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portugal dos pequeninos

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Cada um tem o que merece

João Gonçalves 10 Nov 13

Lamentavelmente o dr. Rui Machete, ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, não pára de dar sinais de que se enganou na reflexão de três horas que o conduziu ao Governo. Vaidade? Nunca se chegará a saber. O seu desfasamento permanente, a sua delicada incontinência verbal, a sua imagem de quem se questiona  logo de manhã, ao espelho, sobre "o que é que eu estou aqui á fazer?", já se tornaram uma verdadeira "imagem de marca". Agora, dos confins da Índia, Machete recuperou a "ameaça" de um segundo resgate após um breve exercício retórico em torno de taxas de juro. Passos Coelho não tem tido sorte com os seus ministros de Estado. Mas, na verdade, cada um tem o que merece.

Já enjoa

João Gonçalves 10 Nov 13

Li ontem no Expresso que o Senhor PR insiste num "acordo" que "salve" não necessariamente o país mas o orçamento para 2014. Começou por ser o "compromisso de salvação nacional" de Julho. Também, de vez em quando, se chama "consenso" e,  agora, é "acordo". Não percebo a insistência do Presidente num "acordo" antes de eleições a não ser pelo terror que lhe inspira os dias a seguir a Junho de 2014, o mesmo seguramente que o levou a abdicar de convocar eleições legislativas conjuntas com as autárquicas e em empossar o embuste do "novo ciclo". Para aprovar o orçamento - a única "reforma do Estado" no terreno e não em Marte - basta a maioria. Se o Doutor Cavaco pretende outra coisa, sabe muito bem, desde 1985 pelo menos, como é que se faz. É que tanto "compromisso", "consenso" ou "acordo" vazios já enjoa.

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Álvaro Cunhal 1913-2013

João Gonçalves 10 Nov 13

 

Há um século nascia Álvaro Cunhal. Quando visitei a exposição que o PCP organizou para esta comemoração, retive as suas últimas disposições, datadas de Dezembro de 1999, que resumem uma vida nunca derrotada nos "ideais" mas inevitavelmente pela história: «a todos desejo que, vida fora, realizem os seus sonhos». Cunhal confunde-se com a "biografia" política do país, no século XX, à semelhança de Salazar. Cunhal "aceitou" a democracia e fez do PC o partido mais respeitador dos seus rituais, das suas normas, das suas defesas: a derradeira "conquista" é sempre a melhor da que dantes não prestava. O "colectivo" foi sempre a sua maneira de dizer "eu" embora, aqui ou ali, sobretudo nas derradeiras entrevistas, deixasse transparecer o homem.. "Despersonalizo, portanto...", diria a Maria João Avillez. "Eu não adivinho, batalho", "eu não alimento nada, tenho apenas a minha maneira de viver". Cunhal poderá ter-se tornado incompreensível à luz dos "valores" vigentes na Europa e no mundo. Este "modelo político" representa tudo o que Cunhal intelectual e intimamente desprezava. Não aludo a questões puramente ideológicas mas a coisas mais profundas que se prendem com a própria "natureza" humana. Cunhal era demasiado elegante para poder suportar a ascensão planetária da vulgaridade pequeno-burguesa sem um sorriso malicioso e, sem dúvida, amargo como revela Avillez no livro Conversas com Álvaro Cunhal. «Era o último encontro, mas eu não sabia. A derradeira vez que eu via aquele homem doente («eu estou a ver muito mal, não vale a pena mostrar-me isso, não vejo, não consigo ver...») que durante quase trinta anos me fez sempre partir com precipitação e os sentidos alerta para um segundo andar da avenida António de Serpa e, depois, para um gabinete descarnado e nu da rua Soeiro Pereira Gomes. Um homem envelhecido que agora sorria mais tristemente, agarrado à sua "convicção" («sim, a convicção foi e é, fundamentalmente, o segredo da resistência e dos combates».) E se eu disser a palavra "derrota"?, perguntei-lhe subitamente nesse dia, mas quase a medo, diante do gravador ainda ligado (e detestando-me por selar aquela longa conversa com uma única palavra que, afinal, lhe cabia por inteiro): Uma derrota ... "amarga", Dr. Cunhal? «Amarga é uma palavra muito pequenina para o que foi.» E foi. Aquando da sua chegada triunfal ao aeroporto de Lisboa, era, ainda, um mistério. As primeiras imagens e as primeiras palavras recortavam todavia a figura definitiva que a "revolução" e a democracia iriam consagrar. O porte aristocrático, o olhar da “noite do mundo”, o discurso cortante, a mordacidade evasiva, a concentração obsessiva, o messianismo do “colectivo”, tudo isso emergiu imediatamente. Era o único que sabia perfeitamente ao que vinha. E no seu “sentido único”, Cunhal foi de uma verticalidade rara. E, por aí, um homem raro. A sua visão do “pacote” da democracia era radicalmente diferente daquele que nós, par delicatesse, aceitamos. Respeito a memória de Álvaro Cunhal cem anos depois do seu nascimento. Tive familiares que estiveram detidos em Peniche ao mesmo tempo que o “camarada Duarte”, um dos  seus pseudónimos na clandestinidade. Tive e tenho familiares que  foram sempre comunistas. Eu parti muito cedo, e definitivamente, numa outra direcção. Faltava-me tudo o que eles possuiam: acreditar no "homem" e na sua "salvação doutrinária", a disciplina férrea, a "felicidade pela coerência" e, sobretudo, a “história” de um "Portugal dos Grandes" entretanto desaparecido.

 

Foto: Público

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