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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

 

«Em política, Pavlov reina como mestre de cãezinhos. É tudo tão previsível, tão fácil de identificar, tão rudimentar, tão… pavloviano. Grite-se Sócrates, Costa, Boaventura, Syriza, Bagão, Louçã, Manuela, eu próprio, os gregos, Varoufakis e logo uma pequena multidão começa a salivar nas redes sociais, nos blogues, nos "porta-vozes" oficiais e oficiosos do PSD e do CDS. Muita desta raiva vem do desespero. Os melhores dias já estão no passado e as perspectivas são sombrias. É verdade que muitos aproveitaram estes anos de ouro para se incrustar em lugares de nomeação ou influência governamental. E vão continuar lá. Claro que há de vez em quando uns pequenos grãos na engrenagem. Jardim, por exemplo, do "je suis Syriza", ou Marcelo que dá uma no cravo e outra na ferradura. Mas para estes pequenos propagandistas não pode haver hesitações. É o combate final e não há "mas", nem meio "mas", é tudo a preto e branco. Ou se é grego ou alemão. Animam-se com o facto de as manifestações pró-gregas terem pouca gente, mas ignoram as sondagens que mostram que muita gente ultrapassou os argumentos mesquinhos de Cavaco e Passos e tem simpatia pelos gregos. À direita e à esquerda, porque toda a gente precisava de um assomo qualquer de dignidade nacional numa União Europeia manietada pela elite política mais autoritária e escassamente democrática que chegou ao poder nestes últimos anos. Enganam-se se pensam que são os esquerdismos do programa do Syriza que mobilizam as simpatias. É por isso que há pouca gente nas manifestações, porque elas são miméticas desse esquerdismo. Mas o que faz as sondagens maioritárias pró-gregos, a "maioria silenciosa", é a afirmação nacional, a independência, a soberania, a honra perdida das nações resgatada por um povo. É uma gigantesca bofetada nos patriotas de boca e empáfia que aceitaram tudo, assinaram tudo, geriram o "protectorado" com zelo e colaboração, e terminam o seu tempo útil servindo para fazer o sale boulot alemão.»

 

José Pacheco Pereira, revista Sábado

Ainda "lixo"

João Gonçalves 20 Fev 15

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Mesmo que ao de leve a "Europa" recuperou o lastro negocial, de boa tensão, que a instituiu. Até o "eixo franco-alemão", presentemente uma caricatura do que foi noutras alturas, se manifestou pela "segurança" do euro e pela permanência do Eurogrupo na sua presente configuração. O dr. Passos, aliás, já estava atrasado em relação a este "eixo" (ou à parte que lhe é mais simpática nele) quando, no parlamento, se pronunciou sobre países-membros que tem por pouco atiladinhos. Mesmo assim o nosso, apesar de mostrado ao mundo como "exemplar" cumpridor de programas ditos "indignos" e como pagador certinho de reembolsos a credores, não consegue sair do "lixo" da  Moody's. Constou que, entre outros, se teria "empertigado" contra as mais recentes decisões encontradas no Eurogrupo com outro Estado-membro. Também constituiria uma forma de "lixo".

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A Europa Unter den Linden

João Gonçalves 19 Fev 15

Agora é que se vai ver se a "Europa" passou a ser um diktat contabilístico Unter den Linden ou se ainda se concebe como uma união política de soberanias. E também se vai ver, ou rever, até onde chega a capacidade de agachamento de alguns Estados-membros. Quanto às "instituições" tipo Comissão Europeia, o mea culpa farsolas do sr. Juncker só será válido se corresponder, como se diz no direito, a uma declaração séria no meio do monte do estrume que representa, desde as eleições helénicas, o princípio e o fim da conversa não democrática alemã. Não há mapas cor de rosa.

