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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

De um para outro ano

João Gonçalves 31 Dez 13

 

«Os amigos desaparecem, os telefones desligam-se. Dantes andava-se e esquecia-se. Agora, a vida pára. Repete-se. Um mês é igual ao anterior e ao próximo e ao seguinte. Não acontece nenhuma coisa diferente, só acontecem coisas indiferentes. Por qualquer razão obscura, não se consegue descobrir o sítio onde as coisas acontecem; e elas já não acontecem onde aconteciam (...). Um pequeno pânico instala-se. Ao princípio pensou-se que era um estado passageiro, uma época de azar ou de mau jeito. Mas depois o estado não passa, a sorte não vem e o mau jeito continua. Conta-se com angústia o tempo para trás e, a certa altura, conta-se com terror o tempo que sobra (...). Nestas crises, segundo o costume, as pessoas agarram-se: à família, ao trabalho, às ambições. Reparei que os meus amigos se agarravam. Um a um, consoante a sua natureza, transformaram-se em secretários de Estado, políticos respeitáveis, académicos triunfantes, altos funcionários ou pais extremosos. Vários preferiram a virtude, ideológica ou sexual. Com meritórias excepções, quase todos se encaminharam. Mas precisamente eu não pretendia encaminhar-me (....). Aos trinta, aos quarenta, aos cinquenta anos, distraí-me, por umas horas ou por uns meses. E depois? Quando olhei para mim, estava parecido com eles, com os meus queridos inimigos. Com importância e afabilidade, interesses e respeito. Com um lugar na vida e a ciência de que há lugares na vida. Em veloz movimento e absolutamente inerte (...). As portas que não se abriram ou se fecharam, as vidas que não se viveram, custam cada vez mais a carregar. A privação do que não se quis aumenta, mesmo quando sem a sombra de uma dúvida se tornaria a não querer (...). Fora do corpo, não existe progresso e decadência. Existe apenas adição. Existem parcelas que se juntam: pessoas e palavras, o melhor e o pior e o inominável.»

 

Vasco Pulido Valente

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Carta de 01 07 2013 from ntpinto

Segundo o bem informado dr. Marques Mendes, há fortes probabilidades de o Senhor Presidente da República, desta vez, nem sequer enviar o orçamento de 2014 para fiscalização sucessiva da respectiva constitucionalidade. Não deve espantar ninguém. O Doutor Cavaco Silva estará presumivelmente satisfeito com o "chumbo" da chamada convergência das pensões e, quanto a Constituição, chega. Para além disso olha para 2014 com um imenso pavor político e, mesmo sem mostrar o relógio, decerto terá o dele "acertado" pelo do dr. Portas e o "discurso" afinado pela língua de pau do fim dos tempos "à portuguesa", o dia 17 de Maio próximo futuro. Sucede que o orçamento, entre orçamento propriamente dito e as várias rectificações a que começará a ser sujeito logo nos primeiros dias de vigência, persiste para lá de Junho. Tal como a austeridade (sob a forma de "outra coisa qualquer" para usar a terminologia do senhor PM) da qual o referido documento é um notável emblema. Por isso, e ao findar um ano que cola com o seguinte, cumpre escolher, em "homenagem" a este tão bonito momento de "solidariedade estratégica e institucional", o acto político mais relevante e sério (porque existe o não sério, mais conhecido por "irrevogável e não dissimulado" de 2 de Julho)  de 2013. E esse acto notável é a carta de demissão do dr. Vítor Gaspar de 1 de Julho, o ponto de chegada que toda a gente finge que não leu.

