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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

A conclusão

João Gonçalves 13 Out 13

Da intervenção do senhor vice PM - ladeado por duas pessoas que não deviam saber bem o que é que estavam ali a fazer - retira-se o seguinte para além de uma lavagem sumária do ego diante das televisões basbaques: ficámos a saber que uma condição de recurso que implica cortes em pensões de sobrevivência é absolutamente diferente de um corte numa pensão de sobrevivência. Como diria o falecido Candal, parabéns à prima.

Apelo à seriedade

João Gonçalves 13 Out 13

 

 



«Desse lugar foi lançado um sinal severo, que investe contra a falta de reflexão reinante, um apelo à seriedade da vida e da história, uma recordação dos perigos que pairam sobre a humanidade. É o que o próprio Jesus lembra muitíssimas vezes, não temendo dizer: "Se não vos converterdes, perecereis todos" (Lc 13,3). A conversão - e Fátima recorda-o plenamente - é uma exigência perene da vida cristã.»

 

Joseph Ratzinger, Diálogos sobre a Fé

Um limite

João Gonçalves 13 Out 13

Estou à vontade para elogiar Jorge Sampaio, na circunstância desta entrevista, já que raramente o faço. Mas Sampaio - tal como recentemente Ramalho Eanes - produziu uma avaliação muito interessante dos tempos sombrios que vivemos. Sobre o ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, Sampaio "aconselhou" o seu sucessor a intervir. E fê-lo com a autoridade cívica e moral de quem, enquanto Presidente da República, sugeriu ao então primeiro-ministro, António Guterres, a remoção de Armando Vara do seu governo depois de umas quantas peripécias com uma "fundação". Não houve nada de pessoal nisto (Sampaio também se louvou na amizade com Machete) mas apenas política que é algo que, por definição, os Presidentes fazem. E um certo sentido institucional das coisas que não prejudica as "competências" de quem quer que seja uma vez que é o PM, em derradeira análise, quem decide. Nem que seja a título de contingência, haverá sempre um limite para os "minimalismos" presidenciais.

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O emblema

João Gonçalves 13 Out 13

 

Foi há menos de um ano mas parece que já passaram cem. Ao fim de uma tarde do mês de Outubro de 2012, na residência oficial do primeiro-ministro, reuniram-se à volta de uma mesa umas quantas pessoas. O tema era a RTP. Os consultores explicaram em powerpoint os vários "modelos de gestão" que tinham estudado. Ouviam a exposição, para além do chefe do governo, dois ministros de Estado e o ministro da chamada "tutela", o conselho de administração da RTP e o entretanto desaparecido conselheiro do governo para as privatizações. Recuados, dois adjuntos, um de um ministro de Estado e o outro do ministro da "tutela", assistiam ao exercício. Todos os presentes, salvo infelizmente um, sabem o que disseram e o que não disseram, o que comentaram e o que não comentaram, o que perguntaram e o que não perguntaram. Uma coisa, porém, ficou clara. Um dos ministros de Estado foi dos que mais perguntou. E aí, o adjunto do ministro da "tutela", baixinho, disse ao seu colega adjunto do ministro de Estado que lhe parecia que S.Exa. pretendia, no fundo e, salvo aqui ou ali na forma, deixar a RTP praticamente como estava. Ele confirmou. Meses volvidos sobre este episódio, o ministro da "tutela" pediu a demissão, os dois ministros de Estado também mas um deles permaneceu e até foi promovido a vice PM. O "cenário" da reunião de finais de Outubro de 2012 passou a ser "desenhado" politicamente a partir da vontade do antigo ministro de Estado que, em duas linhas na primeira página do Expresso, acabou com a possibilidade de se alterar o "modelo de gestão" da RTP, alienando alguns dos seus activos. Vasco Pulido Valente chamou-lhe ontem "um gesto único de autoridade" que obteve a complacência total do primeiro-ministro. Poiares Maduro, quando chegou, apanhou com este comboio em andamento. Quer fosse por causa de uns vagos "estudos" sobre o audiovisual e os "broadcastings" públicos que terá elaborado lá fora, quer fosse porque até uma foca era decididamente melhor, de acordo com o "meio", do que o ominoso Relvas, Maduro criou, como agora se diz, uma "expectativa" tão genial como ele na resolução de alguns problemas pátrios a seu cargo. Entre eles, a RTP. Todavia, menos de um ano após a reunião que descrevi, o "dossiê" RTP encontra-se no estado "interessante" que Eduardo Cintra Torres descreve e que subscrevo na íntegra: «parece saída de Marte, de Moscovo e da França napoleónica.»

