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portugal dos pequeninos

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Já não há duelos

João Gonçalves 7 Out 13



«O grande escritor Stendhal, numa obra autobiográfica, lamentava nunca se ter batido em duelo. Ao longo do século XIX, misturavam-se as paixões do romantismo com os ideais de honra da crepuscular era aristocrática. O duelo consistia numa idealização da passagem para a idade adulta. Tratava-se de um combate por reflectida deliberação. O adversário teria de acrescentar valor ao desafiador. Já depois de meados de Oitocentos ainda há notícia de duelos trágicos, como o que tirou a vida ao génio do socialismo alemão, o judeu Ferdinand Lassalle (que faz de Marx um taciturno rato de biblioteca), ou o nosso duelo literário entre Antero de Quental e Ramalho Ortigão (1866). Senti saudades destes tempos perdidos para sempre, no tropel de notícias e escândalos da última semana. A lista seria infindável, mas aqui ficam alguns apontamentos: o vice-PM transformou a apresentação do Orçamento do Estado numa palestra vacilando entre a parapsicologia a as exortações de um guru da auto-ajuda; o Presidente entrou nos domínios da psicanálise, mas correndo o risco de a Ordem dos Economistas o obrigar a fazer um exame, tantos são os disparates técnicos cometidos; o MNE, sobre cujo perfil os serviços de espionagem norte-americana já haviam alertado, continua a conduzir-se de acordo com o alçapão de segredos e mentiras da sua biografia. A democracia, apesar de ser o menos mau de todos os regimes conhecidos, obriga-nos a viver numa proximidade promíscua com gente a quem não permitiríamos sequer a entrega de uma pizza em casa. O problema é que nos roubam a tranquilidade de espírito, e entram-nos pelo bolso sem pedir licença. Nunca nos passaria pela cabeça desafiá-los para um duelo. Mas que temos de resistir para os enxotar para uma distância habitável, disso não restam dúvidas.»

 

Viriato Soromenho-Marques, DN

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Pol Pot em Lisboa

João Gonçalves 7 Out 13

 

Na Suécia, o Doutor Cavaco desvalorizou algum eventual significado nacional das eleições autárquicas. Disse mesmo que apenas tinham um efeito "local". O que se tem vindo a saber quanto ao OE 2014 comprova a "teoria" presidencial. São as ridículas "pequenas poupanças" do dr. Portas, são os cortes nas pensões de sobrevivência para "poupar" cem milhões à custa da dignidade (e do dinheiro) das pessoas, é a cizânia perversa no mundo do trabalho, é o aviltamento do serviço público com o colaboracionismo de idiotas úteis "internos", etc., etc., em suma, são coisas "localizadas" que, todas juntas, correspondem à progressiva, deliberada e estatutária proletarização da sociedade portuguesa. Praticamente não se mexeu no "Estado paralelo" (veja-se o pornográfico "passivo" do dito revelado a semana passada: 32,37 mil milhões de euros de endividamento e prejuízos a rondarem os 220 milhões de euros) porque sempre serve, como sempre serviu, para "encostar" os encostados do regime e meia dúzia de amigos nas respectivas administrações, direcções e presidências. Confesso que nunca me tinha ocorrido que um governo dito de centro-direita pudesse agir como se estivéssemos num regime de "khmeres vermelhos" ao contrário. Pol Pot, afinal, tem herdeiros azuis, amarelos e laranja em Lisboa.

 

Adenda: O senhor vice PM usa a expressão "condição de recurso" (sic) para classificar os cortes em geral por contraposição à "pequena poupança" que representará a caça à chamada pensão de sobrevivência. Para além destes truques de "engenharia" social", temos agora a "engenharia de almas" escondida na semântica?

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