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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

A estupidez dos penedos

João Gonçalves 13 Abr 15

 

A "história" da chamada Casa Manoel de Oliveira é ilustrativa e dispensa comentários. Por respeito pelo cineasta. «Concluído há 12 anos, o imóvel foi projectado para ser residência e museu do realizador que morreu no dia 02, aos 106 anos, mas nunca foi utilizado (...). Em 22 de Abril de 2014, o presidente da autarquia, o independente Rui Moreira, justificou a venda do equipamento com o facto de não fazer sentido “manter uma casa que nunca foi utilizada”, recordando ser conhecido o projecto de construção de um edificado para Manoel de Oliveira em Serralves. Uma das fracções do equipamento que vai agora novamente à praça é identificada como “edificado destinado a equipamento cultural”, com entradas pela rua Viana de Lima e rua Bartolomeu Velho, com uma área coberta de 160 metros quadrados e área descoberta de 1.800 metros quadrados, sendo o valor base de licitação 1,014 milhões de euros. A segunda fracção, também com entrada pelas ruas Viana de Lima e de Bartolomeu Velho, foi definida como “habitacional” e está avaliada em 568,8 mil euros (...). O projecto da casa na Foz foi lançado em 1998 e a obra ficou pronta apenas em 2003, ano em que a Câmara era já liderada pelo social-democrata Rui Rio, que derrotou o socialista Fernando Gomes nas eleições autárquicas de 2001. Nunca foi formalizado um acordo com o realizador para o uso da casa e, em Novembro de 2013, a Fundação de Serralves assinou um protocolo com a família de Manoel de Oliveira para instalar o espólio do cineasta no extremo nordeste do Parque de Serralves.» Como perguntava Teixeira de Pascoaes, "sem a estupidez dos penedos, que seria do nosso espírito?"

 

Foto: Marco Oliveira

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A maneira de ele ser

João Gonçalves 2 Abr 15

Nesse 24 de Janeiro de 1986, o da foto, meti-me cedo num comboio para o Porto e a meio da tarde estava sentado ao lado de Manoel de Oliveira. Acabara o curso de direito, esperava pela tropa, escrevia para o Semanário de Cunha Rego e a entrevista era para lá. Era o momento de Soulier de Satin, baseado na obra homónima de Claudel, e do primeiro MASP. À noite o cineasta também ia ao derradeiro comício da primeira volta de Mário Soares na Avenida dos Aliados. Falámos longamente e Oliveira emprestou-me fotografias do filme que depois lhe devolvi. Encontrámo-nos, de novo, num outro comboio, anos depois. Eu vinha de Guimarães e ele entrou em Gaia. Recordei-lhe a entrevista. Viajávamos praticamente sozinhos na carruagem de 1ª classe da CP pré-Alfa Pendular. Jovial, amável, conversador, sem afectações. De lá para cá envelheci muito mais do que ele jamais envelheceu. O mundo em que o situava foi-me desaparecendo debaixo dos pés sem que desse por isso. Eduardo Prado Coelho, sobre Manoel, em A Mecânica dos Fluídos. «Como sabem, a gama de cor é enorme e o que é visível é muito pequeno. Para a nossa vista o que está aquém dos raios vermelhos já não se vê e o que está para além dos raios violetas também já se não vê. Se nós tivéssemos uma visão total, talvez que pudéssemos ver a alma.» Manoel a Pedro Mexia, no Expresso, em 2013: «Tudo o que gente faz é um prenúncio de derrota. A vida é uma derrota. A gente vive na derrota. Nasce contra vontade, e não é senhor do seu destino. O mundo é complexo, incompreensível, talvez não tanto para quem tem uma crença nalguma coisa firme, mas para aqueles onde a dúvida prevalece. E o que proponho é a dúvida. A dúvida é uma maneira de ser.» Era a maneira de ele ser.