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Uma "Europa" irreformável

João Gonçalves 14 Fev 15

 
«O que aconteceu na Grécia, nesta versão, é culpa do povo, não dos anteriores governos gregos. Percebe-se, porque o povo votou mal e derrotou o governo preferido por Cavaco Silva e Passos Coelho: o tandem troika-Nova Democracia. Sim, porque se o PASOK tem culpas no passado, a Grécia era até Janeiro governada por um governo membro do Partido Popular Europeu (de que faz parte Merkel, Rajoy, Passos Coelho e Portas) que foi apoiado pelos partidos no poder na Alemanha, Espanha e Portugal. E mais: foi governado pela troika, em conjunto ou em cima, e se os resultados deixaram a Grécia com a gigantesca dívida que tem, e sem “ter feito o trabalho de casa”, a culpa é de quem? Do Syriza? Silêncio. E os gregos não querem austeridade, o pecado mortal da Grécia para Cavaco e Passos. Mas o que é que eles tiveram nos últimos anos: despedimentos, falências, encerramentos, corte de serviços fundamentais, cortes na educação, na saúde, na segurança social, uma queda brutal do produto Interno Bruto? De onde é que isto veio, do esbanjamento e da preguiça inata aos gregos? Como é que se chama a isto, senão uma dura, penosa, cega, punitiva austeridade? Na verdade, como Passos Coelho diz com todas as letras: foi pouco, têm ainda que ter mais. Mas o que nem Cavaco nem Passos dizem, é aquilo que é evidente: não resultou, nem resulta, nem resultará. É uma receita errada quer em Portugal, quer na Grécia. Mas era a continuação dessa receita, aquilo a que chamam “cumprir as regras”, que Passos queria para a Grécia, com aquela cegueira que têm os acólitos e que continua mesmo quando os mestres já estão noutra (...). Ora, a questão não é a de validar o programa do Syriza, ou assinar por baixo de Tsipras e Varufakis, mas a de saber se, no fim de tudo, os gregos têm ganhos de causa ao terem votado como votaram. E se sim, como é que ficam os que tinham para eles a receita de tudo continuar na mesma, votando na Nova Democracia, na obediência à troika, e na política até agora intangível da Alemanha. Esse é que é o mal grego que Cavaco e Passos querem extirpar.»

 

José Pacheco Pereira, Público

 

«A “construção” que a burocracia de Bruxelas promoveu foi abstracta e universalista. A realidade não interessava aos “pais” dessa utopia que se veio a chamar a “União”. Não distinguiam, nem queriam distinguir, entre um luterano da Turíngia e um ortodoxo de Salónica. Distribuíam direitos e deveres como se toda a gente entendesse os direitos da mesma maneira ou tomasse os deveres igualmente a sério. E o euro, além de ser um erro técnico (hoje reconhecido e lamentado), pela sua própria natureza ignora a diferença (...). Pouco a pouco um entendimento de pura mercearia acabou por se transformar na utopia da Europa política, exemplo para o mundo e grande potência. A Grécia vivera desde o século XV ao século XIX no império turco; a Itália até quase ao fim do século XIX era parte do Império austríaco, parte do Papa e parte dos Bourbons- Sicília, que tranquilamente continuavam no século XIX; a Alemanha nasceu em 1870; Portugal e Espanha só saíram das ditaduras de Franco e de Salazar em 1974-1976. Mas que importavam a cultura e a história? No grande saco de Bruxelas cabia fosse quem fosse, lambuzado de uma retórica vácua e de mão estendida à caridade do próximo. A “solidariedade” da “Europa”, que hoje se invoca, não se manifestou em mais do que alguns subsídios relutantes, em troca de uma arregimentação que ninguém pedira ou agradecia. Quando agora os portugueses discutem com exaltação se devem ou não devem apoiar a Grécia ou juram candidamente reformar a União, não se lembram, como de costume, que o seu peso é nulo e, pior ainda, que a “Europa” é irreformável.»

 

Vasco Pulido Valente, idem

Lamentável

João Gonçalves 11 Fev 15

 

O Doutor Cavaco foi primeiro-ministro da época política "dourada" da Europa. Mandavam Delors, Kohl e Mitterrand. A sra. Thatcher era um belíssimo contrapeso com um sentido pedestre das proporções. Todos "trouxeram" os EUA para a Europa e levaram a Europa até aos EUA. Com defeitos, não tinham nada a ver com os contabilistas e os paspalhões políticos que há mais de uma década mandam na "Europa". E que, à sua pequena medida, acham que inventaram agora a "Europa". Tudo somado, o Doutor Cavaco - que faz questão, sempre que pode, de mencionar à unidade os Conselhos Europeus a que assistiu - tem a estrita obrigação de saber "como se fez e faz" a Europa. Não é certamente com um argumentário deste jaez: mesquinho, anti-europeu, anti-cosmopolita e típico de uma periferia instintual que julgávamos ultrapassada. Lamentável.    

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Os caminhos da senhora

João Gonçalves 10 Fev 15

 

Vimos ontem o dr. Portas, rodeado pela "sua gente" no governo, muito contentinho com os dados da balança comercial em 2014. O senhor vice parece-se cada vez mais com algumas das personagens em que Alice tropeça nos livros de Lewis Carroll: «If I had a world of my own, everything would be nonsense. Nothing would be what it is, because everything would be what it isn't. And contrary wise, what is, it wouldn't be. And what it wouldn't be, it would. You see?». Não, o senhor PM não "apanha" e está como o melancólico Rei: «"I see nobody on the road," said Alice. "I only wish I had such eyes," the King remarked in a fretful tone. "To be able to see Nobody!» Entre eles, porém, erguem-se os caminhos da Senhora, a fórmula feliz do Medeiros Ferreira para se referir a Merkel, a "Raínha" desta pobre historieta: «if I lose my temper, you lose your head! Understand?» Percebem?