Os dias por vir

João Gonçalves 29 Dez 13

 

O suplemento dominical do Correio da Manhã é dedicado a 2013. Tem fatalmente Ronaldo na capa como, noutros tempos, poderia ter Amália, Eusébio, a fantástica Irmã Lúcia ou o computador Magalhães. Mais, porém do que o "balanço" por áreas - a da cultura, com o devido respeito e amizade pelo Francisco José Viegas, está devidamente emulado pela fotografia do primeiro-ministro a olhar para o tecto de um Palácio da Ajuda cheio de Joana Vasconcelos por todo o lado e com ela cheia dela mesma ao lado do primeiro-ministro - interessa-me o futuro espelhado no excelente ensaio de José Medeiros Ferreira intitulado "A troika nem sempre existiu". Medeiros Ferreira, aliás, é o autor do livro que escolheria, e aconselharia ao referido primeiro-ministro, no transe de 2013 para 2014 ou mais. Saiu na mesma editora que publica os seus gurus hiper-liberais de São Bento e, agora, das Necessidades pelo que é fácil chegar lá. Depois de o ter lido, escrevi que os ministros e outros dignitários, quando se deslocam, deviam obrigatoriamente levar na pasta o Não há mapa-cor-de-rosa, A história (mal)dita da integração europeia. No ensaio de hoje, Medeiros retoma alguns tópicos do livro e pondera os próximos e decisivos meses da vida pública nacional. Como não diria melhor, passo a citar sem mais comentários (porque os fiz no tempo e nos lugares adequados durante dois anos e,  em  especial, ao longo do pastoso mês de Julho), congratulando-me por uma amizade duradoura e sempre renovada, esperançosa e combativa como deve ser a nossa vontade nos dias por vir. «O período do advento para a saída da troika, e o consequente regresso aos mercados, foi assim em grande parte perdido no segundo semestre de 2013 pela má apreciação prospectiva de Cavaco Silva e dos seus conselheiros, e pela paralisia que introduziu no sistema da governação, prolongando por expedientes artificiosos a coligação PSD-CDS. Teve tudo nas mãos para criar novas condições de governação que preparasse melhor a saída da troika, com as duas cartas de demissão dos ex-ministros das Finanças e do MNE. Bastaria ter levado a sério o testamento de Vítor Gaspar de 1 de Julho, que escreveu ser necessária "a rápida transição para uma nova fase do ajustamento: a fase do investimento! Esta evolução exige credibilidade e confiança". Exactamente o que falta ao governo de Passos Coelho e à sua coligação com Paulo Portas. Obcecado com a necessidade de consensos entre os partidos do "arco da governação", Cavaco Silva não sabe como os estabelecer, ou se quer mesmo fazê-los. Uma coisa é certa, Passos Coelho não irá muito mais além do que esperar que o IGCP consiga colocar uns títulos no mercado dos "institucionais", trocar umas maturidades pelo aumento sedutor das taxas de juro, e esperar que o ECOFIN e o Eurogrupo ponham à disposição do Tesouro uma linha de crédito de alguns milhares de milhões. Passos Coelho é o principal obstáculo a qualquer entendimento mais abrangente para dotar a República Portuguesa de um governo capaz de responder ao choque da saída da troika. Devia sair com ela.»

O verdadeiro director

João Gonçalves 29 Dez 13

A RTP, essa estranha galáxia que nunca cessa de nos surpreender pelas piores razões - e que o regime (partidos, PR, Governo e "elites") decidiu manter no "coração de Portugal", mais conhecido por "factura da electricidade" -, aparentemente escolheu o seu novo director. A "imagem" que retenho deste homem é a de alguém que podia perfeitamente apresentar, com rematado sucesso, os defuntos "jogos sem fronteiras", algo em que a RTP parece ter-se tornado para sempre. De facto, o que é que se pode esperar de alguém que afirma que "a minha morada é a matrícula do meu automóvel",  "ando sempre de um lado para o outro" e que é tido por, sic, "mexido"? Se escavarmos a coisa, para usar um termo recorrente de um comentador da RTP, este Portugal de apelido decerto não brota do nada. Por trás dele estará seguramente o director geral de conteúdos da casa, uma relíquia para quaisquer tempos políticos, Luís Marinho. Marinho nunca é visto nem ouvido mas manda silenciosa e eficazmente desde tempos e ministros imemoriais. Infelizmente Miguel Relvas decidiu amenizar a sua saída da administração Guilherme Costa com  esta prebenda original que é o cargo formalmente inexistente de director-geral. E Marinho "reina" na RTP mais do que o dr. Alberto da Ponte alguma vez reinará. Sobreviver-lhe-á, naturalmente, porque exala a paciência de um chinês. Já viu passar os cadáveres de colegas, de administradores, de ministros e de primeiros-ministros sentado tranquilamente à beira de Cabo Ruivo. Agora atirou o tal de Portugal de apelido às feras. Não lhe auguro grande futuro.