Pavanas para um poeta morto

João Gonçalves 30 Mar 15

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Não tenho presente a designação da nova revista do hebdomadário Expresso. Talvez seja "E" grande, não sei, e não me apetece ir confirmar. As duas derradeiras edições tornaram-na mais conspícua por capas substantivae formalmente antagónicas. Há duas semanas dedicaram-na a Cristina Ferreira, uma moça da televisão que "abafou" a concorrência em proporções verdadeiramente bíblicas. Julgo, até, que terá uma "marca" com o seu nome e uma revista, outra, cuja primeira página partilhou com o prolixo prof. Marcelo na dupla qualidade de "colega" (de televisão) e de proto-candidato presidencial (dessa televisão, das bases do PSD e do dr. Portas com quem se reconciliou). No número de sábado a fotografia de capa era de Alfredo Cunha e o fotografado era Herberto Helder. Lá dentro havia mais fotografias e, sobretudo, cinco textos a pretexto da morte do autor de Os passos em volta. Digo a pretexto e não exactamente sobre Herberto Helder porque, de uma maneira geral, os articulistas escreveram mais sobre as suas "experiências", reais ou imaginárias, com o poeta do que propriamente dele ou daquilo que ele representou na chamada literatura portuguesa contemporânea. Não tem mal. É comum falarmos de nós quando falamos de outros  e vice-versa. Mesmo a título mais informativo como sucede com o texto de Ana Cristina Leonardo. Ou mais "prosódico" como nos "confrades" de Helder, Tolentino de Mendonça e Pedro Mexia. Clara Ferreira Alves faz naturalmente de Madame de Mertreuil como costuma fazer com tudo o que escreve e diz: "je suis mon ouvrage". Também não tem mal. Fui reler o que o Joaquim Manuel Magalhães tinha dito, em momentos precisos, do que, naquele momento em que o afirmou, era alguma da obra de Herberto. E são ainda hoje esses textos que olham para aquele edifício entretanto sujeito a tantas implosões com menos complacência ou condescendência entre tanta admiração fundamentada. Até nos registos mais aparentemente jubilatórios J. M. Magalhães "liberta" a poesia de Helder da tentação de proeminência que algum lastro epigonal mal amanhado quis à força reter daquele fulgurante uso das palavras. Entretanto em Helder sucederam-se as contingências editoriais que culminaram, nas derradeiras, em "aparições" de rapidíssimos desaparecimentos e em uma "obra completa" ou "toda" que aparentemente não mais cessará de o ser. Talvez por isso mesmo seja difícil, quando não impossível, "fixar" sem ser com a imprecisão musical de uma pavana o que persiste, ou não, em Helder e na sua arte. Que é dela que se trata, não se duvida. Como se trata dela, há-de duvidar-se para sempre.

 

Uns procuram ramas de ouro.
Outros, filões de púrpura unindo
sono a sono. Há quem estenda os dedos para tocar
as queimaduras no escuro. Há quem seja
terrestre.

A difícil arte de pensar

João Gonçalves 19 Mar 15

 

Estamos pouco ou nada habituados a que "actores" políticos se dêem ao trabalho de pensar. Movidos pelo "curto-termismo" e pela insaciável procura comunicacional, a generalidade dos agentes políticos tende a desprezar, na acção, o papel indispensável de um pensamento que não seja inteiramente débil. É certo que encontramos nos protagonistas mais recentes e proeminentes, em títulos de livros que ninguém leu, coisas aliciantes como "mudar", "compromissos para o futuro", "caminhos em aberto" ou "roteiros". Mas, na realidade, Portugal nunca esteve tão pasmado como agora passados mais de quatro décadas sobre o acto fundador do regime. As 80 reflexões que Manuel Maria Carrilho apresenta na sua mais recente obra, precisamente intitulada "Pensar o que lá vem, para acabar com o Portugal pasmado" (Planeta, 2015), furtam-se à leviandade do imediato que corrói a qualidade do espaço público do debate democrático. Poucos cultores da política nacional têm sabido alcançar a trabalhosa simbiose entre "o sentido da história que explica" e "o pressentimento do futuro que mobiliza", isto é, a capacidade de "olhar para o Mundo através do prisma da incerteza, sondando-o mais através das consequências do que se sabe, do que de palpites sobre probabilidades que não se conhecem de todo". Carrilho fá-lo a partir de um lastro identificável, o do socialismo democrático ou da social-democracia, todavia com uma notável liberdade de espírito própria daqueles que têm mais a dar à política do que dela alguma vez esperaram receber. Não é por acaso que refere Kant: as coisas têm ou um preço ou uma dignidade. Como professor universitário, como ministro, como deputado, como representante de Portugal na UNESCO Carrilho nunca transigiu, quer babujando "palavras mágicas", quer gerindo "silêncios calculistas". Assumiu sempre, pasme-se, as suas responsabilidades. O seu livro, nestes tempos desbussolados e pasmados, alivia das simplificações em que se afadigam os precários militantes dos ciclos políticos. Que não entendem o que aí vem.

 

Jornal de Notícias

À atenção do Doutor Cavaco

João Gonçalves 16 Mar 15

 Salvo erro Mécia de Sena completa hoje, lá em Santa Bárbara, 95 anos. Repito mais ou menos o que escrevi noutra ocasião. Este país, tão "generoso" na atribuição de veneras ao primeiro paspalhão "empreendedor" ou ao último "gestor" panorâmico e internacionalizado descobrindo depois que se enganou, nunca distinguiu Mécia de Sena pelo trabalho único feito em prol da publicação e divulgação da obra do seu Marido. Sem Mécia, sem a sua persistência e o seu amor (sim, é de amor que se trata como), o prematuro e injusto desaparecimento de Jorge de Sena antes dos sessenta anos de idade poderia ter impedido gerações interessadas de tomar contacto com um dos poucos grandes vultos da chamada cultura portuguesa do século XX. Sena é daqueles portugueses que nunca nos envergonham pelo vencimento permanentemente lúcido e luminoso das suas palavras. Está, pois, mais do que na hora de o Estado homenagear Mécia de Sena que fez durante décadas e décadas mais pela literacia nacional do que exércitos de académicos, proto-académicos, poetastros e escrevinhadores de centros editoriais-comerciais alguma vez poderão fazer.

