explícita em algumas medidas do «Memorando de Entendimento». Portugal será assim o único país sob resgate a perder recursos humanos até 2015, uma altura decisiva para as tarefas de reconstrução e crescimento. Só alguns países do leste nos acompanham nessa triste procissão: Bulgária, Croácia, Estónia, Hungria, Letónia, Lituânia e Roménia.»

 

José Medeiros Ferreira, Córtex Frontal, 31.12..2013

A vantagem gaulesa

João Gonçalves 31 Mar 14

 

Sem eleições presidenciais ou para a Assembleia Nacional, e após uma derrota brutal nas autárquicas, François Hollande nomeou um novo primeiro-ministro, Manuel Valls, um social-democrata do PS e, até agora, ministro do interior. Os problemas da França, salvaguardadas as devidas distâncias, são semelhantes aos nossos: desemprego, ausência de crescimento, diminuição do rendimento disponível. E os socialistas gauleses têm exercido o poder praticamente da mesma forma que os governos de centro-direita na Europa da chanceler Merkel. Infelizmente o sistema de governo doméstico não permite a substituição do primeiro-ministro nos termos constitucionais em que é possível fazê-lo em França. Porque, se fosse, Passos Coelho deveria ser substituído, depois das "europeias" e do encerramento formal do programa de ajustamento, por outra personalidade oriunda do PSD uma vez que não parece verosímil a ocorrência de eleições legislativas antes do próximo ano. O primeiro-ministro evidencia, sempre que pode e com aparente gosto, que se "esgota" politicamente no cumprimento do programa que termina em Maio e na consolidação orçamental, custe o que custar. Assim auto-limitado e auto-complacente, revela não possuir qualquer outro desígnio para o país que não seja o de puxar a vida das pessoas para baixo por conta de uns poucos "indicadores" variáveis para cima. É curto.

Portugal em transe

João Gonçalves 20 Mar 14

«Medeiros Ferreira utilizou os últimos meses de vida a pensar no futuro de todos nós. Meditou sobre a encruzilhada dolorosa de Portugal e a sua umbilical ligação à crise europeia. Escreveu uma obra para ser lida com muita atenção, Não há Mapa Cor-de-Rosa. A História (Mal)Dita da Integração Europeia, Lisboa, Edições 70, 2013. O livro analisa as raízes, paradoxos, caminhos perdidos e esperanças de uma Europa que tenta salvar-se da sua pulsão suicidária, e de um Portugal que procura encontrar uma habitação pós-imperial no seu continente originário. O autor não esconde as dificuldades. Sem recusar a "inspiração federal" adverte: "As perspectivas comunitárias vão mais num sentido centralista e burocrático do que numa via federal e política. A "governação económica" da UE, como se está a desenhar, é o contrário do federalismo" (p. 141). Recorda-nos Mendés France, esse grande político francês de origem portuguesa, que em 1957, na alvorada da CEE, nos advertia para os riscos de a política europeia ser capturada por uma tecnocracia indiferente à justiça social. Aconselha prudência: Portugal não pode sair da zona euro para cair num "isolamento" trágico. Aponta-nos o caminho da luta por Portugal. Dentro de uma Europa que também é nossa por direito próprio. Uma certeza: "Não pode haver aprofundamento da União sem aprofundamento da democracia a todos os níveis" (p.155). A prudência rima sempre com coragem, eis a lição do estadista.»

 

Viriato Soromenho-Marques, DN

 

