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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

O problema da raiva

João Gonçalves 18 Abr 16

 

Durante a última campanha eleitoral para as legislativas, e mesmo antes, José Pacheco Pereira aludiu várias vezes à questão da raiva. Ele achava que António Costa não aproveitava suficientemente o "espírito" de protesto calado que grassava um pouco por toda a sociedade portuguesa contra o "austeritarismo", a "frieza" e a "insensibilidade social" da Direita. Costa berrava muito, como continua a berrar em funções oficiais, mas tal não se traduzia em mais porque o PS, timorato, não explorava o filão do descontentamento. E, de facto, não se traduziu. A páginas tantas Costa viu que ia perder e que à Esquerda iam inchar. Ainda agora, a avaliar pelas sondagens, o PS medra pouco relativamente aos seus parceiros parlamentares. A raiva sublimou-se em meia dúzia de papéis assinados, num Governo construído às avessas, engolido pela correcção política e pela demagogia irresponsável, num Orçamento fofinho e insensato para lambuzar o eleitorado "central", num presidente "afectuoso" e hiperpresente, numa Comunicação Social tagarela, levezinha e complacente. Costa, à semelhança do que fez na Câmara de Lisboa, distribui pão e circo com a beatitude laica de quem acha que a raiva passou e que pode transformar os aliados do Bloco e do PC em "marca branca" política.

O Bloco, um ajuntamento de patos-bravos deslumbrados com a proximidade do poder, só se distingue do PS por apascentar "causas" idiotas e domesticar ministros mais crédulos e rústicos. É um partido no lastro daquilo que Eco designava por fascismo eterno: "Filosoficamente desengonçado, mas do ponto de vista emotivo firmemente articulado com alguns arquétipos" tais como a acção pela acção, a frustração individual ou social, o elitismo prosélito, uma "invidia penis permanente", um "populismo qualitativo".

O PC, coitado, agarra-se às ossadas sindicais e à "palavra dada" num pequeno mundo de mentirosos. Não consegue penetrar na "nova aliança" com Costa e Catarina, unidos, a declinar Ionesco citado por Eco: "Só as palavras é que contam, o resto é conversa". As lérias escondem tempestades e não é certo que façam desaparecer a raiva. Pacheco, aliás, não se cansa de advertir os seus amigos das esquerdas. E os nossos credores também não. A Direita, porém, não vai longe enquanto houver nela quem declare Costa um "príncipe da política" ou ande pelas televisões a lamber-lhe untuosamente as botas. Costa é Sócrates sem as trapalhadas pessoais de Sócrates. Dá raiva não se perceber.

 

Jornal de Notícias, 18.4.2016

LOUVOR E SIMPLIFICAÇÃO DE UM GENERAL

João Gonçalves 11 Abr 16

 

1. A dada altura acompanhei um ministro com quem trabalhava a uma comissão parlamentar em que a interlocutora do Bloco era a ainda não tão embotada Catarina Martins. Foi a primeira vez que dei por ela: insolente e regateira. Depois aprimorou-se como chefe da tribo e dona até de ministros. Agora quer ouvir um General do Exército português presumivelmente com a insolência e a regateirice exacerbadas e a complacência de meia dúzia de bananas de outros partidos. Quem nasceu para lagartixa nunca chega a jacaré.

2. Um mês de Marcelo: 18 valores. Só não tem 19 por ter aceitado a demissão do Chefe de Estado-Maior do Exército sem pestanejar.

3. João Soares sai por causa de umas bofetadas retóricas e porque o Bloco só permite a retórica moralista das suas senhoras. Um general prestigiado sai porque não percebe nada de "afectos" e de gatinhos. Sempre o triunfo dos porcos.