 

Foto: Público

Alice e o dr. Passos

João Gonçalves 28 Dez 13

Se o tropismo numérico dos 120 mil e dos 20 mil "empregos" se tivesse passado com Guterres, Barroso, Santana Lopes (meu Deus, Santana Lopes!) ou mesmo com Sócrates "dos últimos dias", não teria subsistido a menor complacência. E já estou a descontar as "festas". Mas o momento político é de declinação ronhosa dos livros da Alice, quer "no país das maravilhas", quer "através do espelho". Maria João Avillez, que não é Lewis Carroll, chama-lhe "resiliência" e não pode deixar de admirar um homem que mantém a mesma calma a beber uma bica ou a assistir a um incêndio (ela estava a citar o "pensamemto mágico" de Ricardo Costa diante deste). Eu, modestamente, como o personagem de Carroll, apenas vejo Ninguém vir ao longe na estrada. E, Alice dixit, como seria bom poder ver Ninguém.

A "cultura" em 2013

João Gonçalves 27 Dez 13

Segundo a articulista Vanessa Rato, do Público, a "cultura" no ano da graça de 2013 foi o "caso Crivelli", a dietazinha mediterrânica, a Rua da Sofia e o extraordinário dr. Barreto Xavier (e a Joaninha, já agora). Aliás, a prosa dedicada a Xavier resume eloquentemente o estado da arte que ele, por sua vez, resume com a sua presença "joanavasconceliana" - não menos eloquente como o famigerado cacilheiro que parece estar como que embargado em Veneza - em todos os "eventos" nos quais possa aparecer "colado" ao senhor PM ou ao senhor PR (o que me matéria cultural vai dar ao mesmo). «Quando tomou posse, em Outubro de 2012, Jorge Barreto Xavier foi recebido com algum alívio por agentes que com ele se foram cruzando ao longo de um percurso de quase três décadas. Depois de uma subida degrau a degrau, da base ao topo, o novo secretário de Estado perfilava-se como um profissional com bom conhecimento do terreno, ambicioso, com capacidade de diálogo, de gestão, execução e, até, algum músculo político. Não quer dizer que houvesse grandes expectativas: na ressaca de um biénio de cortes drásticos, bastava a ideia de que, com ele, talvez o naufrágio não fosse total. Por então, havia no entanto também muitos agentes – demasiados (e são cada vez mais) – para quem parecia já irrelevante quem ocupava o cargo. Para estes, a questão era o que poderia fosse quem fosse face a uma tão dramática descapitalização e desestruturação sectorial. Ficará por saber o que poderia outro.» Fica mesmo.

E a vaca?

João Gonçalves 27 Dez 13

 