«Loureiro dos Santos, Vasco Cordeiro, Mário Soares e Ramalho Eanes, em breves discursos, referiram-se à vida, à obra e ao pensamento de Medeiros Ferreira. A inteligência também pode comover. Ouvindo-os, passámos em revista o percurso desse açoriano, paradoxalmente nascido no Funchal, que marcou os nossos tempos e as nossas vidas. Ali estavam a exposição da memória de um homem que nunca foi simples, jamais cedeu ao impulso da vulgaridade e que nos deixa um legado de uma subtileza rara. Ao ouvi-los, não poderíamos deixar de estabelecer um paralelo com os tempos presentes. Por vezes, aos 49 anos, sinto a nostalgia de outras épocas. Será isso a primeira manifestação dessa estação etária, hoje tão amaldiçoada e outrora tão respeitada, as primícias da velhice? A verdade é que, olhando para o discurso preponderante na actualidade, temos tendência a sentirmo-nos póstumos em relação a nós próprios. Quando ouço ministros, secretários de Estado, editorialistas da moda a falarem da Europa, da crise e da questão da dívida, com o dogmatismo que a ignorância proporciona, lembro-me desses homens políticos, hoje tão raros, que conheciam a História. Valerá a pena aconselhar a leitura do último livro de Medeiros Ferreira a essa gente? Infelizmente, não tenho a certeza. Nesta época em que o lugar-comum, o soundbite esperto e a pequena astúcia prevalecem no pensamento rigoroso e profundo, parece destinado a uma condição menor.»

 

Francisco Assis, Público

 

«Portugal afunda-se completamente, não parecendo capaz de tomar qualquer decisão soberana. Basta alguém sequer aventar essa hipótese, como sucedeu com o manifesto dos 74, hoje cada vez com mais apoios, para ser imediatamente acusado de crime de lesa-majestade, por indispor os verdadeiros soberanos, neste caso os credores. Como já aqui escrevi, esta situação começa a parecer-se com o fim do Estado Novo. Os nossos governantes passaram a dedicar-se exclusivamente à encenação. O actual Primeiro-Ministro, numa prática inaugurada pelo seu antecessor, passou a ir a despacho a Berlim, o que considera um acto de grande soberania. De lá, ao lado da verdadeira soberana, pretende convencer-nos que a Alemanha aguarda com expectativa a decisão do Governo Português, e que a apoiará qualquer que ela seja. Como se nós não tivéssemos percebido que a decisão já foi tomada pela chancelerina alemã, e que o Governo se limitará a executá-la. Porque se não o fizesse, nas imortais palavras do outro, estaria o caldo entornado. Vai estar de qualquer maneira, mas para quem conta isso pouco importa. Mas a encenação mais grave foi a do Presidente na sua comunicação de ontem. Pretendeu, em primeiro lugar, convencer-nos que, depois de uma audição aos partidos políticos, tinha decidido marcar a data das eleições europeias para 25 de Maio. Como se nós não soubéssemos que essas eleições estão marcadas pelo Conselho Europeu desde 14 de Junho passado, só podendo os Estados-Membros decidir sobre se se realizam entre a quinta-feira e o domingo, sendo que o Reino Unido opta habitualmente pelo primeiro dia e os restantes Estados-Membros pelo último. Em segundo lugar o Presidente, numa nova versão de que a pátria não se discute, pede aos partidos políticos que apenas discutam os temas europeus e não os nacionais. Estou mesmo a imaginar um debate entre os portugueses sobre se o melhor presidente da Comissão será Alexis Tsipras, Martin Schulz, Guy Verhofstadt, ou Jean-Claude Juncker. Depois o Presidente pede aos portugueses que sejam bem comportados, e evitem crispações, para não prejudicar os "futuros consensos", que naturalmente outros se encarregarão de decretar. E finalmente o Presidente termina dizendo que o futuro da Europa é o futuro de Portugal. Esta frase lapidar significa apenas que o país já não tem futuro. Como num prefácio recente o Presidente fez questão de explicar.»

