Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

O menino do "vocês"

João Gonçalves 21 Jun 12

«O anúncio da GALP utiliza o Guilherme, de 11 anos, para construir um discurso altamente politizado, ideológico, ligando a crise ao Euro. O Guilherme lê uma carta aos futebolistas da Selecção Nacional, primeiro em off, depois num estádio, na presença da Selecção. O Guilherme começa por sugerir que tem o sonho de jogar na Selecção, para depois dizer aos jogadores que quer ser médico ou biólogo "e gostava de trabalhar em Portugal, mas só fico se valer a pena." E é aí que vocês entram", diz o discurso político e demagógico do Guilherme. Vale a pena registá-lo, para memória futura: "Para milhões de pessoas, Portugal são vocês. Vocês têm nos pés uma oportunidade que os nossos médicos, advogados e políticos nunca terão nas mãos. Têm a possibilidade de mudar em campo a opinião que o mundo tem de nós, de mostrar que não somos fracos e preguiçosos, sempre fomos e continuamos a ser um povo honesto, lutador e corajoso. Quando queremos, somos os melhores do mundo. Nove séculos de história não se deitam assim para o lixo. Não temos nada a provar, mas há um futuro para defender. Desta vez, estamos todos em jogo. Somos onze por todos e todos por onze." Os jogadores ouvem abraçados o discurso nacionalista, enquanto em fundo uma multidão masculina canta e aclama. A demagogia do discurso é insuportável: a identificação da pátria com a Selecção e da Selecção com a política, a ideia de que qualquer jovem recém-formado tem de emigrar, a suposta má opinião do mundo sobre Portugal, alterável em campo, a contradição entre sermos considerados preguiçosos, mas podermos (?) ser "os melhores do mundo" (em quê?), a invocação dos "nove séculos" que os jogadores se arriscam a "deitar para o lixo", a contradição entre a má opinião do mundo e "não termos nada a provar", a ideia de que o futuro se defende no Euro 2012. Tudo isto é mau em si, mas posto na boca duma criança é insuportável, um abuso da condição infantil que muitos portugueses adultos têm mostrado não aceitar.»

 

Eduardo Cintra Torres, Jornal de Negócios

9 comentários

De Gonçalo Correia a 21.06.2012 às 22:36

Contra os canhões dessa gentalha "petro-crática"

Portugal foi dominador
de forma tão inteligente,
alegrando qualquer torcedor
com uma força pungente!

Mais um jogo vitorioso
para as cores nacionais,
num percurso glorioso
até às meias-finais.

De João Quaresma a 22.06.2012 às 01:37

E recorrer a crianças como porta-vozes de discursos fortemente ideológicos é um velho hábito de propaganda dos sovietes. Fica evidente qual a escola de quem concebeu esse anúncio.

De Vortex a 22.06.2012 às 08:56

disse 'cumentador desportível'
«chutou com o pé que tinha à mão»

estamos na pedincha pindérica

De Lionheart a 22.06.2012 às 10:08

Exacto. É melhor abstrair-nos de tudo o que rodeia a selecção, e que é demasiado mau (aproveitamentos políticos, clubísticos e publicitários) para não ficarmos mal dispostos. Pelo menos a mim indispõe-me a ponto de quase ganhar aversão à selecção. Por isso passei a ignorar tudo o que está à volta do Euro 2012. Este começa e acaba com os jogos. Não vejo comentaristas, especiais, emissões alargadas, nem porcaria nenhuma. O meu astral subiu logo, ficando focado apenas no que se passa dentro das quatro linhas. É um privilégio vermos um jogador como Cristiano Ronaldo e assistirmos a uma actividade que é praticamente a única em que o país se bate com os melhores do ramo. Os jogadores, rapazes como outros quaisquer (embora mais abonados), não têm culpa de toda a parasitagem que gravita em torno do futebol (e que lhe dá mau nome) e da cobertura histérica que as (falidas) televisões fazem para encher a programação. Acho até que o ambiente que se cria é mais contraproducente que outra coisa.

De Nuno Castelo-Branco a 22.06.2012 às 10:25

O ECT não tem razão. Ao longo de décadas, o regime baixou tanto a fasquia que esta é a única carta que lhe resta. O ECT que pense nisso antes de escrever. Comecem pela escola primária e que a miudagem seja obrigada a saber de cor datas, reis e cognomes, navegadores, geografia e outras matérias. Depois, falaremos sobre o resto, sobre os universitários docentes e discentes - semi-analfabetos e outras modernidades do género. Em suma, o regime é um desastre e é bem simbólico serem este tipo de festas, comemoradas na "Rotunda". Para bom entendedor...

De Marta a 22.06.2012 às 10:50

Assino por baixo.
A idea da selecção "salvadores da Pátria" é ridícula, mas usarem uma criança para a promover é detestável.

De T Nunes a 22.06.2012 às 11:55

Além do que é afirmado pelo E. C. Torres, há que referir que a carta do Guilherme se insere num "spot" publicitário a uma petrolífera portuguesa que vende dos combústíveis mais caros da Europa e que, portanto, dá uma grande ajuda para a para o estado a que a nossa economia chegou.
O Guilherme, que diz querer ir para o estrangeiro, podia também pedir para o jogadores verem, por essa Europa fora, qual o preço do gasóleo e da gasolina e a relação destes preços com os ordenados médios nesses países!!! E podia pedir aos jogadores para tentarem saber se as petrolíferas de "bandeira", por essa Europa fora, também têm o monopólio da refinação e assim controlam toda a concorrência!!!

De Bm a 22.06.2012 às 16:42

O discurso do FdaP, nas palavras de uma criança.
Tal como o do artista EDP principal:
"Os salários que a EDP lhe paga, não se repercutem nas facturas de electricidade",
numa grande entrevista DN.
Gaita, que nem aqui, no sopé da Estrela-Açor, fico livre das misérias do regime.

De S.Guimarães a 22.06.2012 às 18:48

ECT critica de uma maneira bem ao seu estilo, aquilo em que realmente somos mestres- a presunção que apenas os futebolistas são os salvadores do orgulho português- e utilizando crianças ou jovens, debitando as ideias que brotam de publicitários sem grande imaginação, procurando apenas causar impacto imediato. Todavia, existe uma fronteira muito ténue entre aquilo que é uma ideia original, com aquilo que raia as fronteiras do inconcebível , ou seja, a demagogia bacoca de quem se arroga julgar as pessoas, pelo seu grau mais ou menos elevado de adepto futebolístico. A sublimidade destas cabeças "pensantes" não tem limites.

Comentar post

Pesquisar

Pesquisar no Blog

Últimos comentários

  • André

    Gosto muito da sua posição. Também gosto de ami...

  • Maria

    Não. O Prof. Marcelo tem percorrido este tempo co...

  • Fernando Ferreira

    Caríssimo João, no meio da abundante desregulação ...

  • António Maria

    Completamente de acordo.Ontem tive vergonha de ser...

  • Fernando Ferreira

    Caríssimo João, «plus ça change, plus c'est la mêm...

Os livros

Sobre o autor

foto do autor