Enquanto almoçava, pedi o Correio da Manhã. Dei de caras com a página semanal do Pedro Santana Lopes. E li. Não estamos perante uma "figura pública" anódina. S. Lopes, entre outras coisas, foi presidente de duas câmaras municipais, uma delas a da capital, eurodeputado, presidente de um partido e de um grupo parlamentar, de um conspícuo clube desportivo e, famosamente, membro de governo e primeiro-ministro. Para além disto, é um grande orador e, nessa qualidade, um bom manipulador de massas. Parece que na passada segunda-feira "desistiu", num programa de televisão, de ser candidato a candidato presidencial em 2016. Mas, nele, estas "desistências" têm normalmente a consistência de uma peça de filigrana: umas "primárias" do centro-direita não dispensam a sua presença. Era, porém, do artigo que ia falar. Só que o artigo fala por si. E eu, para o poder ler até ao fim, precisei "esquecer-me" que gosto muito do Pedro Santana Lopes. Porquê? Porque um político como ele não pode perpetrar uma redacção destas, um misto de ficção política com bocadinhos de um hiper "Guia de Portugal" para pequenitos e turistas acidentais. «No meu último artigo deste ano, quero dizer bem do meu País. Portugal é único e sabem-no bem, independentemente das idades de cada um, todos aqueles que emigram. Sempre que os Portugueses estão lá fora, aprendem a dar valor ao seu País. Ficam logo cheios de saudades do clima ameno, da segurança nas ruas, da nossa gastronomia, das vistas de mar e de rio, do nosso café e, até, da nossa maneira de ser. Eu quero neste último artigo do ano dizer que temos um Governo que procura seguir aquilo que acredita ser bom para o País. Esteja mais certo ou mais errado, consoante a perspectiva de cada um, verdade é que o Primeiro-Ministro tem sido coerente, sensato e discreto. Os lideres dos dois partidos da coligação procuraram ultrapassar diferenças e conseguiram colocar acima de tudo o interesse nacional. O líder do principal partido da oposição tem procurado conciliar a obrigação de se demarcar com a vontade de convergir. O Presidente da República tem procurado dar força ao Governo, mas nunca esquecer o respeito que é devido à oposição. Os dirigentes sindicais têm feito tudo para não deixarem deslizar o descontentamento e mesmo a revolta para formas extremadas de manifestação. Os lideres das outras forças partidárias têm sido iguais a si próprios. Os empresários têm-se desdobrado em esforços para exportar mais e criar emprego. Os trabalhadores por conta de outrem têm sido fantásticos, aguentando pesadas medidas de austeridade. Os profissionais, em geral, têm suportado uma atroz carga fiscal, que leva para o Estado grande parte dos rendimentos. Os artistas têm sentido a crise como poucos. A imprensa escrita e falada tem feito trabalhos de grande qualidade em informação, reportagem ou análise do que vai acontecendo em Portugal e no resto do mundo. No desporto, várias as alegrias proporcionadas aos Portugueses. O País é tão bom que cada vez mais turistas o visitam, e cada vez mais se rendem às suas belezas e aos seus encantos. É bom viver em Portugal.» E a vaca, Pedro? Onde é que está a vaca?

Não se queixem

João Gonçalves 26 Dez 13

Não admira que as audiências do "cabo" aumentem enquanto a dos canais generalistas e seus derivados diminuem. Nestes reina a endogamia e o ensimesmamento. Os da "casa" entrevistam-se uns aos outros, entram nos programas uns dos outros, promovem-se uns aos outros, "partilham" uns e outros, com os espectadores que nada lhes pediram, as suas vidas mais ou menos "gloriosas", os seus "amores", as suas coisinhas. É deprimente, mesmo quando só há sorrisos idiotas no ar e, no limite, chega a ser repelente. No fundo parecem "casas dos segredos" em pseudo sofisticado. Ainda vamos ver um dia destes a dra. Judite, por exemplo, a entrevistar uma lampreia de ovos ou um leitão de Negrais gentilmente oferecidos pelo prof. Marcelo, o dr. da Ponte a apresentar o eurofestival da canção com a Furtado ou o recente desenho animado de Clara de Sousa a brincar com o homólogo de João Manzarra em torno do "regresso a mercado". Não se queixem.

"Todos os instrumentos"

João Gonçalves 26 Dez 13

 

Os trabalhadores investidos em funções públicas com formação superior - por causa da "despesa" e dos "problemas" que o senhor PM não quer ver toldarem o radioso final anunciado do seu "ajustamento" de estimação, o tal que justifica o recurso a "todos os instrumentos" (incluirá alguma "solução final" original, "liberal e democrática"?)  são "convidados" a sair com uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma (agora este meritório exercício fica por conta da provável sucessora do dr. Rosalino que entretanto regressa ao quentinho do Banco de Portugal). Todavia, a necessidade continua a aguçar o engenho e vice-versa. Não é para isto que servem os amigos, os conhecidos dos amigos e os amigos dos conhecidos? Se isto não é um país de trampa, cheio da natalícia pelo menos nas ruas de Lisboa , então não sei o que é um país de trampa. Se calhar, melhor é impossível.

Belas intuições

João Gonçalves 25 Dez 13

 

Não tenho muita paciência para os "devires" e para as "inscrições", ou "não inscrições", de José Gil. Mas, como diria Proust, Gil não deixa de revelar algumas "belas intuições" sobre os engendramentos de Fernando Pessoa nos seus livros.

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