Manuel de Lucena

João Gonçalves 8 Fev 15

 

Morreu ontem Manuel de Lucena. Os mais "novos" provavelmente não o conhecem porque, apesar de ele ter sido até ao fim de "andar por aí" de sacola ao ombro e genuinamente informal, escrevia agora menos nos media. Mas escreveu muito e bem. "Cruzei-me" cedo com ele por causa do livro da foto e por causa dos "Reformadores", em 1979, que ele apoiou no âmbito da AD de então (o "então" é esdrúxulo porque não houve mais nenhuma). Em Genebra, no exílio, juntamente com o Medeiros Ferreira, António Barreto, Eurico de Figueiredo e outros fundou a revista Polémica. Por cá passou pelo Semanário e pela Tarde, por exemplo, com o Vítor Cunha Rego. Era fundamentalmente um académico sem pretensões, livre e discreto, daqueles que tentam perceber e que nos ajudam a tentar perceber. Um tipo, nas suas palavras, que pensava "umas coisas que não eram mal pensadas".

Entrevero

João Gonçalves 20 Jan 15

 

Em 1970, Marcos André (António Marques André) editou um livro de poemas no Brasil. Ofereceu-me um exemplar que dedicou "a um leitor que gostou de "coisas" que nele vão escritas". Nas palavras que antecedem os poemas, André pergunta por que os decidiu editar. Seria «por ter sido surpreendido, ao iniciar a minha carreira de livreiro, com a chamada elite cultural, emaranhada e desgastando-se inutilmente em intriguinhas provincianas?" Seria porque foi acometido pelo "vómito mental que sentia por ver e constatar tanta estreiteza e mesquinhez?" As questões deixadas em aberto andam por aí como andavam na altura em que André, por São Paulo, as formulou. Marcos André faleceu no passado fim de semana e não sei se chegou a ver a Lácio "recuperada". De qualquer modo "sobrevive" no seu livro e na memória daqueles que o conheceram e que com ele partilhavam idêntica paixão inútil (como todas as paixões) pelos livros. E que não se conformam com a sobrevivência, praticamente em regime de exclusividade, dos pulhas e dos anacoretas. António Marques André passou definitivamente a fazer parte  dos "céus desabitados" da frase de Aparição, de Vergílio Ferreira, que escolheu como epígrafe para o seu livro:«que mais há na tua vida que o teu canto, a angústia do teu grito contra os céus desabitados?»

 

Foto: Quadro de João Vieira

Com este mal todo

João Gonçalves 29 Dez 14

O livrinho da foto lê-se num instante. As entrevistas que o autor concedeu quando passou por cá revelaram uma personalidade com um interesse inegável. Isto numa altura em que é cada vez mais difícil descobrir um autor que não se desmanche em trivialidades. Escreveu-o aos dezanove anos. É autobiográfico e revela uma França que só costuma aparecer nos boletins de voto, mais propriamente na cruzinha em cima de Marine Le Pen. Nada que não soubéssemos já de outra gente que precedeu Édouard Louis: apesar de 1789, a sociedade francesa é do mais reaccionário que o mundo tem conhecido. Nada do muito mau que lhes aconteceu, para não irmos mais longe, no século XX foi fruto do acaso: Vichy, o colaboracionismo, a separação visceral (violenta, nas palavras violentas de Louis) entre "direita" e "esquerda" e, sobremaneira, entre "burgueses" e os outros. A aldeia, os comportamentos, os cheiros (os cheiros valem muito neste livro), os corpos (dos animais de duas e de quatro patas), a normalidade patológica de um quotidiano totalitário (o termo também é dele) entram por uma França "profunda" adentro, entre os dois milénios, sem o menor pudor. Muito menos o do adolescente que ele era, então a florescer literalmente entre a merda. Vê-se que leu. Duras, sobretudo ou talvez. Vê-se que tudo lhe subiu à cabeça aparentemente prodigiosa depois de ter sido sentido no corpo. Até no humor negro, e não negro, de certas passagens. Estreia-se bem com este mal todo resumido em duzentas páginas.

O'Neill

João Gonçalves 20 Dez 14

 

Se fosse vivo, Alexandre O'Neill teria completado ontem noventa anos. O trabalho das palavras na nossa língua, livre de abortos ortográficos ilegais, era a "missão" de O 'Neill - o poeta, o cronista, o publicitário. Alguma da grande poesia do século XX pertence-lhe tal como lhe "pertenceremos" sempre enquanto "dor mansa e vegetal" de que apenas a morte porventura o "libertou".

«Não gostava nada que me caíssem em cima, nem que dissessem nada sobre mim. Epitáfio… eu até tinha um:

Aqui jaz Alexandre O’Neill

Um Homem que dormiu

muito pouco

Bem merecia isto»

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