Carta aberta a Mário Santos

 

Confesso, caro Mário Santos, ser destituído de "cultura desportiva". Nadei vagamente e, quando a ondulação o permite, nado no mar. Depois ando, não tanto quanto gostaria, mas o suficiente para alcançar a mítica meia-hora recomendada pela mundialmente famosa dietista Isabel do Carmo. Não corro nem para apanhar um autocarro. Bebo chá verde e chá de folha de abacateiro, por vezes algum vinho tinto (oscila entre o copo e a meia garrafa), não fumo, como saladas e fruta, todavia suspeito que nenhuma destas actividades circum-escolares aumentem a minha "cultura desportiva". Não vou ao futebol todos os dias da semana, como é praticamente obrigatório de há uns anos para cá, seja a um estádio ou na televisão. Ver ciclistas à minha frente, quando conduzo, inspira-me invariavelmente os piores sentimentos. Dito isto, caro Mário Santos, de vez em quando espreito do sofá os jogos olímpicos. Agora menos porque as partes aquáticas acabaram ou estão a acabar e o resto, para ser honesto, não me interessa nada. É impossível, porém, não reparar no esforço nacional que o caro Mário tão edificantemente chefia. O grosso desse esforço traduz-se na chamada "técnica do quase-quase": quase chegou à meia-final, quase chegou à final, quase chegou ao terceiro lugar, quase apareceu, quase não caiu, quase não levou um enxerto de porrada, etc., etc. É evidente que "cultura desportiva" também será isto - esforço - e não exclusivamente penduricalhos exibidos ao peito. Mas o Mário sabe, e eu sei, que a "cultura desportiva", entre nós, é um complexo de interesses, de vaidades, de megalomanias e de casos de desinteressado empenho (também há) cujo "caldo" normalmente não se recomenda. A seguir vêm os paralímpicos e espero sinceramente que estas "dores" acerca da alegada falta de "cultura desportiva" da nação (se alguma "cultura" ela tem, e lhe cultivam, é a "desportiva" sobretudo na versão bola) não afectem a prestação. Porque os paralímpicos portugueses costumam arrecadar medalhas e sucessos que a "cultura desportiva" mediática ou ignora, ou relega para segundo ou nenhum plano. Um falhanço,  caro Mário, em qualquer parte do mundo, é um falhanço. E, acredite, também é uma forma de "cultura" como outra qualquer.

João Gonçalves | link do post | comentar