 

Luís Menezes Leitão, Delito de Opinião

 

«É verdade que o manifesto dos 70 isola Passos Coelho no seu fanatismo que exclui qualquer alternativa. É também inegável que ele expõe Cavaco Silva no seu ziguezagueante conformismo. Mas é preciso mais, muito mais, sobretudo se se quiser aproveitar a oportunidade para dar consistência às alternativas possíveis e mobilizar os portugueses para a sua concretização. Porque ou o manifesto corre o País, ou morrerá na secretária dos seus autores. Seria por isso muito útil - é a minha proposta - que se constituísse um "comité do manifesto" com meia dúzia dos seus subscritores, que promovesse reuniões públicas para discutir e avaliar iniciativas, propostas e timings, dando-lhe abertura e interação mediática com a criação simultânea de um site. Neste contexto de pré-campanha para as eleições europeias que já se vive, o momento é o ideal. Porque o que falta ao manifesto, por paradoxal que tal possa parecer, é precisamente ambição política. Isto é, capacidade e arte para traçar as trajectórias concretas que respondam aos nossos problemas, tendo em conta as circunstâncias actuais e as que já se pressentem. E de o fazer - este ponto é fundamental - com uma linguagem que não reproduza o insuportável europês tecnocrático que é hoje o primeiro instrumento de dominação da "pensamento único" austeritário. Precisamos de novas perspectivas e de novas propostas, mas também de novas palavras. Como um dia ensinou Freud, "quando se começa a ceder nas palavras, acaba a ceder-se nas coisas..."Deslocar o debate do défice para a dívida é, a meu ver, o maior e o melhor contributo do manifesto. Porque é aí que se concentram os maiores equívocos e reside o maior problema.»

 

M.M. Carrilho, DN

 

«O que afectou o establishment, que vai muito além do Governo, no Manifesto dos 70, foi a questão ser colocada em termos políticos. Traduziu-se assim a consciência que qualquer pessoa pode ter, rudimentar economista que seja. de que a nossa dívida é impagável mesmo com as mais optimistas taxas de crescimento dentro do domínio da realidade e não da ficção científica. Aliás, quando perguntados à bruta - como se deve perguntar aos governantes para não fugirem com subterfúgios - sobre como é possível diminuir a divida para os valores do pacto orçamental, nos prazos do mesmo pacto, ou vão para os longuíssimos prazos da economia (em que, como dizia Keynes, estamos todos mortos) ou para os impossíveis prazos da política em democracia. O Presidente fez isso e, apontando números de crescimento que todos sabem não ser realistas, chegou a mais de 20 anos do mesmo. Portanto alguma coisa tem de acontecer, a bem ou a mal. É muito provável que aconteça, na melhor das hipóteses, no contexto europeu a reboque de idênticos problemas da França e da Itália e que sobrem algumas migalhas para nós. Então essas migalhas, sob a forma de uma qualquer reestruturação da dívida, serão saudadas como sendo no tempo certo. No entretanto encolhemos, empobrecemos, subjugamo- nos e, como de costume, quem paga esse preço nem sequer terá tempo de vida para receber as benesses possíveis. De quê? Da reestruturação da dívida concedida como uma esmola e não como urna política...»

 

José Pacheco Pereira, Sábado

O "pastel"

João Gonçalves 7 Mar 14

 

