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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

O prof. Crato

João Gonçalves 19 Set 13

 

Quando o prof. Crato ruminava pelas televisões e calhava ouvi-lo, nunca encontrei motivos particulares para discordar. O homem era cordato, argumentava com um módico de concordância formal e substantiva e, apesar de ser economista, tinha um particular desvelo intelectual pela matemática o que, num país em que essa literacia não é famosa, o tornava interessante. Para além disso, condenava o "eduquês", uma coisa em que a educação, do básico ao secundário, se foi transformando obsessivamente durante o regime. Talvez por causa disto, alguém o recomendou ao dr. Passos, famoso pelo seu deslumbramento kitsch pela academia. O prof. Crato começou aparentemente bem como uma espécie de supra-Isabel Alçada, a sua antecessora. A ecologia do ministério e os sindicatos reagiam sem excessos às reuniões e às propostas, e Crato, como bom maoísta que foi, "diluiu" as latências conflituais no pacote do dr. Gaspar que, por natureza, tinha as costas largas. E até caiu em melhores graças mediáticas quando, de novo na televisão, e louvando-se num relatório do qual nunca mais se ouviu falar, esquartejou, com a impiedade típica de um zeloso velho seguidor do desdentado Mao, um colega seu de governo que acabara de se demitir. Entretanto estes biombos, para não sair do recorte chinês, foram caindo e o prof. Crato acabou exposto recentemente com as "novidades" divulgadas para o novo ano lectivo. Hiper liberal como qualquer ex-maoísta que se preze deve ser, o prof. Crato tem andado para aí a defender a "liberdade de escolha" como se vivessse na Noruega ou na Finlândia. E como se os destinatários da dita "liberdade de escolha" tivessem rendimentos per capita equivalentes aos desses maravilhosos países. O resultado está à vista. Uma trapalhada, quer pelo lado dos professores, quer pelo lado dos alunos, nas sucessivas "aberturas" do ano lectivo, o desvirtuamento ético do papel da escola pública numa democracia liberal, uma mexida deletéria no ensino do inglês que não se compreende, etc., etc. Em resumo, um conjunto de infelicidades que recomendam pelo menos, como Marcelo sugeriu em relação a outros dois membros do governo, que se cale.

A visita ao buraco

João Gonçalves 19 Set 13

 

No metro vinha um dos "ajudantes" da troika. Contemplava a fauna com o ar que quem repete para si mesmo: "é isto?" Estas avaliações, a oitava e a nona, serão muito difíceis. Até um cego já viu. Nada ajuda. A coisa já tinha começado com a sétima como famosamente o dr. Gaspar fez questão de salientar na sua carta de demissão, o tal documento que toda a gente finge que nunca existiu. Quase simultaneamente, o dr. Portas abriu a "crise de Julho" e, com a mesma cara de pau, foi apresentar-se aos credores, cerca de um mês depois, como o novo Lidador da pátria. Imagino que devem ter adorado conhecê-lo e ao seu misterioso programa de "reforma do Estado". Uma vez chegados aqui, os credores depararam-se com uma campanha eleitoral absurda em que os principais dirigentes partidários discutem, de uma terra para a outra, as décimas do défice e a intrínseca "hipocrisia" dos referidos credores. Pelo meio, alguém lhes há-de dizer que a principal interlocutora está a ser alvo de uma campanha mediática destinada a enfraquecê-la politicamente por causa da sua "vida anterior" enquanto trabalhadora investida em funções públicas. Em suma, os homens vieram meter-se num buraco do qual necessariamente vão retirar as piores ilações. E é entretanto neste buraco infecto que se "oferece" vistos de residência e, até, a nossa gloriosa nacionalidade a terceiros que queiram investir nele pelo menos 500 mil euros. Por natureza, um buraco é o mais fundo dos fundos. É onde estamos e não merecemos melhor.

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