4. (...) O pedido de demissão do chefe de Estado-Maior do Exército, General Carlos Jerónimo, merece outra atenção. Desde o fim do serviço militar obrigatório por razões "correctas", comuns à Esquerda e à Direita, perdeu-se o "sentido" das Forças Armadas enquanto elemento estratégico de coesão nacional e social. O episódio "Colégio Militar", que terá estado na origem na demissão de Jerónimo, é elucidativo desta cedência progressiva dos responsáveis políticos à ditadura da "superioridade moral" das elites radicais e comunicacionais. Entre a "vociferante matilha do espectáculo", referenciada por Sloterdijk, e a salvaguarda de modelos institucionais estáveis por natureza e dever, o Poder Político já há muito que não hesita. Lê-se superficialmente uma reportagem online mas conclui-se logo que ali há "discriminação", a palavra mágica para qualquer oficiante da "moderna" inquisição. Lamentavelmente o ministro da Defesa foi o primeiro a cair na armadilha das "vanguardas": preferiu a via pública para vexar a hierarquia militar. Logo secundado pelo comandante supremo das Forças Armadas, e presidente da República, que aparentemente não encontrou motivos para não aceitar imediatamente o pedido de demissão do chefe de Estado-Maior do Exército. Não é "popular" falar do Colégio Militar, das Forças Armadas ou usar figuras de estilo como "bofetadas" ou "bengaladas" no contexto meloso e hipócrita da nossa sociedade actual. É mais fácil fazer proselitismo, o que nunca foi o meu género. Na mensagem de despedida que enviou aos seus militares, Carlos Jerónimo acabou por dar uma bofetada de luva branca a quem a merecia. Já ninguém a tira. (Jornal de Notícias, 11.4.2016)

SIMPLIFICAÇÃO DO M(IN)ISTÉRIO DA CULTURA

João Gonçalves 11 Abr 16

 

1. Há quem, inocentemente, julgue que o ministério da cultura é a "cultura". Não é. É, à semelhança dos outros ministérios, uma mercearia política que distribui dinheiro (quase nenhum) por equipamentos referenciados como culturais. Depois, consoante o titular saiba minimamente o que está a fazer, essa distribuição deve ser calibrada com uma coisa chamada mecenato ou junção de privados a equipamentos e actividades culturais porque o dinheiro público é finito. Finalmente a distribuição pressupõe pelo menos uma ou duas ideias sólidas e fundamentadas do que se deve fazer e, muito especialmente, do que não se deve fazer. Por exemplo, mais preservação do património material e imaterial ou mais artes ditas performativas, estatais ou "independentes"? Se há área onde a "independência" é curta é esta. Se há país onde existe uma cultura, como aliás uma literatura assim, pequena e irrelevante por muito que gostemos dela, é o nosso. Os chicos-espertos da "cultura" sabem isto e tentam desde sempre apropriar-se dela e do seu putativo ministério. Eles são os "donos" eternos da cultura e os ministros ou secretários de Estado (incluindo os das finanças e da economia) só existem para os servir. Preferem um botão de rosa na Ajuda a alguém que tenha a sua opção política (e financeira) para o sector (que é comum a todas as opções políticas do governo ou então não é nada). O último que intuiu isto tudo, e não mistificou, foi Manuel Maria Carrilho. Percebo que seja difícil encontrar alguém à altura dele

2. O embaixador Castro Mendes sucede a João Soares. Não vão faltar os panegíricos. O homem é ficcionista e poeta pelo que pelo menos os seus editores não lhe irão falhar. Nesta matéria nada digo porque nunca o li. Lembro-me de ter passado pela presidência Eanes e de entretanto se ter tornado um compagnon de route do PS "certo". Estava na Índia em 2010 quando o seu amigo Luís Amado era MNE. Desejava Paris e a remoção violenta de Manuel Maria Carrilho da UNESCO pela mão de Sócrates (Amado não contava) abriu-lhe as portas da cidade que ele rondava porventura farto do mau cheiro. Ironicamente vem agora, de novo, ocupar um lugar que já foi de Carrilho. Nunca há uma segunda oportunidade para causar uma primeira boa impressão.

3. Já estão em curso as costumeiras oferendas de alfinetes de peito ao novo MC. Em geral começam por "um homem de cultura, um magnífico poeta". O Público é bem capaz de acometer um suplemento ou um caderno especial com 27 páginas. E um par de bofetadas nestas lambisgóias?

4. No epitáfio de João Soares, o dr. Costa inscreveu o admirável vereador da cultura que ele foi em Lisboa. Passou, como é seu timbre, por cima da circunstância de Soares ter sido presidente da CML bem antes dele e, salvo erro, ter acumulado o pelouro da cultura. Agora o dr. Costa foi buscar Miguel Honrado, da vasta tribo da cultura da Câmara costista, para SE do sr. embaixador Mendes. Nunca votei em Soares em Lisboa mas não sou propriamente parvo. O sr. embaixador fica à vontade para continuar a versejar.

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