«Para explicar o que foi o “consenso” em Portugal, talvez seja melhor começar pela Carta Constitucional de 1826, “outorgada” por D. Pedro IV. A Carta pretendia reconciliar o radicalismo “vintista” com o antigo regime, e a alta nobreza tradicional com a classe média e a plebe das cidades. Não se dizia “consenso” nessa altura, mas mais gramaticalmente “compromisso” e, em certos casos, “fusão”. O compromisso de 1826 provocou uma guerra civil que durou com intermitências para lá de 1834 e definiu uma regra básica: não podia haver entendimento de espécie alguma entre a esquerda e a direita, com o Estado em bancarrota e fome no país. Por isso, mesmo depois da vitória e a perseguição aos miguelistas, não houve paz que durasse entre campeões da liberdade. Com outros protagonistas, o ódio fervia como na véspera. Em 1836, o radicalismo do Exército e da plebe de Lisboa resolveram abolir a Carta e combinaram com a rainha (que resistiu) pôr simultaneamente em vigor a Carta e a Constituição de 1822. Portugal, num exemplo de “fusão” a que toda a gente chamava o “pastel”, ficou com duas Constituições, enquanto se preparava a terceira para as substituir. Essa terceira devia ser “o mais parecida possível” com a Carta, para contentar os “revolucionários” de Setembro e o partido com quem eles tinham alacremente corrido. Em 1838, estava pronta e tomou o nome solene de “Ordem”. Não existiria desordem porque, em princípio, o acordo era universal. Só que não era e a “Ordem” deslizou suavemente para a direita e acabou a restaurar a velha Carta (de 1826 e 1834) em 1842. Costa Cabral,  o dono da nova situação, imaginou então fabricar um compromisso pela força, o juste milieu. Aguentou com dificuldade quatro anos e caiu com uma guerra civil, a da “Patuleia”. O Estado devia ao mundo inteiro e a fome continuava. Em 1851, Saldanha, apoiado por uma intervenção prévia da Espanha e da Inglaterra, estabeleceu a concórdia universal e Fontes Pereira de Melo sustentou essa concórdia com dinheiro da Inglaterra e da França. Veio logo a época dourada da “Regeneração”, com um pequeno intervalo (cinco anos) em que a diminuição em quantidade e valor das remessas do Brasil levou os partidos que andavam em litígio fingido a uma verdadeira “fusão”, em que partilharam irmãmente Portugal. A fome não apertava tanto e o Estado parecia solvente. Em 1890-1893, a ilusão morreu. Dali em diante, como entre 1817 e 1851, uma guerra civil larvar ou activa não deixou os portugueses. Salazar, com a censura, o Exército e a polícia política, abafou essas longas festividades. Hoje, o Governo que fala em “consenso” e o PS que o recusa por razões triviais não percebem que o “consenso” implica um Estado com dinheiro, e muito dinheiro, e crescimento económico. Não sabem história.»

 

Vasco Pulido Valente, Público

Portugal está "desempregado"

João Gonçalves 22 Fev 14

 

«Não há um cantinho da nossa vida que não se compare com a Europa e não há triunfo que não consista em encontrar semelhanças entre as coisas de lá e as coisas de cá. Por outro lado, os governos proclamam a nossa singularidade atlântica ou (nos casos de incurável loucura) mundial. O país balança entre um "papel" na Europa, que não encontrou, e um "papel" em Angola, no Brasil ou numa selva qualquer da África ou da Ásia, que manifestamente o excede. De qualquer maneira, como lamentava Eça, nesta apregoada época de "globalização", Portugal está "desempregado". Ninguém precisa dele e ele precisa urgentemente de sair da sua velha irrelevância. Imitando, sem imitar, claro. Como de costume e com os resultados do costume.»

 

Vasco Pulido Valente, Público

 

Foto: Vítor Rios/Global Imagens

A bordo do porta-aviões

João Gonçalves 20 Fev 14

 

 

 

«Há um antes e um depois da crise do Verão passado. Até então prevalecia uma obsessão programática que tinha fundamento, horizonte e sentido. Estava errada, a meu ver, pela razão simples de descurar uma rigorosa avaliação da realidade. Agora o que subsiste é outra coisa: um discurso que vagueia entre a propaganda e o lugar-comum, desprovido de projecto e igualmente distante da realidade nacional. Este livro de Maria João Avillez e Vítor Gaspar tem, entre outros, um inegável mérito: confronta-nos com a distância que existe entre o erro da inteligência e o erro da mediocridade. Dir-se-á que o resultado é o mesmo. Infelizmente não é: o erro da mediocridade tem sempre um especial deficit de grandeza.»

 

Francisco Assis, Público

 

