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portugal dos pequeninos

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A pulharia e os arrotos

João Gonçalves 23 Ago 13

 

Alertado pelo meu amigo João Melo, comprei o JL porque tem um trabalho (fraquinho) com Mécia de Sena e algumas outras coisas sobre Jorge de Sena. Mécia tem 93 anos e, a avaliar pela fotografias, persiste indemne. Desde 1978, ano da morte do autor de Sinais de Fogo, que Mécia tem sido a incansável organizadora dos papéis do marido e a fidelíssima testamentária da sua herança intelectual. No pequenino mundo literato e académico nacional, Mécia nunca encontrou muito mais "apoio" do que Jorge de Sena antes e depois do "25 de Abril". Tem no acervo, no acto de amor que representa também a sua dedicação e devoção pela memória de Sena, excessos e porventura algumas injustiças. Mas na conta-corrente dos encontros, desencontros, rasuras e traições, o balanço é favorável aos Senas como ainda há dias se pôde constatar num texto publicado por Arnaldo Saraiva - um dos primeiros candidatos a "viúvos" académico-editorial-literatos de Sena que, não obstante, tem um trabalho muito posiitivo sobre o espólio do escritor a quem a dita academia nunca perdoou ter sido engenheiro de terceira classe na Junta Autónoma de Estradas antes de mandar isto tudo à merda, em 1959,para se dedicar primeiro no Brasil e depois nos EUA, em exclusivo, à literatura e ao seu ensino -  no suplemento Actual do Expresso. Fica-se a saber que Mécia, fora a organização e edição de mais correspondência - com inexplicáveis dificuldades editoriais decorrentes da vil ignorância rapace do glorioso "mundo" editorial doméstico cada vez mais apostado em promover analfabetos e analfabetas mediáticos -, entende que o seu trabalho terminou com as Entrevistas recentemente publicadas. Apercebi-me muito cedo da importância da existência de Jorge de Sena na minha vida. Acompanha-me quase diariamente desde que o vi, em directo da Guarda na televisão, a falar sobre Camões e sobre nós, graças ao empenho do Presidente Eanes e de Vasco Pulido Valente.  Em 1971, numa carta inédita a Ruy Belo que o JL publica, Sena escreve: «Trabalho... tenho muito para fazer e pouca vontade de tudo - a minha depressão e reduzida resistência concomitante dão-me tudo por inútil, quanto eu faça é para cair no poço da pulharia lusitana, o que não me dói por mim, mas pelo que sei que os meus ignorados contributos valem, ao lado da maioria dos arrotos nacionais.» Nestas, como em quase todas as matérias, não mudámos um átomo de 1977 para cá. A pulharia cresceu com os arrotos e os arrotos cresceram com a pulharia. Não saímos disto.

1 comentário

De luisa a 26.08.2013 às 18:45

Também me lembro desse discurso do 10 de Junho na Guarda. Jorge de Sena é dos que admiro mais - e não só pela produção que deixou mas também pela quantidade de trabalho que tal representa. Quantas horas a escrever! Quanta fé e desespero posto nas ideias que deixou! E não se cansou nunca. Não sei se dei às minhas palavras o sentido total do que quero dizer - admiração pela obra, pela acutilância, pela força da sua expressão e da (quase) raiva de saber que, tendo razão, não mudará nada no país. E hoje perante a obra que ninguém lê ou conhece pergunto se valeu a pena. Vale a pena? Afinal os arrotos é que contam e eles, os homens probos, ficam-se pela depressão e luta inglória. Luísa

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