Custe o que custar

João Gonçalves 5 Fev 15

 

Como costuma escrever o Rui Ramos a propósito de todos aqueles que não seguem as "boas práticas" políticas defendidas pelo Observador, os "oligarcas" não eleitos da "Europa estilo Draghi" - infelizmente com a complacência servil de periféricos eleitos - decidiram antecipar-se à boa-fé negocial do governo grego e despromoveram-lhe a dívida. Algumas alimárias domésticas aplaudiram o exercício porque "nós não somos a Grécia" e porque, no fundo, sofremos de uma mesquinhez pequeno-burguesa congénita. O "tratado orçamental" a que apreciam assoar-se, e eventualmente limpar outras partes do corpo, é aparentemente inamovível: as pessoas, as economias e as soberanias nacionais que se adaptem, mortas ou vivas, ao "tratado". Como se viu ontem a propósito de medicamentos, o dr. Passos comunga fervorosamente desta "tese" do "custe o que custar". Sucede que nós só nos livramos, para já, das NEP's do sr. Dragui porque há uma - uma e apenas uma - agência de notação canadiana que acha que a nossa dívida não é lixo e que serve para investimento. Senão estaríamos a negociar, como adultos e como a Grécia, com estes nossos tristes parceiros inconfiáveis e hipócritas. Assim continuamos sob o espectro da leveza, a pagar mais juros do que os gregos e com uma dívida directa do Estado que, no final do ano, ascendia a cerca 218 mil milhões de euros. Coragem, portugueses. Havemos de a pagar. Custe o que custar.

A "formiga" e a "cigarra"

João Gonçalves 29 Jan 15

 

No final do conselho de ministros doméstico, o dr. Marques Guedes - um homem afável, trabalhador e generosamente imaturo enquanto político - recorreu à famosa fábula para falar de nós e da Grécia. Segundo o ministro da presidência, Portugal seria a "formiga" e a Grécia uma "cigarra". Ninguém tem, ou deixa de ter, de louvar-se nos resultados das eleições gregas seja a título de mimetismos inaplicáveis, seja porque apenas concebe a "Europa" enquanto "tratado orçamental" e pouco mais. Mas, no mínimo, pode esforçar-se por tentar entender o que se passou. Por outro lado, um módico de cultura democrática manda que se respeite sufrágios mesmo quando, a final, não nos agradam. Todavia, e até agora, o governo de Portugal não tem feito outra coisa pela boca dos seus mais elevados dignitários do que apoucar o seu homólogo helénico. Não lhe dá, sequer (o que é ainda mais ridículo vindo de onde vem), o benefício da dúvida. O dr. Marques Guedes devia estar "embalado" pelas redução, em décimas anãs, das estatísticas do desemprego onde a sua formosa "formiga" ainda tem muito caminho pela frente. Porque a "notícia" continua a ser um patamar de quase 700 mil desempregados e um aumento do desemprego entre os mais jovens. Em matéria de insectos, rastejantes, estamos conversados.

Draghi sentado nos bancos

João Gonçalves 28 Jan 15

 

«Num ponto crucial os alemães conseguiram vencer. Esse ponto é o da repartição das perdas resultantes de eventuais "defaults". Draghi teve de aceitar que 80% dessas responsabilidades fossem assumidas pelos bancos centrais dos 19, ficando o BCE apenas com 20%. Esta opção é uma derrota clara para os países que defendem que eventuais prejuízos de políticas do BCE deveriam ser assumidos pelo BCE, dado haver uma zona monetária unificada. Itália e Irlanda manifestaram de imediato o seu desacordo acerca da repartição de riscos pelos 19. Portugal ficou calado, como de costume. A Espanha optou por um silêncio que, tal como o silêncio de Lisboa, só pode ter uma raiz ideológica desfasada da realidade... Agora, uma questão se coloca: será o QE suficiente para atingir os grandes objectivos pretendidos, ou seja, retoma económica, crescimento, combate ao desemprego? Uma primeira resposta é não. A compra de dívida pública e privada pelo BCE, mesmo em larga escala, por si só, não será suficiente. O que faltará então? Uma reforma inadiável: que a banca aproveite esta oportunidade para mudar o seu "mindset". Focando-se menos em operações de capital financeiro a curto prazo e na compra de dívida soberana. E centrando-se mais no financiamento às empresas e à economia real. Esse reposicionamento estratégico dos bancos implicará o desejo de assumirem um maior papel no "funding" de projectos - públicos ou privados - de desenvolvimento e criação de emprego. Essa mudança de foco da banca é crucial para o sucesso do QE na Zona Euro. E, naturalmente, também para o futuro do euro e da União Monetária.»

 

Carlos Vargas, Jornal de Notícias

 

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