 «O combate da exclusão, da perpetuação institucionalizada da desigualdade e da desigualdade social, associado à vital necessidade de mecanismos de mobilidade social, em que o estado tem um papel fundamental, são as bases de uma política alternativa em que quem governa mantém uma empatia essencial com o destino dos portugueses, mantendo um sentido de pertença e de comunidade. Exactamente o contrário do que tem acontecido, em que um discurso punitivo do viver acima das suas posses legitima uma espoliaçáo brutal de recursos dos do meio, dos de baixo . Mais do que isso - e disso o PS não fala e permite -, o afunilamento e a destruição dos canais que permitiam uma mais justa distribuição dos rendimentos, por exemplo, como o pagamento do trabalho. É que se esquece que quando se paga um salário não se está a fazer um acto de caridade que se pode encolher a seu bel-prazer, mas a retribuir trabalho e esse trabalho tem valor social e económico. Estas políticas alternativas não são nem as do PCP, nem as da extrema-esquerda, como a enorme deslocação à direita do espectro político pode levar a crer e alguns ignorantes papagueiam como acusação. São politicas na tradição social-democrata e é tal vez por isso que muitos sociais-democratas e alguns democratas cristãos têm sido mais eficazes a combater - a palavra é mesmo essa - o programa de desigualdade social assente numa hierarquia de poder, dinheiro e establishment, do que os socialistas. O que não se pode admitir é que o discurso da retoma, da recuperação económica, seja sempre apresentado como tendo como condição não haver qualquer recuperação social . É por isso que o Governo, ao mesmo tempo que mantém e justifica manter milhões de portugueses numa perspectiva de depressão social prolongada para décadas, pode considerar que tem alguma coisa para festejar.»

 

José Pacheco Pereira, Sábado

 

 «Infelizmente, como certamente vamos confirmar no próximo fim de semana com o Congresso do PSD - mas podia ser de qualquer outro partido - a situação mantém-se inalterada, o apocalipse partidário continua sem nenhum verdadeiro fim à vista. Na verdade, o que hoje é preciso é começar a olhar mais para a sociedade do que para os partidos, deixando de fazer deles os bodes expiatórios do que a sociedade não quer, ou não consegue, ver. Talvez assim se compreenda melhor porque é que, apesar de tantas e tão contundentes críticas aos partidos que temos, não aparece de facto nenhuma alternativa, ou seja, nenhum partido mais aberto, mais credível, mais inovador, mais mobilizador, mais dedicado ao bem comum, enfim, mais virtuoso. E a resposta a este impasse encontra-se na sociedade, não se encontra nos partidos.»

 

M.M.Carrilho, DN

 

 «Ao contrário do que se diz, poucas instituições conhecem a macroeconomia portuguesa tão bem como o FMI. Eles não nos visitaram três vezes - estão cá desde a primeira. Nunca saíram de Portugal, há mais de trinta anos que têm delegação fixa e tê-la-ão pelo menos mais vinte, para cuidar dos seus empréstimos. Não são senhores de preto que aterram e descolam. Eles estão. É o FMI, não o Bloco de Esquerda, que escreve: "O ajustamento externo tem sido conseguido, em larga parte, devido à compressão das importações de bens que não sejam combustíveis e, ultimamente, ao crescimento das exportações de combustíveis". É o FMI, não o PS, que prossegue: "Esta dependência (...) arrisca enfraquecer os ganhos conseguidos até à data, assim que as importações recuperarem de níveis anormalmente baixos e as unidades de refinação eventualmente esgotem a sua capacidade 'extra', ao mesmo tempo que a melhoria na exportação de serviços é vulnerável a choques à procura de turismo." (...) É um anticlímax. Oportuno. (...) A partir de meados do ano passado, o consumo privado voltou a subir, sustentando grande parte da retoma económica. Ou seja, os portugueses estoiraram parte do que haviam poupado. Isto significa que a poupança não serviu essencialmente para financiar investimentos (através de crédito bancário a empresas), mas para consumo. Olhando para os hotéis, para as vendas de "tablets" no Natal e de automóveis em Janeiro, percebe-se em quê. Há uma boa parte da nossa retoma que é cíclica. Isso não tem mal nenhum, mas ajuda a relativizar o "milagre". (....) Muitas reformas estruturais não foram feitas, começando pela anedota (já lá vamos) da reforma do Estado, que anda há mais de um ano de gaveta vazia em gaveta vazia. Perdeu-se oportunidade para reestruturar grande parte da nossa economia e a dívida pública está a um nível assustador. No final do ano passado, o Banco de Portugal surpreendeu com um relatório crédulo e optimista: a economia portuguesa, escreveu o Banco, tinha mudado para sempre. As famílias portuguesas tinham-se tornado poupadas, as empresas tinham-se tornado exportadoras, éramos um País novo. Soou mais a vontade do que a diagnóstico. Ainda desejo que o Banco de Portugal esteja certo. Mas para isso o FMI tem de estar errado. Redondamente errado. Porque o relatório que publicou hoje é paralelepipedicamente o contrário dessa crença. E logo agora que isto estava tudo a correr tão bem. PS: Finalmente, a anedota: o Governo português garantiu à troika que o guião da reforma do Estado de Paulo Portas vai transformar-se em propostas concretas em Março.»