 

"Parece que não há em Portugal nenhum canal e que se começará de novo, como nos anos 50: o Estado paternalista fará tudo sozinho, mesmo tudo, nas suas televisões e rádios: educar, informar e entreter o povo. Maduro defende um Estado e uma RTP com prerrogativas majestáticas, que não têm de atender à realidade nacional e mundial. O contrato pretende uma RTP imperialista que espezinha o mercado actual e impõe o Estado aos cidadãos. O ministro quer conteúdos muito bons, mas propõe que a RTP tenha pelo menos 12 canais (!) com programas de qualidade, quase 300 horas diárias. É tão impossível que custa a crer que o proponha. Diz que não haverá transferências do orçamento, mas aumenta a nossa transferência directa pela taxa e intui-se que quer sacar dinheiro (nosso) dos ministérios dos Negócios Estrangeiros e da Economia. Diz que o Estado é que garante a democracia e pluralismo com os seus media: o contrário de décadas de RDP e RTP. Diz que não quer atingir os privados, mas quer dar mais primazia à RTP na TDT. Quer publicidade nas rádios do Estado, com gravíssimas consequências para as rádios privadas. Nos conteúdos, além das boas intenções de qualidade, aponta para uma TV sistémica, com programas obrigatórios com chefes políticos, deputados e jornalismo "positivo" (como na Rússia ou na Hungria). Fala duma RTP 1 para o "grande público" sem dizer o que isso é ou sequer se existe. Mantém conteúdos de "serviço público" como a publicidade e as televendas. A RTP de Maduro parece saída de Marte, de Moscovo e da França napoleónica. Tendo em conta a realidade RTP, é totalmente impraticável, como se vê hoje no ecrã. É uma declaração de guerra ao equilíbrio existente entre público e privado. No final, não haverá bons conteúdos, isto é, a boa e única aplicação que interessa dos recursos disponíveis, mas apenas mais encargo para os contribuintes, mais e mais canais, propaganda sistémica, tudo numa visão pseudo-futurista, já ultrapassada pela realidade presente dos media e seus usos. É um projecto megalómano, desajustado da realidade e que não será posto em prática."


A RTP, os seus trabalhadores, o "público", consuma ou não consuma os produtos RTP, que vai pagar o aumento inusitado da CAV na factura de uma empresa privada distribuidora de electricidade em vez da indemnização compensatória pela concessão do serviço público (se tudo ficou como dantes, por que é que desaparece a dita cuja do OE - é uma pergunta legítima pelo menos a fazer ao senhor vice PM, bem como sabermos o que pensa do aumento da taxa), porventura mereciam outro tratamento que, pelos vistos, Poiares Maduro não sabe ou não pode dar à matéria. Talvez por isso tenha decidido afogar-se em inúteis "grupos de trabalho". E ainda falta esclarecer como é que"cria" ao lado da RTP outra empresa, dita de meios, nas actuais circunstâncias de facto, de mercado e de emprego. Por ajuste directo? Sem concurso? Para "arrumar" pessoas? Voltámos assim ao ponto de partida deste governo e do PSD (e de Passos, fundamentalmente, depois de 2010), quando ainda oficiavam de boa-fé, e que de novo Pulido Valente resume numa pergunta: «assistia ao poder político a legitimidade e o direito de impor e fazer pagar à generalidade da população um serviço que ela não pedira, não agradecia e crescentemente não usava?» Pelos vistos, assiste. E assiste porque a  RTP é um "emblema" da desorientação vigente. Como tudo o resto, acabará muito mal.

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