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portugal dos pequeninos

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Ao ataque, portanto

João Gonçalves 23 Nov 13

Há para aí cerca de três anos, no pavilhão Chinês, o Medeiros Ferreira contou-me (repetiu-o nesta entrevista) que Victor Cunha Rego, já muito doente, lhe disse em 1999: «promete-me que se vires que Portugal está mal dentro da UE, tira-o de lá como o puseste.» Parafraseando livremente o Medeiros, ajudei a pôr este Governo onde ele se encontra - e posteriormente a "compô-lo" - e agora está porventura na hora de ajudar a tirá-lo de lá. Isto serve para aqueles que, sob anonimato ou não, vêm aqui repetidamente admoestar-me por alegado "ressabiamento" ou com outros mimos irreproduzíveis. Esquecem-se que, neste regime, e dentro dos partidos do regime, houve sempre rupturas e foi assim que, parcamente, é certo, ele evoluiu. O ambiente de pacificação institucional e de desanuviamento da opinião pública que se seguiu a Junho de 2011 há muito que desapareceu. O próprio programa do Governo, em cuja elaboração participei, foi progressivamente sendo substituído pela redacção única do "programa de ajustamento" a qual, por seu turno, foi-se transformando num alien que acabou a devorar parte dos seus "criadores" como Gaspar, aliás, bem notou em carta de 1 de Julho de 2013.  Portas entretanto anda por aí a devorar politicamente o que lhe consentem e, todos juntos, já nos entram no osso, com especial destaque para um secretário de Estado com foros de ministro, H. Rosalino que, a avaliar pelo que vem noticiado no Expresso, desautorizou, com um veto de gaveta, o antes aplaudido MAI Miguel Macedo perante as forças que tutela. Não faltam exemplos, pois, para seguir indirectamente a recomendação de Cunha Rego. Como alguém que se considera da não-esquerda, estou disponível, sem puerilidades revanchistas, para «atacar a iniquidade, a injustiça, o desprezo, o cinismo dos poderosos para quem a vida decente de milhões de pessoas é irrelevante, não conta, é um “custo” que se deve “poupar”. A transformação da palavra “austeridade” numa injunção moral serve para um Primeiro-ministro, apanhado pelo sucesso dos celtas, sorrir cinicamente para nos dizer que a “lição” da Irlanda é a ainda precisamos de mais austeridade, ainda precisamos de mais desemprego, ainda precisamos de mais pobreza. E sorri muito contente consigo mesmo. O discurso de contínua mentira e falsidade que nos diz como se fosse uma evidência, que “as empresas ajustaram, as famílias ajustaram, só o estado não o fez”, como se as três entidades fossem a mesma coisa e o verbo “ajustarem” significasse o retorno a um estado natural das coisas de que só o vício de quererem viver melhor afastou os portugueses. Na verdade, pode-se dizer que “as empresas ajustaram”. Sim algumas “ajustaram”, mas a maioria “ajustou” falindo e destruindo o emprego, - que para quem não tem outra “propriedade” é o seu modo de vida. As famílias não “ajustaram”, empobreceram e estão a empobrecer muito, para ter que ouvir como insulto os méritos de perderem a casa ou o carro, ou a educação superior para os seus filhos, e o valor moral de deixar de comer bife e passarem a comer frango. No entanto, há uma coisa em que estou de acordo, de facto o estado não “ajustou”, continua religiosamente pagar os desmandos dos contratos leoninos das PPPs, a negociar com vantagem para o sistema financeiro, os contratos swap, em vez de receber a lição do sucesso judicial de empresários que recorreram aos tribunais, a baixar uns impostos para algumas empresas ao mesmo tempo que continua a permitir que um contínuo entre um establishment no poder ligado ao sector financeiro capture as decisões políticas, tornando intangíveis os seus interesses na razão directa em que viola todos os contratos com os homens e mulheres comuns, destruindo toda a confiança que numa sociedade democrática é a garantia do contrato social.» Ao ataque, portanto.

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Por que é que não se trata?

João Gonçalves 23 Nov 13

 

Uma vez assisti, em substituição de uma colega que costumava acompanhar o ministro Relvas nessa função, a uma reunião de conselho de secretários de Estado. Pelo menos à parte em que o ministro presidiu. E nessa parte houve uma intervenção do secretário de Estado da Saúde, Leal da Costa, que, se bem entendi, retomava a defesa de um diploma a que os seus colegas torceram muito adequadamente o nariz. Tinha a ver com o tabaco e a proibição de fumar aqui e ali. Leal da Costa pretendia erradicar o fumo praticamente até à estratosfera começando por invadir a privacidade terrena das famílias: os paizinhos e as mãezinhas não podiam fumar junto das crias. Segundo o Expresso, a coisa alastrou para cadastro. Ou seja, progenitor que fume ao pé da cria pode sujeitar-se a figurar numa vulgar lista de criminosos. Não só não fumo como não gosto que fumem para cima de mim. Mas nunca me passaria pela cabeça subscrever legislação norte-coreana a propósito dos costumes. O "liberalismo" de Leal da Costa - como, aliás, o restante liberalismo do Governo, meramente de pacotilha - traduz-se mais ou menos num chip e numa trela que ele apreciaria ver colocados no pescoço dos fumadores. Por que é que não se trata?

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