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portugal dos pequeninos

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A história é o que é

João Gonçalves 2 Nov 13

 

O Paulo Portas, se bem me lembro, não frequentou no nosso último ano de direito a cadeira facultativa de história diplomática de Portugal, ministrada por Jorge Borges de Macedo. Se o tivesse feito, não teria dito que «em 2011 vivemos uma espécie de 1580 financeiro» ou que «em Junho de 2014 podemos viver uma espécie de 1640 financeiro.» Entre 1580 e 1640 o país perdeu a soberania na ordem externa - era representado, na chefia do Estado, por Filipe II de Espanha e nós ainda há dias vimos o Doutor Cavaco, no Panamá, na sua qualidade de Chefe do Estado português e não, por exemplo, o dr. Barroso, a Mme. Lagarde ou o sr. Draghi juntos ou alternados - mas manteve a soberania na ordem interna, com as suas instuições e representações nacionais. Também poderia ler o ensaio de Vitorino Magalhães Godinho, "1580 e a Restauração". Por isso não vale a pena tentar humilhar-nos mais do que o estritamente necessário a pretexto de um "programa de ajustamento" financeiro para efeitos da mais reles propaganda política "à la Caldas". A história é o que é.

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Estive a folhear alguns jornais. Até uma cartinha de "direito de resposta" li - bem como a "resposta" ao "direito de resposta" - para certificar-me que não vale a pena tentar fazer passar toda a gente por tolinhos. Isso ou escolher para "gestor" (?) do principal canal da televisão pública um infeliz compagnon de route dos que cavam presentemente a sepultura da RTP. Mas, exemplarmente, Vasco Pulido Valente sumariza, no Público, o momento que vivemos a pretexto de uma falácia (o "guião" do velho jornalista Paulo Portas que, mesmo assim, consegue sugestionar duas ou três formas de vida inteligente e outras tantas oportunistas) e de uma estupidez (a anunciada expulsão de militantes partidários com um módico de actividade sináptica). Resumindo, «a política portuguesa chegou a um ponto de imbecilidade e descaramento em que já acha fácil enganar o país. Não engana.» Pelo menos a mim não engana porque durante dois anos, ainda bem fresquinhos, a "conheci" por dentro. Não devia nem podia ter sido assim mas, pelos vistos, e na cabeça dos seus próceres, está tudo bem assim e não pode ser de outra forma. A imbecilidade, o descaramento e a pobreza de espírito constituem uma mistura explosiva que, decerto, acabará mal. E quanto mais depressa acabar, melhor.

 

 

«Pensei em escrever qualquer coisa sobre o Guião para a Reforma do Estado, que o primeiro-ministro e o vice-primeiro ministro várias vezes nos prometeram desde Fevereiro e que, finalmente, apareceu por aí com um título pomposo e velho. Mas não vale a pena. O dito "guião", escrito numa prosa oca e burocrática, não passa de uma série de lugares-comuns, por que ninguém no seu juízo jamais se interessará. Embora Paulo Portas se tenha esforçado por o enchumaçar, mandando usar uma letra grande e pôr muito espaço entre cada uma das divisões da coisa. Infelizmente, este patético truque não convenceu nem a televisão, nem os jornais, nem a pequena parte do público que por acaso ou puro masoquismo se decidiu a ler esse tão esperado "documento". A política portuguesa chegou a um ponto de imbecilidade e descaramento em que já acha fácil enganar o país. Não engana. Mas, deixando Paulo Portas, no assento etéreo onde subiu, convém levar a sério a extraordinária purga (ou, se quiserem, saneamento) que se anuncia no PSD. Parece que umas centenas de militantes (à volta de 400) vão ser expulsos por se haverem candidatado em listas de oposição ou simplesmente por se associarem a elas de maneira que os "notáveis" do partido consideraram ofensiva. Até 2011, o PSD foi uma embrulhada de facções pessoais, sem ideologia, sem doutrina e sem estratégia. Quando Pedro Passos Coelho chegou (às costas de algumas dessas facções), veio presidir a um partido que se tornara numa espécie de federação de municípios só ligada por interesses pouco confessáveis, na melhor hipótese, e, na pior, pelo medo da polícia. Agora, precisam de chicote ou querem vingança - o que não admira. Um partido desta natureza não podia, de toda a evidência, governar Portugal. Mas governou sob a protecção da troika, que lhe ofereceu um ersatz de programa económico e financeiro e desculpa ideal para uma política errada e perniciosa, que o próprio Vítor Gaspar tristemente denunciou. Quanto ao resto, abandonado ao arbítrio de cada ministro, oscilou entre o razoável e o péssimo, sem que o primeiro-ministro se perturbasse, porque já muito antes se habituara ao caos e, no fundo, se convencera que estava a salvar a Pátria. A pobreza de espírito da classe dirigente portuguesa - do PSD, do PS e do CDS - encontrou na crise um campo aberto à sua livre manifestação. A asneira rolou sobre nós e trouxe a miséria, que não serviu para atenuar as dores do presente ou para preparar uma sociedade organizada e previsível. Do "guião" do sr. vice-primeiro aos saneamentos do PSD, nada faz sentido.»

 

Vasco Pulido Valente, Público


Foto: Expresso

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