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portugal dos pequeninos

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O "guião"

João Gonçalves 31 Out 13



A apresentação do "guião" para a alegada "reforma do Estado" avivou no senhor vice PM o que nele há de jornalista "senior". Na fase de diálogo, tratou os epígonos presentes com a amabilidade paternalista de quem contempla uma pequena plateia de estagiários. Fora uma pergunta pertinente da jornalista da TVI - que valeu ao velho jornalista uma resposta "branca" típica de quem não pretendia mais do que "vender" justamente uma "marca branca" para iniciados - , a coisa, baseada também em "artigos de opinião" (sic) e em algum trabalhinho de sapa de gente como Álvaro Santos Pereira, não se recomenda especialmente sobretudo pelo tempo que levou a ser "gerada" (o senhor vice PM deve andar ocupado com a "coordenação económica" e política do dr. Lima). O velho jornalista sabe que apenas tinha de desenvencilhar-se daquilo e deu à luz pouco mais de cem páginas em "corpo 16" a dois espaços. Espremida, a "reforma" serve para ilustrar um livro de leitura lado a lado com uma versão soft do chamado "milagre" da Rainha Santa Isabel. Sem as rosas e sem o pão.



«É preciso compreender, e de vez, que isto não vai lá com falinhas mansas, nem com políticas de remendos mais ou menos engenhosas. É preciso compreender que o capital financeiro domina hoje inteiramente o mundo, destruindo a sociedade industrial, liquidando o mundo empresarial e esfarelando a articulação nuclear do "social" que se constituiu na segunda metade do século XX, e foi sempre uma relação entre os recursos disponíveis e os valores colectivos adoptados por cada colectividade. É também preciso compreender que nunca como hoje a finança teve tanto poder e tanta influência na economia (global e virtual) e, ao mesmo tempo, um papel tão escasso e tão diminuto na economia real, de que - como bem sabemos - depende o essencial da vida concreta das pessoas. E é ainda preciso compreender, e bem, que nunca a democracia foi um dispositivo tão frágil nas mãos dos que a pensam deter ou dominar. Ela é hoje vítima de uma difusa ilusão de liberdade individual ilimitada, sem freio nem fim, que tem como contraponto constante, não a emancipação - como historicamente aconteceu durante décadas - mas a quase total impotência dos cidadãos e das sociedades, que na verdade foram expropriados do seu poder ou, como diria Spinoza, da sua capacidade de agir. É esta, na realidade, a verdadeira razão porque nada acontece há anos, fora das áreas do protesto mais ou menos pueril e ritual, mais ou menos consolador e inútil, a que temos assistido. Sem projectos colectivos minimamente estruturados, sem ideias credíveis e magnetizadoras, vive-se em plena gelatina opinológica, que foi tomando o lugar das antigas ideologias e expulsando toda a meritocracia para colocar no seu lugar uma vaga ruminação idiotológica. Vivemos assim no fio da navalha - entre a já histórica incompetência do Governo de Passos e as já antológicas piruetas de Portas, entre a pusilanimidade de um suposto Presidente e uma cada vez mais improvável República e - pelo menos até agora, em que finalmente se anuncia para os próximos tempos uma "Convenção" para dar um "novo rumo" a Portugal - uma total e confrangedora ausência de efectiva alternativa de projecto nacional por parte da oposição. Como Manuela Silva lapidarmente disse numa entrevista recente ao jornal Público (27/10/2013), as nossas lideranças têm-se revelado de "uma grande ignorância face ao País real que somos, e com falta de capacidade técnica para operacionalizar reformas."»

 

 

Manuel Maria Carrilho, DN

 

 

«Seria mais sensato explicar à troika, no recato dos gabinetes, mas também no espaço público, mostrando que o Governo se compromete com o seu povo, que não é possível pagar aos credores, se estes retiram ao País os instrumentos do investimento económico (com a exiguidade do crédito e as elevadas taxas de juro, mercê da fragmentação financeira da Zona Euro), e obrigam a uma redução acelerada do défice governamental, que se torna tóxica quando combinada em simultâneo com a retracção da economia das famílias, da tesouraria das empresas, o mergulho introspectivo da banca, e o aumento das despesas sociais do Estado, devido à desintegração do tecido produtivo. A política europeia hoje faz lembrar a "estabilidade" das linhas da frente ocidental na I Guerra Mundial, entre Dezembro de 1914 e Março de 1918. Uma estabilidade regada pelos milhões de mortos de uma guerra de atrito. Continuar a persistir na "estabilidade" dolorosa da austeridade é não só moralmente mau como intelectualmente estúpido. A troika e o Governo brincam com a resistência dos materiais. O atrito bélico e a agonia social têm limites. E quando eles são atingidos a reacção em cadeia segue caminhos sinuosos e inesperados.»



Viriato Soromenho-Marques, idem

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