 

Pedro Santos Guerreiro, Expresso

Os dias por vir

João Gonçalves 29 Dez 13

 

O suplemento dominical do Correio da Manhã é dedicado a 2013. Tem fatalmente Ronaldo na capa como, noutros tempos, poderia ter Amália, Eusébio, a fantástica Irmã Lúcia ou o computador Magalhães. Mais, porém do que o "balanço" por áreas - a da cultura, com o devido respeito e amizade pelo Francisco José Viegas, está devidamente emulado pela fotografia do primeiro-ministro a olhar para o tecto de um Palácio da Ajuda cheio de Joana Vasconcelos por todo o lado e com ela cheia dela mesma ao lado do primeiro-ministro - interessa-me o futuro espelhado no excelente ensaio de José Medeiros Ferreira intitulado "A troika nem sempre existiu". Medeiros Ferreira, aliás, é o autor do livro que escolheria, e aconselharia ao referido primeiro-ministro, no transe de 2013 para 2014 ou mais. Saiu na mesma editora que publica os seus gurus hiper-liberais de São Bento e, agora, das Necessidades pelo que é fácil chegar lá. Depois de o ter lido, escrevi que os ministros e outros dignitários, quando se deslocam, deviam obrigatoriamente levar na pasta o Não há mapa-cor-de-rosa, A história (mal)dita da integração europeia. No ensaio de hoje, Medeiros retoma alguns tópicos do livro e pondera os próximos e decisivos meses da vida pública nacional. Como não diria melhor, passo a citar sem mais comentários (porque os fiz no tempo e nos lugares adequados durante dois anos e,  em  especial, ao longo do pastoso mês de Julho), congratulando-me por uma amizade duradoura e sempre renovada, esperançosa e combativa como deve ser a nossa vontade nos dias por vir. «O período do advento para a saída da troika, e o consequente regresso aos mercados, foi assim em grande parte perdido no segundo semestre de 2013 pela má apreciação prospectiva de Cavaco Silva e dos seus conselheiros, e pela paralisia que introduziu no sistema da governação, prolongando por expedientes artificiosos a coligação PSD-CDS. Teve tudo nas mãos para criar novas condições de governação que preparasse melhor a saída da troika, com as duas cartas de demissão dos ex-ministros das Finanças e do MNE. Bastaria ter levado a sério o testamento de Vítor Gaspar de 1 de Julho, que escreveu ser necessária "a rápida transição para uma nova fase do ajustamento: a fase do investimento! Esta evolução exige credibilidade e confiança". Exactamente o que falta ao governo de Passos Coelho e à sua coligação com Paulo Portas. Obcecado com a necessidade de consensos entre os partidos do "arco da governação", Cavaco Silva não sabe como os estabelecer, ou se quer mesmo fazê-los. Uma coisa é certa, Passos Coelho não irá muito mais além do que esperar que o IGCP consiga colocar uns títulos no mercado dos "institucionais", trocar umas maturidades pelo aumento sedutor das taxas de juro, e esperar que o ECOFIN e o Eurogrupo ponham à disposição do Tesouro uma linha de crédito de alguns milhares de milhões. Passos Coelho é o principal obstáculo a qualquer entendimento mais abrangente para dotar a República Portuguesa de um governo capaz de responder ao choque da saída da troika. Devia sair com ela.»

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